segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Outono





A luz mudou,
o dó está mais cavo agora.
E a canção da manhã retumba no espaço.

Eis a luz outonal, não a luz da primavera.
A luz de outono: Tu não serás poupado.
A canção mudou, penetrada
pelo indizível.

Eis a luz de outono, não a que diz:
Nasci de novo.
Não a aurora da primavera: Fiz força, sofri, fui parida.
Eis o presente, alegoria de desperdício.
Muito mudou, mas tu tens sorte: 
o ideal arde em ti como febre.
Ou não como febre, mas como um segundo coração.

A canção mudou, mas é ainda uma beleza.
Confinada agora a um espaço mais pequeno, 
o espaço da mente.
Um pouco triste, algo desolada, angustiosa.

Mas comparecem, as notas, rondam estranhamente,
antecipando o silêncio.
E o ouvido habitua-se a elas,
como os olhos se habituam à ausência.

Tu não serás poupado, nem será poupado o teu amor.
Um vento veio e se foi, desarticulando a mente
e deixando no seu rasto uma estranha lucidez.

Ó privilégio, este de viver com paixão
agarrado àquilo que se ama,
não ser destruído pela perda da esperança.

Maestro, doloroso:
Eis a luz de outono, derramada sobre nós.
Ó privilégio, acercar-se do fim 
e crer ainda em alguma coisa.

Louise Glück
(Trad. A.M.)

http://ruadaspretas.blogspot.pt/search?updated-max=2015-11-03T09:08:00Z

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