sexta-feira, 27 de maio de 2011

POETA


Poeta



Está a trabalhar agora, numa sala

que não é diferente desta,

onde escrevo, ou aquela em que lês.

A mesa está coberta com papéis.

A luz do candeeiro seria

suavizada por um abajur, onde

a sua crueza única se pudesse diluir,

mas não é; ela tirou-o.

Os seus poemas? Nunca os perceberei bem,

embora sejam aqueles de que mais preciso.

Nem o próprio alfabeto que ela usa

eu consigo decifrar. A sua cadeira -

imaginemos se é de pele

ou lona, de vinil ou verga. Deixemos

que fique com uma cadeira, o candeeiro sem abajur,

a mesa. Que um ou dois daqueles que ama

estejam no quarto ao lado. Porta fechada

e de boa saúde os que dormem.

Dêmos-lhe tempo, e silêncio,

papel que chegue para cometer erros e continuar.




Jane Hirshfield
tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

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