quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Valorizo




Valorizo, cada vez mais, o que é simples e belo.
Como o brilho estampado nos sorrisos sinceros, a emoção que se expressa, timidamente, numa lágrima.
As manifestações da alvorada no orvalho entorpecido dos roseirais, na sinfonia estonteante da passarada, na delicadeza da brisa que nos beija.
No som das crianças plenas de brincadeira, e nos apertos de mão, e abraços, espontâneos
Valorizo, cada vez mais, a simplicidade do que é verdadeiramente simples e a beleza do que é genuinamente belo e precioso!
FR®

O voto

O voto

- O que aconteceu no templo? – quis saber Elcana, após regressarmos de Silo.
- Vi que te alimentaste e o teu rosto transparece, agora, uma invulgar serenidade de espírito.
Olhei-o pensativa. As palavras do sacerdote Eli permaneciam ainda no meu pensamento.
- Os lamentos do meu coração dissiparam-se e o apetite voltou – respondi.
- Alegro-me em ouvir isso – expressou com ternura.
A fragilidade do meu corpo e a palidez do meu rosto atestavam uma permanente falta de apetite.
- E como se dissiparam esses lamentos? – insistiu.
- Estava determinada a não subir ao templo contigo este ano – revelei – mas depois de ouvir Penina o meu coração predispôs-se a agir de maneira diferente.
- O que te disse ela desta vez? – quis saber.
- Chamou-me inútil, amaldiçoada, e aconselhou-me a regressar a casa dos meus para evitar mais vergonhas.
- Como pôde ela dizer-te semelhante coisa? – reparei na expressão facial endurecida.
- Não te zangues, Elcana – supliquei-lhe – Reconheço que as aflições e humilhações que me infligiu ao longo dos anos tiveram um propósito.
- O apelo de ser mãe intensifica-se com o passar dos anos… o vazio também. Esta incapacidade de gerar vida provoca-me uma secura interior inimaginável, que me corrói até aos ossos – confessei-lhe.
- A Penina foi a alavanca que Deus usou para me arrancar do lago de dor e angústia onde havia mergulhado.
- O meu amor não te é suficiente? – senti um travo de amargura na sua voz.
- O teu amor é-me essencial – assegurei - Bem sei que a minha esterilidade não é para ti um problema, mas tenta compreender-me. Um filho irá selar a nossa união para sempre.
- De ânimo e esperanças por terra, subi ao templo, predisposta a esvaziar todo o mal do meu coração. Com palavras, abundância de lágrimas e gemidos inexprimíveis derramei a minha alma suplicante diante do Senhor.
Dediquei-Lhe um voto, e estou confiante na resposta ao meu clamor, porquanto uma tranquilidade inexplicável inundou, desde esse momento, todo o meu ser. O sacerdote Eli viu-me e, tendo-me por embriagada, interpelou-me. Expliquei-lhe então o motivo que me levou ali. Ele entendeu e disse-me:
- ”Vai em paz, e o Deus de Israel te conceda o que lhe pediste”.
- E o que Lhe pediste? – perguntou sabendo de antemão a resposta.
- Um filho varão – anunciei - Se mo conceder, chamar-se-á de Samuel e levá-lo-emos ao templo, para que cresça diante do Senhor todos os dias da sua vida - Elcana, escutava-me com atenção e estupefação.
- Estás solidário com o meu voto? – com o seu abraço forte, e envolvente, expressou-me o seu apoio. E ali permanecemos confiantes na graça, e na misericórdia de Deus, abrigados no seio de um amor maior.
Com a esperança renascida e olhar ligado ao dele questionei:
- Haverá maior bênção do que ver um filho crescer na Casa do Senhor?
O seu silêncio assegurou-me que não.
Florbela Ribeiro®
Baseado no texto bíblico de I Samuel 1