sexta-feira, 1 de junho de 2012

Conto Infantil - Manuel, o lavrador


Conto Infantil


Manuel, o lavrador

Mais do que uma vez o lavrador, de nome Manuel, ficava admirado com as maravilhas da Natureza. Ele era dono de um lindo trator amarelo e de uma quinta, com um enorme pomar, onde crescia uma grande variedade de árvores de fruto. Manuel tinha quatro filhos, todos rapazes, eram o resultado de uma união feliz e duradoura com a sua Henriqueta. A sua esposa, mulher dedicada às tarefas do lar, fizera, na opinião de todos os familiares, amigos e vizinhos, um belo trabalho na educação das quatro crianças. Sim, porque Manuel ausentava-se todos os dias, pela manhã bem cedinho, no seu trator amarelo, para cuidar da quinta. O cultivo da terra estava ao seu encargo, era dela que vinha o sustento de toda a casa. O seu trator dava uma preciosa ajuda mas havia sempre tanto para fazer: lavrar, semear, adubar, regar, podar, colher...
Certa manhã, após um reforçado pequeno-almoço e os beijos carinhosos entregues a cada um dos filhos e esposa, Manuel saiu para o trabalho. Chegou ao pomar, estacionou o trator amarelo e, antes de dar inicio às tarefas do dia, fez a sua já habitual caminhada pelo enorme pomar. Gostava de passear por entre as árvores para apreciar o despertar da natureza; os passarinhos felizes faziam voos rasos ao solo, na procura de alimento, as abelhas lavavam os seus rostos pequeninos no orvalho das folhas, enquanto as formigas penteavam as suas longas antenas à luz dos primeiros raios de sol.
– Como é perfeita e harmoniosa a natureza! – disse, Manuel ao encher o peito de ar.
Mas de repente parou admiradíssimo. Um dos seus pessegueiros, o mais pequeno de todos os que ali se encontravam, suportava num dos ramos cinco enormes pêssegos! Espantado, ergueu a mão direita ao alto da cabeça, segurou na pala do boné, coçou a testa e ajeitou-o novamente:
- Que estranho! Ainda ontem passei por aqui e não vi nenhum pêssego e agora… olhem-me estas cinco belezas?! São um regalo para os olhos, sim senhor!
- Tenho cá pra mim, Manuel – falava consigo mesmo - que a idade anda a fazer das suas. Estás a ver mal, e só agora deste por isso.
- Deixa cá ver meu rapaz – disse para o pequeno pessegueiro - tu precisas de uma ajudinha. Sim porque com esse peso todo na ramada não chegarás à minha idade – e soltou uma gargalhada tão forte que assustou o melro que andava por ali perto a catar minhocas.
O lavrador procurou então com o olhar um pau que servisse de suporte aquele ramo tão carregadinho, que sem uma ajudinha, não tardaria a partir. Encontrou o que procurava a poucas dezenas de metros.
Com delicada firmeza espetou o pau no solo. Certificou-se de que estava bem seguro e colocou sobre ele o ramo com os cinco pêssegos.
- Pronto! Agora já posso ir trabalhar descansado – disse satisfeito - Logo mais, passarei por aqui para ver como te encontras.
Acariciou o tronco do pessegueiro, como quem acaricia a cabeça de uma criança, e dirigiu-se para o seu trator amarelo. Tinha de começar a trabalhar.
O sol espreguiçava-se e estendia os seus longos braços por entre as nuvens. E em terra as sombras abrigavam-se debaixo da copa das árvores.
Logo que subiu para o trator, Manuel pressentiu que o dia ia ser quente, e não se enganava, a temperatura ultrapassaria os 30ºgraus.
Durante as várias tarefas, Manuel ia pensando no aparecimento repentino daqueles pêssegos. Ele tinha quase, quase a certeza de que no dia anterior eles não estavam lá!
- A fruta não cresce da noite para o dia … por muito boa que a terra seja e por melhor adubada que esteja, é impossível – cismava ele enquanto lavrava uma pequena porção de terra.
Concluído o trabalho da manhã e antes de regressar a casa para almoçar, foi ver como estava o pessegueiro. Queria verificar se o pau que ele colocara mantinha o ramo em bom estado.
Ao deslocar-se para o pomar deparou-se com um cenário curioso. Um carreiro enorme de formigas, cada uma delas levava um pedacinho de folha. Uns pedacinhos eram maiores do que os outros, consoante a força de cada uma das formiguinhas, mas havia entre elas uma, muito mais franzina e pequenina, que transportava um pedacinho de folha com muito sacrifício.
- Oh, pobrezinha, vai tão carregadinha – lamentou Manuel.
Mas assim que ele acabou de falar, apareceu uma formiga maior para ajudar a formiguinha pequenina a transportar aquele pedacito da folha.
Este espírito de entre ajuda despertou a atenção do lavrador.
- É uma pena que nós, humanos, nos esqueçamos dos ensinos que a natureza nos dá! – disse ao observa-las admirado.
- União, companheirismos, determinação, persistência… que maravilhoso ensino nos transmitem estes pequenos seres. Foi então que teve uma ideia.
- Vou levar estes cinco pêssegos para casa. Darão uma deliciosa sobremesa para os meus cinco tesouros – referia-se à esposa e os quatro filhos –, mas também servirão para eu avaliar o coração dos meus quatro rapazes.
E assim fez. Com muito cuidado colheu os cinco pêssegos, colocou-os numa caixinha de cartão forrada com folhas de figueira, para não se pisarem durante a viagem, e retirou o pau que servira de apoio ao ramo. O pessegueiro, agradecido, erguia agora livremente todos os ramos no ar.
Já em casa esperou que os filhos se deliciassem com o arroz de pato que a sua Henriqueta preparara com muito amor! De seguida distribuiu os cinco frutos. Os olhos arregalados, da pequenada, ao verem aqueles pêssegos enormes, provocou um sorriso rasgado em Manuel.
- São grandes não são? – questionou ele.
- São enormes, papá – disse, André o mais velho – e têm uma cor e um aspeto tão suculento.
- Hum… cheira tão bem. A pele fininha faz cócegas no nariz- disse o Joãozito, o mais novo dos quatro irmãos.
- Pois faz – confirmou a mãe com um sorriso - Creio que nunca tivemos uns pêssegos tão grandes na quinta, Manuel.
- É verdade, até eu me espantei pela manhã quando os vi. São um regalo para os olhos e devem ser um regalo nas vossas barriguinhas – disse ao apontar na direção deles.
- Podemos comê-los já? – perguntou, Joãozito.
- Claro que sim – respondeu-lhe o pai - E enquanto vos deliciais eu retorno ao trabalho, antes que se faça tarde. Tenho um bom pedaço de terra para semear.
Um a um, levantaram-se da mesa, abraçaram e beijaram o pai, antes que ele se ausentasse para o pomar.
- Uma boa tarde de trabalho, querido – desejou-lhe a esposa com um abraço.
- Obrigado, para ti também – retribuiu Manuel com um beijo suave na testa.
Durante a tarde, Manuel recordava os olhares admirados de espanto dos seus pequenos. Estava ansioso por regressar ao lar. Queria saber o resultado da prova daqueles frutos, ou o que teriam feito com eles. A tarde pareceu-lhe mais longa do que o habitual, tal era a ansiedade que sentia.
Mas finalmente aproximou-se a hora de voltar, estava cansado. Arrumou as ferramentas e o resto das sementes no pequeno celeiro, fechou a porta e subiu para o seu trator amarelo. O calor, mais brando, fazia-se acompanhar duma brisa vinda da serra. Só o chilrear da passarada quebrava o silêncio daquele fim de tarde. O barulho do trator amarelo abafou por momentos a melodia desordenada que se instalara no pomar, mas rapidamente se afastou levando consigo o cansaço do seu dono. Ao chegar a casa, Manuel despiu-se da fadiga, abraçou os filhos a esposa e perguntou-lhes:
- E então, comeram os pêssegos?
Eu comi, papá – respondeu, André – era tão saboroso! Mas guardei o caroço, para plantar. Em breve terei o meu próprio pessegueiro.
– Muito bem meu filho – disse Manuel – um economista a pensar no futuro.
– Eu também já comi o meu, papá – disse, Joãozito - comi-o logo, e a mamã ainda me deu metade do dela. Hum… era tão macio e docinho.
– Ah, seu guloso – disse o pai  com um leve sorriso – és ainda muito pequenino mas espero que mudes de comportamento à medida que cresceres.
- Sim, papá – respondeu com timidez.
– Eu não comi o meu -  disse-lhe Pedro - apanhei o caroço que o Joãozinho lançou fora, abri-o e comi o que estava dentro, parecia uma noz mas não era saboroso.
- E o que fizeste com o pêssego? – quis saber o pai
- Vendi-o para comprar outras coisas na cidade.
Manuel abanou a cabeça.
– Foste engenhoso, filho mas eu preferia que fosses menos cálculista. Então e tu, Tiago, comeste o teu pêssego?
– Não, papá.  Oferecio-o ao filho da nossa vizinha que está doente, com febre. Ele não o quis comer mas deixei-lho em cima da mesinha de cabeçeira quando me  vim embora.
– Hum… muito bem! – Manuel sabia agora qual dos seus filhos tinha um coração mais generoso.
- Digam-me um coisa – quis saber o lavrador  -, na vossa opinião quem, dos quatro, deu melhor uso ao pêssego que recebeu?
André, Pedro e Joãozito responderam a uma só voz:
- Foi o mano, Tiago.
- Exactamente! E eu espero que vocês aprendam a ser mais generosos, e sigam o exemplo do vosso irmão.
- Sabem, hoje no pomar deparei-me com uma situação curiosa. Um enorme carreiro de formigas, cada um levava um pedacinho folha. Vocês já observaram estes animaizitos algumas vez?
As quatro cabecitas acenaram negativamente.
- Pois eu fiquei a saber que elas são muito trabalhadeiras, muito amigas e unidas. Naquele carreirinho havia uma formiga que era mais pequenia e fraquinha do que as outras. E eu reparei que ela levava o seu pedacinho de folha com muita dificuldade, parecia que tropeçava, desfalecia. Eu estava cheiinho de pena dela quando de repente outra formiga, maior e mais forte, veio ajuda-la a transportar aquele pedacinho de folha.
- Oh, foi tão querida, papá – disse Joãozito.
- E verdade, foi muito querida! E nós, humanos, também devemos ser assim, devemos ser amigos uns dos outros, ajudando os mais fracos e doentes, sem invejas, nem rivalidades.
A mãe Henriqueta que ouvira da cozinha todo aquele diálogo entre pai e filhos, aproximou-se do Tiago e abraçou-o com os olhos rasos de lágrimas.
Até que, Joãozito o mais travesso dos quatro se agarrou às pernas do pai e perguntou:
- Papá eu prometo não ser mais guloso, nem comer do pêssego da mamã mas… trouxeste mais frutinha docinha e amarelinha, como o teu trator amarelo, papá, trouxeste? - o seu jeitinho inocente e reguila fez soltar uma risada geral.
Manuel, um apreciador  da natureza e dos seus ensinos, sentia-se um homem feliz e realizado. Mas ele sabia que o amor e a bondade que ele cultivava cuidadosamente no coração dos seus quatro filhos eram a sua melhor sementeira.
© Florbela Ribeiro

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