terça-feira, 5 de junho de 2012

Eu sei que nos acostumamos. Mas não devíamos.





Eu sei que nos acostumamos. Mas não devíamos.

Acostumamo-nos a morar nos apartamentos dos fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não temos outra vista, logo nos acostumamos a não olhar para fora. E, porque não olhamos para fora, logo nos acostumamos a não abrir totalmente as cortinas. E, porque não abrimos totalmente as cortinas, logo nos acostumamos a acender mais cedo a luz. E, à medida que nos acostumamos, esquecemos o sol, esquecemos o ar, esquecemos a amplidão.

Acostumamo-nos a acordar de manhã sobressaltados porque está na hora. A tomar o pequeno-almoço a correr porque estamos atrasados. A ler o jornal no autocarro porque não podemos perder o tempo da viagem. A comer uma sandes porque não há tempo para almoçar. A sair do trabalho já de noite. A dormitar no autocarro porque estamos cansados. A deitar cedo e a dormir pesado sem ter vivido o dia.

A costumamo-nos a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, ao aceitar a guerra, aceitamos os mortos e que haja números para os mortos. E, ao aceitar os números, aceitamos não acreditar nas negociações de paz. E, ao não acreditar nas negociações de paz, aceitamos ler todo dia da guerra, dos números, e da sua longa duração.

A costumamo-nos a esperar o dia inteiro e ouvir do outro lado do telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas e a não receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisávamos tanto de ser vistos.

A costumamo-nos a pagar por tudo o que desejamos e necessitamos. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagamos. A ganhar menos do que precisamos. A fazer fila para pagar. A pagar mais do que as coisas valem. A saber que cada vez pagamos mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas onde nos cobram.

Acostumamo-nos a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A costumamo-nos à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Acostumamo-nos a não ouvir o passarinho, nem o galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher a fruta da árvore, a não ter uma planta sequer.

Acostumamo-nos a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, na tentativa de não perceber, afastamos uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, sentamo-nos na primeira fila e torcemos um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, molhamos apenas os pés e suamos o resto do corpo. Se o trabalho é duro, consolamo-nos a pensar no fim de semana. E se no fim de semana não há muito para fazer dormimos cedo e ainda ficamos satisfeitos porque há sempre horas de sono em atraso.
Acostumamo-nos para não nos ralarmos na aspereza, para preservar a pele. Acostumamo-nos para evitar feridas, sangramentos, para nos esquivarmos da faca e da baioneta, para poupar o peito. Acostumamo-nos para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto nos acostumarmos, se perde em si mesma.

(1972)
Extraído do livro “Eu sei, mas não devia“, de Marina Colasanti

Adaptação de Florbela Ribeiro

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