segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os Ecribas






"Os Escribas"




Nunca senti por eles grande entusiasmo.

Se eram excelentes eram também petulantes

e de um trato tão espinhoso como o azevinho

de que extraíam a tinta.

E se nunca fui um deles também é certo

que nunca me puderam negar o meu lugar.



Na quietude do scriptorium

crescia neles a todo o tempo uma pérola negra

como o velho coágulo seco por dentro das penas.

À margem de textos laudatórios

arranhavam, esgadanhavam.

Rosnavam se o dia estava escuro

ou se giz a mais amolecera o vellum

ou giz a menos o deixara oleoso.



Sob os dorsos da caligrafia

arrebanhavam rancores míopes.

Sementes de ressentimento ponteavam-lhes

as espirais de fetos das maiúsculas.



De vez em quando eu tinha um sobressalto

a milhas de distância, e via na minha ausência

o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os

a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.



Que se recordem deste contributo não desprezível

para a sua arte de invejas.





Seamus Heaney In "Da Terra à Luz - poemas 1966-1987 ",

Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1997, p. 333, (trad. Rui Carvalho Homem).

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