quarta-feira, 20 de abril de 2011

Aprendi a viver com simplicidade




















Aprendi a viver com simplicidade



Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,

a olhar o céu, a fazer as minhas orações,

a passear sozinha até a noite,

até esgotar esta angústia inútil.



Enquanto no penhasco murmuram as bardanas

e declina o alaranjado cacho da sorveira,

componho versos bem alegres

sobre a vida caduca, caduca e belíssima.



Volto para casa. Vem lamber a minha mão

o gato peludo, que ronrona docemente,

e um fogo resplandecente brilha

no topo da serraria, à beira do lago.



Só de vez em quando o silêncio é interrompido

pelo grito da cegonha pousando no telhado.



Se vieres bater à minha porta,

é bem possível que eu sequer te ouça.



Anna Akhmatova

1912

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