quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O mundo é de quem não sente



O mundo é de quem não sente.
A condição essencial para se ser um homem prático é a
ausência de sensibilidade.
A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade
que conduz à acção, isto é, a vontade.
Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e
o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com
sensibilidade.
Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da
personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e
principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da
personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o
estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as
personalidades alheias, as suas dores e alegrias.
Quem simpatiza pára.
O homem de acção considera o mundo externo como composto
exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre
que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque
não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à
pedra, ou se afastou ou se passou por cima.

Fernando Pessoa
O Livro do Desassossego

Sem comentários:

Enviar um comentário