quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O REGRESSAR DA SOMBRA



O REGRESSAR DA SOMBRA


A saudade mortificava-lhe os ossos envelhecidos.
No olhar, distante de tudo quanto estabelecera ao longo de anos, pairava a dura sentença.
Que posso fazer para ajuda-lo a superar a agonia de uma saudade, que nos consome a ambos? A resposta tardava em chega e nenhum dos esforços surtia efeito.
O seu silêncio, quase permanente, e a melancolia instalada na cor de âmbar assim mo confirmavam.
O meu sofrimento igualava-se ao dele, também eu sufocava na aridez interior. Razão pela qual coloquei toda a ânsia materna no filho que ainda me restava, o único que ainda não nos pedira para partir. Dedicar-lhe os dias, e a vida, foi o meu meio de sobrevivência.
Mas Hanniel optou por se render à dor, à dor que o apagava lentamente junto à ombreira da porta, de olhos postos no horizonte.
- Achas que fui um mau pai? – perguntou-me certo dia após a ceia.
A cabeça pendia-lhe por entre a curvatura dos ombros, da extremidade dos braços cansados as mãos rugosas e imóveis pareciam esquecidas sobre o tampo da mesa. Estreitei-as docemente nas minhas e respondi:
- Claro que não, Hanniel – declarei com ternura – nunca foste, não és, nem nunca serás um mau pai. Antes pelo contrário, és um pai terno, amigo, zeloso… sempre presente e atento às suas necessidades. Tu és um pai maravilhoso, e um marido fantástico.
Incapaz de me olhar de frente, deixou que as lágrimas desaguassem na lisura da madeira.
- Saberás então dizer-me o que o levou a querer partir?
- Creio saber – disse-lhe.
- Crês? – mirou-me com estranheza.
- Creio – repeti comovida diante dos seus dois indefiníveis desertos, tingidos por um laranja-amarelo.
– O crescimento dos nossos filhos foi premiado de amor. Doaste-lhes o teu ser com todo o saber. Ensinaste-os a caminhar, quando tropeçavam ou caíam, lá estavas tu, pronto a ajudá-los a levantar.
- Instruíste-os na verdade, no respeito, por si mesmos e pelo próximo, revelaste-lhes o valor de uma verdadeira amizade, o valor do trabalho, e as vantagens de seguirem pelo caminho certo. Colocaste a nu a ruína dissimulada do caminho errado, sem lhes ocultar nada.
- É verdade… eduquei-os com base na Lei Mosaica -  anuiu com um suspiro.
- A Lei de Deus, revelada ao Profeta Moisés – reforcei.
- Ensinaste-lhes a rota da virtude. Aconselhaste-os a percorrer, somente, as veredas do bem, da verdade e da justiça, e deste-lhes liberdade; a liberdade de perguntar, de pensar, de escolher e de agir.
- A ausência de notícias faz-me recear o pior – confessou.
- Eu sei, a mim também, mas cabia-lhe a ele escolher um rumo, não a nós. A escolha pertencia-lhe. E bem ou mal ele escolheu voar, voar para longe, abandonar o ninho.
- Tu fizeste a tua parte ao alertá-lo para os perigos do mundo, pediste-lhe para ficar junto de nós, ou quando muito, a manter-se por perto. Ele resistiu-te e insistiu. Que mais poderias fazer?
- Não sei… às vezes penso que podia ter feito mais. Podia tê-lo impedido de sair. Bastava que não lhe desse a sua parte na herança quando ma pediu.
- E o que ganharias em retê-lo contra a sua própria vontade? Bem viste a sua determinação em partir. O mais provável é que ficasse zangado, revoltado, e tentasse influenciar o Ary contra nós, levando-o a desertar com ele. E aí perderíamos, não um mas, dois filhos.  
- Tens razão, Mayim, sabe Deus o que poderia ter acontecido se me opusesse.
- Sim, sabe Deus.
As nossas mãos soltaram-se, Hanniel levantou-se e ausentou-se cabisbaixo.
Foi a primeira, e a última, vez que falamos abertamente daquele assunto para de novo nos envolvermos em silêncios, dúvidas e temores.
O tempo passava, o ar tornava-se cada vez mais pesado, quase irrespirável, obrigando-me a um esforço desmesurado para encher o peito de ar.
Ary também se tinha rendido ao clima e aquela situação. Já não procurava animar o progenitor nem distraí-lo com conversas, não partilhava com ele os acontecimentos da sua jornada. Limitava-se a cumprir as ordens dadas pelo pai, sem contestar, e a contactá-lo quando surgiam problemas de maior.
O entusiasmo que ocorria sempre que nascia um anho ou vitelo, cessara, por que a notícia simplesmente não chegava.
Desistiu de quebrar o gelo e a tensão provocados pela partida do irmão e mantinha-se afastado de casa o mais possível. Apresentava-se pontualmente à hora das refeições, para dormir e pouco mais.
Pai e filho tentavam digerir o vazio e a dor que sentiam, faziam-no à sua maneira, por razões contrárias.
E a minha esperança, num amanhã promissor, escasseava ao vê-los erguer a muralha do afastamento.
O conceito família surgia apenas quando nos deslocávamos à sinagoga.
Da leitura balsâmica dos Oráculos Divinos, e da oração, recebia o alento e a sustentabilidade para uma fé fragilizada.
Deus sabe por quanto tempo procurei manter a harmonia e o aconchego familiar. Deus sabe que usei toda a minha imaginação, capacidade, e energia mas também sabe que a frieza de um, e o afastamento de outro, levaram ao fracasso todas as minhas tentativas. Cansada de lutar sozinha, rendi-me ao inevitável.
As línguas trancaram o gotejar de açúcar, o laço ficou lasso e a tibieza aprisionou a perseverança.
E era tão difícil definir o que mais me magoava; se a saudade do filho ausente, a falta de notícias, se a insensibilidade de Ary, ou a imagem de um pai que envelhecia de olhos postos no vazio da paisagem.
O impulso e a vontade que sentia de o envolver num abraço, de o estreitar contra o meu peito para o afagar era tanta… Ah, como anelava por poder dizer-lhe: Está tudo bem, querido, para jamais o ver à espera do nada. Porém a submissão não se mexia.

No céu vibrava num matiz vermelho e laranja ao anunciar o declinar daquele dia.
De repente, Hannie, gritou:
- É ele, Mayim, é ele!
Recordo-me de ter saído apressada da cozinha, agarrada ao avental onde enxugava a humidade das mãos.
- Ele quem? – perguntei aflita, mas ele não ouviu.
Vi-o correr e abraçar um vulto. A distância não permitiu que os meus olhos definissem com exatidão a figura mas o meu coração reconheceu-o de imediato.
Era ele! O nosso Yan regressava a casa.
Assisti imóvel ao reencontro. Chorei de emoção e alegria ao vê-lo nos braços do pai, respeitei o momento.
A gratidão inundou-me as faces cansadas, ali estava a resposta que eu considerara tantas vezes tardia.
Deus restitui-me, de uma só vez, o filho e o marido que, embora presente, se mantivera longe de mim. O meu ser ganhou de novo vida e alento.
Ordenei que levassem a boa nova a Ary, para que regressa-se do campo e se alegrasse connosco.
Entretanto a sombra do jovem que partira abeirou-se timidamente de mim. A magreza que sobressaía da trapagem imunda levou-me à comoção. Sem melindres ou mágoas lancei-me ao seu pescoço e beijo-o, como fizera seu pai.
O meu Hanniel era agora um homem feliz. Com a juventude a dar sinais de querer instalar-se em cada vértebra, e a voz possante ordenou a preparação de um banquete. Da ementa fizeram parte o melhor bezerro cevado da manada, o melhor vinho, e as melhores frutas e as iguarias mais aromáticas e deliciosas.
A notícia espalhou-se rapidamente, houve contentamento no povo. Os músicos apressaram os instrumentos há muito omitidos. O som das harpas, alaúdes e saltérios repercutiu a grande distância enternecendo os corações.
Ary, não quis partilhar dos festejos, preferiu afastar-se indignado e amuado. O prenúncio de uma nova tempestade.
Mas no interior do compartimento reinavam o júbilo de um pai e o quebrantamento de um filho. Yan sabia que a sua prodigalidade não era merecedora da bondade, e generosidade paternal. Foi no entanto gratificante contemplar o seu renascimento. De alparcas nos pés e anel no dedo, despojou-se do velho homem e revestiu-se do novo.
Ele veio com a predisposição de se submeter à vontade do pai, mas ao invés de duros castigos, recebeu amor.
O amor inefável que só um pai pode, e sabe, dar.




©Florbela Ribeiro

1 comentário:

  1. A parábola do filho pródigo aqui muito bem ilustrada!!
    Esta parábola diz-me muito!!
    Parabéns!!
    Bj

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