domingo, 3 de julho de 2011

“Chamo-me Nujood, tenho 10 anos e sou divorciada.”


“Chamo-me Nujood, tenho 10 anos e sou divorciada.”


A minha cabeça girava sem parar – nunca tinha visto tanta gente junta. No pátio exterior do tribunal, uma multidão movimenta-se em todas as direcções: homens de fato e gravata com pastas amareladas dobradas debaixo do braço, outros homens vestidos com a zanna, a túnica comprida tradicional do Iémen do Norte, e todas aquelas mulheres a gritar e a chorar tão alto que não se percebe uma palavra. É como se eu fosse invisível. Ninguém me vê. Sou demasiado pequena para todas estas pessoas. Tenho apenas 10 anos, talvez nem tanto. Quem sabe?

As pessoas dizem que os juízes são quem nos ajuda quando precisamos. Por isso, precisava de encontrar um juiz e contar-lhe a minha história. Estou tão cansada. Faz muito calor sob o véu, tenho uma tremenda dor de cabeça e estou cheia de vergonha.

Reparo num homem de camisa branca e fato preto a vir na minha direcção. Um juiz? Advogado? «Desculpe, senhor, preciso de ver o juiz.» «Por ali, sobe as escadas», responde-me sem sequer me olhar, antes de se perder de novo na multidão. Os meus pés parecem chumbo quando, finalmente, chego ao chão de mármore no topo das escadas.

Vejo um grupo de homens vestidos de uniforme. Se me virem, são capazes de me prender. Uma rapariguinha que fugiu de casa. A tremer, agarro a ponta do primeiro véu que passa, na esperança de chamar a atenção da mulher por baixo dele. «Quero falar com o juiz.»
Dois olhos enormes com sombra escura olham-me com surpresa.
«De que juiz estás à procura?» «Leve--me ao juiz – não me importa qual!»
Ela olha-me, espantada.
«Segue-me», diz por fim. A porta abre-se para uma sala cheia de gente, e ao fundo, por detrás de uma secretária, está um homem de rosto fino e bigode. É o juiz, finalmente. Sento-me, encosto a cabeça no espaldar da cadeira e espero a minha vez.
«E o que posso fazer por ti?» Uma voz de homem tira-me do torpor em que caí. É uma voz estranhamente gentil. Esfreguei a cara e reconheci diante de mim o juiz do bigode. A sala está quase vazia.
«Quero o divórcio!»

Khardji
Em Khardji, a aldeia no Iémen onde nasci, as mulheres não são ensinadas a fazer escolhas. Quando tinha perto de 16 anos, Shoya, a minha mãe, casou com o meu pai, Ali Mohammad al-Ahdel, sem um protesto que fosse. E quando, quatro anos depois, ele decidiu ter uma segunda mulher, ela, obedientemente aceitou a decisão dele. Foi com essa resignação que dei o meu primeiro acordo ao meu casamento, sem perceber bem o que estava em causa. Na minha idade, não nos colocamos muitas questões.

A Omma – a Mamã – deu-me à luz da mesma forma que fez com todos os 16 filhos: em casa. Cresci a ver a Omma a cuidar da casa e a desejar ardentemente o dia em que eu seria suficientemente crescida para ir com as minhas irmãs mais velhas à fonte buscar água. Eu devia ter uns 2 ou 3 anos quando estalou uma disputa violenta entre o meu pai e os outros aldeões. Tudo o que soube é que a Mona, a segunda filha, com, no máximo, 13 anos, casou de repente. Tivemos que sair de casa de imediato.

A nossa chegada a Sana foi um choque. A capital era só pó e barulho. Mudámo-nos para um prédio no Bairro de Al-Qa. O meu pai arranjou trabalho como varredor para as autoridades sanitárias. Dois meses após a nossa partida, a Mona chegou com o marido que tão subitamente lhe havia sido imposto.

Na escola do bairro, o meu primeiro ano correu muito bem e o segundo estava a começar. Uma noite de Fevereiro de 2008, o Aba disse-me que tinha boas notícias.

«Nujood, vais-te casar!»

A notícia veio do nada. De facto, não a percebi por inteiro. No início, quase que me senti aliviada porque a vida lá em casa tinha-se tornado impossível. O Aba nunca mais tinha conseguido arranjar um trabalho a tempo inteiro, depois de ter perdido o emprego a varrer as ruas, por isso andávamos sempre com rendas atrasadas. Os meus irmãos tornaram-se daqueles vendedores que batem nos vidros dos carros nos sinais vermelhos para vender lenços de papel em troca de algumas moedas. Depois, foi a vez de eu e a minha irmã Haïfa tentarmos. Eu cá não gostava.

O Aba passava cada vez mais tempo a mascar qat com os vizinhos. Diz que o ajuda a esquecer os problemas. E foi durante uma dessas sessões de qat que um homem com cerca de 30 anos se abeirou dele.
«Gostava de unir as nossas famílias», disse-lhe.

O seu nome era Faez Ali Thamer e trabalhava como moço de entregas. Tal como nós, vinha de Khardji e procurava uma esposa. O meu pai aceitou a sua proposta. A seguir às minhas duas irmãs mais velhas, era eu quem me deveria casar.

Nessa noite, ouvi uma conversa entre Mona e o meu pai.
«Nujood é muito nova para casar», insistia Mona.
«É a melhor forma de a proteger. Assim, não será violada por um estranho e alvo de rumores demoníacos. Este homem parece honesto. Prometeu que não lhe tocaria até que fosse mais velha. Além disso, não temos dinheiro que chegue para dar de comer a toda a família.» A minha mãe não disse uma palavra. Parecia triste, mas resignada. No nosso país, os homens é que dão as ordens.

O meu casamento
Os preparativos para o meu casamento avançavam rapidamente, e depressa percebi no inferno em que me ia meter quando a família do meu marido decidiu que eu tinha que abandonar a escola. Eu adorava a escola. Era o meu único refúgio, uma felicidade toda minha.

No dia do meu casamento, as minhas primas começaram a ulular e a bater palmas quando me sentiram chegar. No entanto, eu mal lhes conseguia ver o rosto. Tinha os olhos cheios de lágrimas. Avancei devagarinho para não tropeçar no fato, demasiado grande para mim. Tinha sido enfiada à pressa numa longa túnica cor de chocolate desmaiado que pertencia à mulher do meu futuro cunhado. Uma parente tinha-me amarrado os cabelos num coque que me pesava na cabeça.

Ainda não tinham passado duas semanas desde que me haviam pedido a mão. As mulheres celebraram o casamento na minúscula casa dos meus pais: éramos cerca de 40. Entretanto, os homens tinham-se juntado na casa de um dos meus tios. Dois dias antes, quando o contrato de casamento foi assinado, também só os homens tinham estado presentes. O meu dote foi fixado em 150000 riais (cerca de 540 euros).

Quando o Sol se pôs, os convidados saíram e eu adormeci, vestida e tudo. Na manhã seguinte, a Omma acordou-me. A minha pequena trouxa estava em frente à porta. Quando a buzina de um carro soou, a minha mãe ajudou-me a cobrir com uma capa e um lenço pretos.

«A partir de hoje, deves cobrir-te quando saíres à rua. És uma mulher casada agora. É a honra dele que está em causa.»
Assenti tristemente.

Na parte de trás do SUV parado à porta da casa dos meus pais estava um homem baixo a olhar para mim. Tinha vestida uma longa zanna branca e tinha bigode. O cabelo curto e pesado estava despenteado e tinha a barba mal feita. Não era bonito. Então este é que era o Faez Ali Thamer!

Quando o motor voltou à vida e o motorista se afastou, comecei a chorar silenciosamente, com o rosto colado ao vidro, à medida que via Omma tornar-se cada vez mais pequena.

Uma mulher esperava por nós na soleira de uma das casas de pedra de Khardji. De imediato, senti que não gostava de mim. A minha nova sogra era velha, com a pele tão enrugada como a de um lagarto. Com um gesto, disse-me que entrasse. O interior da casa quase não tinha mobílias: quatro quartos, uma sala de estar, uma pequena cozinha.

Quase caí em cima do arroz e da carne que as suas irmãs tinham preparado. Após a refeição, alguns idosos da aldeia juntaram-se para mascar qat. Ninguém pareceu surpreendido pela minha pouca idade. Mais tarde, aprendi que casamentos com crianças não são raros no interior do país. Existe, inclusivamente, um provérbio tribal que diz: «Se queres um casamento feliz, casa com uma rapariga de nove anos.»

Fiquei tremendamente aliviada quando me levaram ao meu quarto. No chão, um longo tapete tecido: a minha cama. Nem precisei de apagar a luz para adormecer.

Tomara nunca ter acordado. Quando a porta se abriu, acordei surpreendida. Mal tinha aberto os olhos e senti um corpo húmido e peludo a pressionar o meu. Alguém tinha apagado a vela e no quarto estava escuro como breu. Era ele! Reconheci-o pelo horrível cheiro a cigarros e a qat. Começou a esfregar-se em mim.

«Por favor, peço-lhe, deixe-me!», disse num sopro de voz.
«És a minha mulher!»
Pus-me de pé. A porta não estava inteiramente fechada e, vendo uma frincha de luz, corri para o pátio.
Ele veio atrás de mim.
«Socorro! Socorro!», gritei aos soluços.

A minha voz ecoava na noite, mas era como gritar para o vazio. Corri, ofegante. Tropecei, caí e, quando me estava a levantar, uns braços agarraram-me, seguraram-me firmemente, levaram-me de novo para o quarto e puseram-me no tapete. Sentia-me paralisada, como se me tivessem amarrado.

Na esperança de encontrar uma aliada, chamei pela minha sogra.
«Amma! Tia!»
Não houve resposta.
Quando ele tirou a túnica, enrolei-me numa bola para me proteger, mas ele começou a tirar a minha camisa de noite.
Tentei sair daquela situação, novamente gemendo: «Vou dizer ao meu pai!»
«Podes dizer ao teu pai o que quiseres. Ele assinou o contrato de casamento!»
«Não tem o direito!»
Começou a rir de forma maldosa.
«És minha mulher. Agora, fazes o que eu quero!»

De repente, foi como se eu tivesse sido apanhada por um furacão, atirada ao ar, atingida por um raio e não tivesse mais forças para reagir. Um ardor invadiu a parte mais profunda de mim. Por mais que gritasse, ninguém veio em meu auxílio. Doeu horrivelmente. Gritei mais uma vez, creio, e depois perdi os sentidos.


A fuga
Tive que me adaptar rapidamente a uma nova vida. Não tinha o direito de sair de casa, não podia queixar-me, não podia dizer «não». Durante o dia, tinha que obedecer às ordens da minha sogra: cortar legumes, lavar o chão, lavar a loiça. Sempre que parava por um momento, a minha sogra puxava-me os cabelos.

Uma manhã, pedi autorização para ir brincar com as crianças da minha idade.
«Nem pensar! Era só o que faltava, estragares a nossa reputação!»

Ele saía todas as manhãs e regressava mesmo antes de o Sol se pôr. Cada vez que o ouvia chegar, o pânico crescia no meu coração. Quando chegava a noite, sabia que ia começar tudo outra vez. A mesma selvajaria, a mesma dor e angústia. No terceiro dia, começou a bater-me, primeiro com as mãos, depois com um pau.

E a mãe ainda o incentivava. Sempre que ele se queixava de mim, ela dizia-lhe: «Bate-lhe mais! Ela tem que te ouvir – é tua mulher!»

Eu vivia num medo permanente. Sempre que podia, escondia-me a um canto, perdida e atordoada. Os dias e as noites sucediam-se assim. Tinha saudades de Sana e da escola. Dos meus irmãos e das minhas irmãs. Pensava em Haïfa e desejava que ela nunca tivesse que passar por aquilo.

Uma manhã, farto do meu choro, ele disse-me que me deixava ir ver os meus pais. Finalmente! Ele iria comigo e ficava com o irmão em Sana, mas depois – insistiu – tínhamos que voltar para a aldeia. Rapidamente, comecei a juntar as minhas coisas.

«Está absolutamente fora de questão deixares o teu marido!» Não estava à espera daquela reacção por parte do meu pai, que pôs rapidamente um ponto final na alegria do meu regresso. Quanto à minha mãe, manteve-se silenciosa, murmurando simplesmente: «É assim a vida, Nujood: as mulheres têm que passar por estas coisas.»

Mas porque é que ela não me tinha avisado? Agora, sentia-me encurralada.
«Nujood», repetiu o meu pai. «Agora, és uma mulher casada. Deves ficar com o teu marido. Se te divorciares do teu marido, os meus irmãos e primos vão matar-me! A honra vem sempre primeiro.»
Andava em círculos, sem saída à vista. O meu pai, irmãos, tios – ninguém me ouvia.

Fui visitar Dowla, a segunda mulher do meu pai, que vivia com as suas cinco crianças num minúsculo apartamento do outro lado da nossa rua. Subi as escadas com a respiração suspensa para evitar o cheiro horrível do lixo e das casas de banho comunitárias. Dowla abriu a porta com um longo vestido preto e vermelho e um enorme sorriso.
«Nujood! Que surpresa ver-te! Bem-vinda!»

Eu gostava de Dowla. Alta e esbelta, era mais bonita que Omma e nunca me repreendeu. No entanto, a pobre mulher passava maus bocados. O meu pai negligenciou-a completamente. A pobreza obrigava-a a pedir nas ruas.

Convidou-me a sentar na grande enxerga de palha que ocupava metade da sala, junto ao pequeno fogão onde a água fervia.
«Nujood», começou ela, «pareces muito preocupada.»

Abri-lhe o meu coração. A minha história pareceu afectá-la profundamente. Por um momento, pensou em silêncio, depois serviu chá. Estendendo-mo, inclinou-se e olhou-me nos olhos.

«Nujood, se ninguém te ouve, tens que ir direita ao tribunal», sussurrou.
«Aonde?»
«Ao tribunal!»
Mas claro! Num piscar de olhos, vi imagens de juízes de turbante, advogados apressados, homens e mulheres a queixarem-se de problemas de família, ladrões e querelas sobre heranças. Eu já tinha visto uma sala de tribunal num programa a que costumava assistir na casa de uns vizinhos.

«Vai ao tribunal», continuou Dowla. «Diz que queres falar com o juiz – o trabalho dele é ajudar vítimas.»
Assenti levemente a Dowla em sinal de agradecimento. Ela fez deslizar 200 riais para a minha mão, tudo o que miseravelmente – aquilo vale cerca de 50 cêntimos de euro – conseguia que a caridade alheia lhe desse todas as manhãs.
Na manhã seguinte, esperei, impaciente, que a minha mãe se levantasse. «Nujood», disse-me estendendo-me 15 riais. «Compra pão para o pequeno-almoço.»
«Sim, Omma», repliquei, obediente.

Fui pela rua que levava à padaria da esquina. No entanto, no último minuto mudei de direcção e dirigi-me à avenida principal. Tapei a cara com as pontas do lenço. Por uma vez, o niqab foi útil. Entrei num pequeno autocarro amarelo e branco para o centro da cidade, esperando sair do bairro antes que dessem pela minha falta.

A porta fechou-se. Através do vidro, vi a cidade passar. «Última paragem!», gritou o motorista.

Com os dedos a tremer, entreguei-lhe umas moedas. No entanto, não fazia a menor ideia onde era o tribunal. Estava completamente ansiosa. Encolhida junto a um semáforo, tentava organizar os meus pensamentos quando avistei um táxi. Já tinha apanhado um táxi daqueles quando fui com a Mona a Bab al-Yemen.
Levantei o braço e fiz-lhe sinal que parasse.

«Quero ir para o tribunal!», exclamei para o motorista, que me olhou perplexo. Ele não fez ideia do quanto lhe fiquei grata por não ter feito perguntas.

Com uma travagem forte, encostou o carro junto ao portão que dava para o pátio do edifício imponente do tribunal. Finalmente! Saí do táxi rapidamente e entreguei ao motorista o resto do dinheiro que tinha.


O juiz
O juiz Abdo não escondeu a surpresa.
«Queres o divórcio?»
«Sim.»
«Mas ... isso quer dizer que és casada?»
«Sim!»
As suas feições são distintas. A camisa branca sobressai na pele cor de azeitona. Mas quando ouve a minha resposta, o rosto escurece.
«Na tua idade? Como é que é possível já seres casada?»
Sem me dar ao trabalho de responder às suas perguntas, repito, determinada: «Eu quero o divórcio.»
Ele começa a coçar o bigode nervosamente. Se ao menos ele concordasse em salvar-me.
«E porque queres tu o divórcio?»
Olho-o directamente nos olhos. «Porque o meu marido me bate.»

Foi como se lhe tivesse dado uma bofetada. A expressão dele endureceu novamente. Sem rodeios pergunta-me: «Ainda és virgem?»

Engulo em seco. Tenho vergonha de falar dessas coisas. Mas naquele preciso instante percebo que, se quero ganhar, tenho que o fazer.
«Não, eu sangrei.»
Ele fica chocado. Consigo ver a sua surpresa, consigo vê-lo a esconder as suas emoções. Depois, ele respira fundo e diz: «Eu vou-te ajudar.»
Sinto-me aliviada. Vejo-o agarrar o telefone com a mão a tremer. Com sorte, será rápido, e esta noite vou poder ir para casa e brincar com os meus irmãos e irmãs, tal como antes. Divorciada! Sem o pavor de estar sozinha à noite no mesmo quarto que ele.

Um segundo juiz junta-se a nós na sala e reduz a pó o meu entusiasmo.
«Minha filha, isto pode levar mais tempo do que imaginas. E, infelizmente, não posso garantir que ganhes.»
Este segundo homem é Mohammad al-Ghazi, o juiz-presidente. Nunca tinha visto um caso como o meu. Juntos, explicam-me que no Iémen as meninas são muitas vezes dadas em casamento muito cedo, antes da idade legal de 15 anos. É uma tradição antiga, acrescenta o juiz Abdo. Mas que soubessem, nenhum destes casamentos precoces alguma vez tinha dado em divórcio – porque nenhuma rapariguinha tinha, como eu, aparecido no tribunal.
«Vamos ter que arranjar um advogado», explica-me Abdo.

Será que se dão conta de que, se eu voltar para casa sem qualquer garantia, o meu marido volta e a tortura vai continuar, sem qualquer fim à vista?
«Eu quero divorciar-me!» Fechei a cara para mostrar que estava segura. O som da minha voz fez-me dar um salto.
«Haveremos de arranjar uma solução», murmura al-Ghazi, endireitando o turbante.

O relógio bateu as 2, a hora a que os escritórios fecham. Hoje é quarta-feira e o fim-de-semana muçulmano está prestes a começar. «Está fora de questão ela voltar para casa», continua. Um terceiro juiz, Abdel Wahed, oferece-se para ajudar. A família tem espaço para me acolher. Estou a salvo, pelo menos por enquanto.

Às 9 da manhã de sábado, estamos sentados no escritório de Abdel Wahed no tribunal com Abdo e Mohammad al-Ghazi. Al-Ghazi está muito preocupado.

«Segundo a lei do Iémen, é muito difícil apresentares queixa contra o teu pai e o teu marido», explica-me. Tal como muitas crianças que nascem nas aldeias iemenitas, não tenho certidão de nascimento e sou muito nova para apresentar queixa contra quem quer que seja. Foi assinado um contrato, aprovado pelos homens da minha família. De acordo com a tradição do país, é válido.

«Nesta altura», explica Mohammad al-Ghazi aos seus colegas, «temos que agir depressa. Sugiro que prendamos temporariamente o pai e o marido de Nujood. Se queremos protegê-la, é melhor que estejam presos do que à solta.»
Na prisão! Será que o Aba alguma vez me vai perdoar? Sinto-me esmagada pela vergonha e pela culpa.
No Iémen não existem abrigos para raparigas como eu, mas eu não podia continuar com Abdel Wahed e a sua família, que já tinham feito tanto por mim.

«Quem é o teu tio favorito?», pergunta-me um dos juízes.
Pensei que a melhor escolha fosse Shoyi, irmão da Omma, um soldado reformado com um certo prestígio na minha família. Vivia com as suas mulheres e sete filhos num bairro bastante longe do nosso. Na verdade, ele não se tinha oposto ao meu casamento, mas, pelo menos, não batia nas filhas.
Shoyi não me fez muitas perguntas e deixou-me brincar com as minhas primas. Basicamente, creio que o meu tio estava tão desconfortável quanto eu com toda a situação.

Passei a maior parte dos três dias seguintes no tribunal à espera de um milagre. Quantas mais vezes teria que lá voltar? Abdo avisara-me de que o meu caso era raro. Mas o que fazem os juízes quando confrontados com casos assim?
Estou a aprender a resposta com Shada. As pessoas dizem que é uma das melhores advogadas do país, que luta pelos direitos das mulheres. É bonita e cheira a jasmim. Gostei dela assim que a vi. Não cobre o rosto. Usa um casaco preto comprido e acetinado e cobre os cabelos com um lenço colorido.

Quando me veio ver a primeira vez, vi que olhou para mim com emoção antes de exclamar: «Céus!» Depois, olhou para o relógio, abriu o bloco de apontamentos e reorganizou a sua pesada agenda, ligando para a família, os amigos e os colegas. Muitas vezes a ouvi dizer: «Tenho que aceitar um caso muito importante.»

Esta mulher parece um poço sem fundo de determinação.

«Nujood, não te vou abandonar», sussurra-me. Sinto-me segura com ela. Ela sabe encontrar as palavras certas, e a sua voz cantante conforta-me.

«Pode garantir-me que nunca mais vou voltar para a casa do meu marido?»
«Farei tudo o que puder para evitar que ele te volte a magoar. Mas tens que ser forte, porque isso pode levar algum tempo. A parte pior já passou. A parte pior é ter a força para sair da situação e, nessa, tu saíste-te lindamente.
Posso fazer uma pergunta? Como é que arranjaste coragem para fugir – até à porta do tribunal?»
«A coragem de fugir? Eu já não aguentava mais a maldade dele. Não aguentava.»


O divórcio
O grande dia tinha chegado mais cedo do que esperávamos. O tribunal estava cheio. A campanha de media que Shada tinha montado estava a resultar – eu nunca tinha visto tantas câmaras. Suava abundantemente sob o meu lenço preto.

«Nujood, um sorriso!», grita-me um fotógrafo. Forma-se uma fila de câmaras à minha frente. Agarro-me a Shada. O cheiro dela acalma-me, o cheiro do jasmim que agora conheço tão bem.

No fundo, estou transida de medo, incapaz de me mexer. Como é que acontece um divórcio? E se aquele monstro diz simplesmente que não? E se ele começar a ameaçar o juiz?

À entrada do tribunal, as câmaras começam a acotovelar-se para uma boa perspectiva.

Tremo: reconheço Aba ... e o monstro, escoltados por dois soldados. Os prisioneiros parecem estar furiosos. Ao passar à nossa frente, o monstro baixa os olhos, mas depois volta-se de repente para Shada: «Estás orgulhosa, é?», rosna.
Shada nem pestaneja. O olhar dela mostra todo o desprezo que sente por ele. Aprendi muito com ela.
«Não lhe ligues», diz-me.

O meu coração parece um tambor. Quando olho para cima, vejo-me a olhar directamente nos olhos de Aba. Ele parece-me tão aborrecido. «Honra», diz-me. Ao olhar para o seu rosto, começo a perceber o que quer dizer essa palavra tão complicada. Estou tão zangada com ele, mas não consigo evitar sentir também pena. O respeito por parte dos pares – isso é tão importante aqui.

Mohammad al-Ghazi, o juiz-presidente do tribunal, senta-se na sua cadeira elevada. O juiz Abdo junta-se-lhe numa cadeira ao lado.

«Em nome de Alá, Todo-Poderoso e Misericordioso, declaro aberto este tribunal», anuncia al-Ghazi, convidando-nos a aproximar.

Com um gesto, Shada indica-me que a siga. À nossa esquerda, Aba e o monstro também se encaminham. Sinto a multidão atrás de nós. Parte de mim daria tudo neste momento para ser um ratinho.
É a vez de o juiz Abdo usar da palavra.

«Estamos perante o caso de uma menina que casou sem o seu consentimento. Quando o contrato de casamento foi assinado sem o seu conhecimento, foi levada à força para a província de Hajja. Lá, o marido abusou sexualmente dela quando ela ainda não atingiu a puberdade e não está preparada para ter relações sexuais. Ele também a agrediu e a insultou. Ela vem aqui hoje pedir o divórcio.»

O momento alto está a chegar, aquele em que os culpados são punidos.

Al-Ghazi bate repetidas vezes com um pequeno martelo de madeira.
«Ouça-me com atenção», diz para a criatura que odeio. «Casou com esta menina há dois meses, dormiu com ela, bateu-lhe. Isso é verdade, sim ou não?»
O monstro pestaneja e responde: «Não, não é verdade! Ela e o pai concordaram com o casamento.»
Puxo o casaco de Shada.
«É mentira!»
O juiz volta-se para o meu pai.
«Concordou com o casamento?»
«Sim.»
«Que idade tem a sua filha?»
«A minha filha tem 13 anos.»

Treze? Nunca ninguém me disse que eu tinha 13 anos. Torci as mãos para me acalmar.

«Dei a minha filha em casamento por receio de que pudesse ser roubada.»
Não percebo, na realidade, de que é que ele está a falar. As suas respostas são vagas e rebuscadas e as perguntas do juiz são cada vez mais incompreensíveis. As vozes elevam-se. Os acusados defendem-se. Na sala, o barulho aumenta, enquanto o meu coração bate mais depressa.

O juiz faz que o sigamos para outra sala, longe do público. «Faez Ali Thamer, consumou o casamento, sim ou não?», pergunta o juiz.
Sustenho a respiração.

«Sim», admite o monstro. «Mas fui gentil com ela, tive cuidado. Não lhe bati.»
A resposta atinge-me como uma bofetada, trazendo-me à memória todas as outras bofetadas, os insultos, o sofrimento.
«Não é verdade!», grito, a raiva faz-me ficar fora de mim.

Todos se voltam para mim. Mas eu sou a primeira a surpreender-me com o meu atrevimento. Depois disto, tudo se passa muito depressa. O monstro diz que o meu pai o enganou quando mentiu sobre a minha idade. A seguir o Aba fica furioso e diz que ele tinha concordado em não me tocar até eu ser mais velha. O monstro anuncia que está pronto para aceitar o divórcio com uma condição: que o meu pai lhe devolva o dote. O Aba responde que ele nunca pagou um tostão sequer. É tal e qual um mercado! Quanto? Quando? Como?

No final, sou salva pelo veredicto do juiz.«Está decretado o divórcio», anuncia.



16 de Setembro de 2008
O divórcio mudou a minha vida. Quando vou na rua, às vezes as mulheres chamam-me e dão-me os parabéns. Há pouco tempo, deixei a casa do meu tio e regressei a casa dos meus pais. Parece que estamos todos a fingir que não se passou nada.

Os meus pais mudaram-se para um novo bairro, Dares. Aqui, posso olhar por Haïfa. Se alguém se atrever a pedi-la em casamento, eu protesto. E se ninguém me ouvir, chamo a Polícia.

Há algumas semanas que não tenho pesadelos. Em vez disso, sonho com a escola. Esta manhã, o motorista chegou. A associação humanitária internacional que paga as propinas para Haïfa e para mim mandou-o. Agarro na minha mochila.
Quando crescer, quero ser advogada, tal como Shada, para defender outras meninas como eu.

Um dos professores convida-nos a sentar. Escolho uma secretária junto à janela. Olhando em redor, não posso deixar de sentir um enorme alívio. No meu uniforme verde e branco, sou apenas uma entre as 50 raparigas desta turma. Sou uma aluna do segundo ano do primeiro ciclo. Quando chegar a casa, terei trabalhos de casa para fazer e desenhos com lápis de cores.

Hoje, sinto-me finalmente uma rapariga normal. Tal como antes. Sou apenas eu.



Epílogo: Em Abril de 2009, o Parlamento Iemenita aprovou uma lei que aumenta a idade de consentimento para os 17 anos, mas a lei foi revogada no dia a seguir por pressão dos partidos conservadores. A alteração da idade legal de consentimento está ainda em discussão.

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