quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Nossa Arte


















A Nossa Arte


A arte de desenvolver os pequenos motivos para nos decidirmos a realizar as grandes acções que nos são necessárias.

A arte de nunca nos deixarmos desencorajar pelas reacções dos outros, recordando que o valor de um sentimento é juízo nosso, pois seremos nós a senti-lo e não os que assistem.

A arte de mentir a nós próprios, sabendo que estamos a mentir.

A arte de encarar as pessoas de frente, incluindo nós próprios, como se fossem personagens de uma novela nossa.

A arte de recordar sempre que, não tendo nós qualquer importância e não tendo também os outros qualquer espécie de importância, nós temos mais importância que qualquer outro, simplesmente porque somos nós.

A arte de considerar a mulher como um pedaço de pão: problema de astúcia.

A arte de mergulhar fulminante e profundamente na dor, para vir novamente à tona graças a um golpe de rins.

A arte de nos substituirmos a qualquer um, e de saber, portanto, que cada pessoa se interessa apenas por si própria.

A arte de atribuir qualquer dos nossos gestos a outrem, para verificarmos imediatamente se é sensato.

A arte de viver sem a arte.

A arte de estar só.



Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

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