quinta-feira, 7 de junho de 2012

retrato do poeta, Quarta-feira da Cinzas






retrato do poeta, Quarta-feira da Cinzas


It is impossible to say just what I mean!

T. S. Eliot, Prufrock and Other Observations


o poeta a um canto está sentado e só.
sob os auspícios de uma luz serena
apenas para si a lâmpada
segura um livro onde procura para esquecer
onde cai para de novo levantar-se
e confiscar ao silêncio a primeira frase
ou o elo perdido de um poema algures

duas jovens mulheres olham-no à vez.
cada qual sonha um destino gigantesco
e incita na outra prudência
jogo de cintura

é um salão distinto
as pessoas entram com vontade de amar o instante
e escolhem com muito cuidado o sabor do chá
ou do café

às vinte e uma e quinze
o poeta tomou o caderno e a caneta:
escreveu bastante, ali e além rasurou
não lhe percebemos gesto mais expressivo que
franzir o sobrolho

as jovens saíram às vinte e duas
uma delas despediu-se do poeta com um vago sorriso
ele não pôde percebê-lo — pensava.
alguns candeeiros iluminavam a solidão
outros porém enchiam-se de conversas
falas rápidas e falas pausadas
todo um desconchavo de fala-baratos atravessando
como flechas o tronco vulnerável das palavras
esgrimindo-as como utensílios velhos
indiferentes ao canto do homem

o poeta saiu também, eram quase vinte e duas e
quarenta. não lhe vimos nada de mais
tão pouco de menos. indiferente a tudo
pagou e partiu, livro debaixo do braço, um caderninho
no bolso. quem sabe o que nele registou
se algo como a luz nova de um poema
se o presságio de que em breve também da noite
se apagará o retrato

João Ricardo Lopes


Fonte: http://diasdesiguais.blogspot.pt/2007/02/retrato-do-poeta-quarta-feira-da-cinzas.html

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