terça-feira, 22 de novembro de 2011

Da Ira


Da ira

O melhor remédio para a ira é fazer uma pausa.
Pede-a não para perdoares, mas para reflectires:
os primeiros impulsos da ira são os mais graves;
ela desaparece se tiver que esperar.
Não tentes afastá-la por inteiro:
conseguirás vencê-la por completo se a arrancares por partes.
Entre os actos que nos ofendem, uns são-nos narrados,
outros são vistos ou ouvidos por nós mesmos.
Não devemos acreditar prontamente naqueles
que nos são narrados:
muitos homens mentem para enganar,
outros tantos mentem porque foram enganados;
outros ganham favores com incriminações
e inventam uma ofensa para se mostrarem indignados;
outro é um homem maldoso e quer destruir amizades sólidas;
outro não merece confiança
e gosta de observar ao longe
e em segurança as desavenças que cria.
Quando tens que emitir um juízo sobre um qualquer assunto,
não poderás admitir os factos sem que deles haja uma testemunha,
e a testemunha não tem validade se não houver um juramento;
darás a palavra às duas partes, farás um intervalo,
não as ouvirás uma vez apenas
(a verdade manifesta-se àquele que mais vezes a toma em mãos):
e condenas prontamente um amigo?
Ficas irado antes de o ouvir, antes de interrogares,
antes de permitires-lhe conhecer o acusador ou o crime?
De facto, já terás ouvido as duas partes?
Aquele que fez a denúncia calar-se-á,
se tiver que apresentar provas:
«Não é necessário expores-me», dirá ele,
«Se revelares o meu nome, negarei tudo;
nunca mais te direi nada.»
Ao mesmo tempo,
ele instiga e furta-se à confrontação e ao debate.
Não querer falar senão em segredo é quase o mesmo que nada dizer:
o que poderá ser mais perverso do que confiar
numa denúncia feita em segredo e irar-se publicamente?

Séneca, in ‘Da Ira’

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