sábado, 4 de dezembro de 2010

Pedido especial de Natal





















Pedido especial de Natal


Junto ao portão da escola, Ana aguardava pela chegada das suas duas amigas, Catarina
e Jéssica. As três mosqueteiras, como gostavam de ser chamadas, tinham agendado encontrar-se na véspera. O ar taciturno com o qual a jovem as recebeu, intrigou-as.
- O que é que tens, Ana? – perguntou Catarina – Só estamos atrasadas 5 minutinhos.
- Eu sei – respondeu melancólica.
- Ah bom… Mas então porque é que estás com essa cara? Estás doente?
A sua expressão deixou-as preocupadas porque, das três amigas, Ana era a mais
optimista e bem-humorada, mas hoje…
- Porque odeio esta quadra de Natal! – disparou ela de imediato.
- Uau! – exclamou Jéssica – “odeio” é uma palavra demasiado forte, não?
- Perguntaram, respondi – resmungou Ana.
- Ok, ok… já vi que hoje estamos de mau humor – atalhou Catarina – Mas podes dizer-nos porque motivo odeias o Natal?
- Pessoalmente acho esta quadra tão linda, tão cheia de cor, de luz, de aromas… – disse Jéssica.
- E quanto tempo dura tudo isso? Um mês, dois? O ano é composto por doze meses meninas… As pessoas aproveitam esta quadra para se fazerem de boazinhas, e depois?
- Hum… vejo que estás revoltada com alguma coisa – conclui Catarina.
- Ou com alguém, acertei? – quis saber Jéssica.
- Talvez… A hipocrisia irrita-me profundamente e se isto acontece comigo imaginem com Deus.
- A mim também me irrita mas não adianta nada ficares com esse ar assim… amuado – disse Catarina com cautela.
- Acham que o nascimento de Jesus Cristo é para ser celebrado apenas uma vez no ano, ou é para ser celebrado nos 365 dias? Nos gestos, nas atenções, no carinho e no amor ao próximo? O Natal não é uma troca de embrulhos, não é comida, nem roupas novas.
- Eu sei… e pensando bem tens razão. Mas é uma tradição tão bonita – disse Jéssica.
- Não gostas de receber presentes, roupas novas, ter a família reunida à volta de uma mesa cheia de coisas deliciosas? Hum… eu gosto! – admitiu Catarina.
- A família reunida à volta de uma mesa, dizes bem. E durante o ano, onde está a família? Ah já sei, quando preciso de falar com o meu pai ligo para o telemóvel. Se não estiver muito ocupado atende-me e depois, dependendo do tom de voz, partilho, ou não, o meu problema com ele. A minha mãe coitada, anda sempre tão atarefada que mal me vê… só tem olhos para o relógio…nunca tem tempo para nada.
- Mas isso é sempre assim? - perguntou Catarina de olhar arregalado - Vocês não se juntam à hora do jantar todos dias?
- Não. Cada um tem o seu horário e as suas responsabilidades… e elas não coincidem. Só em datas especiais, como esta.
- Percebo. Felizmente não vivo a mesma situação. Os meus pais preocupam-se em reunir a família à noite, para saber como nos correu o dia, salvo raras excepções, claro.
- As excepções também acontecem na minha casa, mas ao contrário da tua. É como o povo diz: “Quando o rei faz anos”.
- E é por isso que estás assim?
- Os meus pais perguntaram-me esta manhã o que desejava como prenda neste Natal.
- E o que pediste para este ano?
- Nada!
- Oh, então. Nada? Tens a certeza que não queres mesmo nada? – insistiu Catarina.
- Tenho! A certeza absoluta. Não quero presentes, não quero roupas, nem livros, nem jóias, nem calçado, não quero nada, excepto…
- Ah… ah! Eu sabia. – Ana sorriu ao ver a reacção da Catarina.
- Ex-ce-pto – repetiu pausadamente – a presença e o amor dos meus pais e irmãos durante o ano inteiro!
- Pois, percebo… é disso que sentes falta não é? – Catarina envolveu a amiga carinhosamente num abraço. Gostava tanto dela e custava-lhe vê-la sofrer. Não era a primeira vez que ela partilhava o seu problema com as amigas. Não sofria de carências materiais, não lhe faltava conforto nem as regalias próprias da sua idade, mas sofria da falta de afectividade, de solidão e abandono. E a situação vinha-se agravando ao longo dos últimos tempos. Faltava-lhe amor, atenção, carinho, enfim… faltava-lhe aquela ternura tão essencial no dia-a-dia.
- É. Sei que será complicado receber este presente. A agenda dos meus pais anda sempre tão super-lotada com reuniões, compromissos. Mas eu só quero a presença da minha família, mais nada.
- E qual foi a reacção deles? – quis saber Catarina.
- Não disseram nada, apenas vi que os seus olhos ficaram marejados de lágrimas. A minha mãe teve mesmo de virar a cara para o lado, para que eu não a visse chorar.
Jéssica, escutava aquela conversa silenciosa.
- Então isso quer dizer que eles reconhecem que estão a falhar. Isso parece-me um óptimo sinal – afirmou Catarina
- Achas mesmo? – ironizou a jovem.
- Eu sei bem do que falas, Ana – interrompeu Jéssica – ainda não há muito tempo que na minha casa se vivia a mesma situação.
- A sério? – perguntaram as duas amigas em uníssono.
- Sim. Os meus pais viviam obcecados com a rentabilidade e o sucesso da nossa loja. Só se preocupavam em aumentar as vendas e os lucros. À noite tinham sempre reuniões com fornecedores para conseguir maiores descontos e melhores preços – Jéssica, nunca havia partilhado esta situação com as amigas.
- E tu e o teu irmão, como ficavam no meio de tanta azáfama? – quis saber Ana.
- Nós ficávamos praticamente sozinhos, largados ao abandono em casa – respondeu
Jéssica.
- Mas actualmente já não é assim pois não? – Catarina estava atónita com a revelação da amiga.
- Não. O meu irmão adoeceu gravemente, apanhou um vírus qualquer no sangue que o levou quase à morte. Mas sabem… Deus trabalhou no coração dos meus pais no meio da tribulação.
- Como assim? – perguntou Ana
- Contendeu com eles e despertou-lhes a consciência. Só nessa altura é que se deram conta do quanto estavam a ser negligentes para connosco. Só aí perceberam que a prioridade é sempre a família e nunca os negócios.
- É… Deus fala-nos de diversas maneiras. Com Amor, se somos sensíveis à Sua voz, se não… fá-lo através da dor – disse Catarina.
- Gostava tanto que os meus pais não tivessem que passar por uma experiencia semelhante à vossa – disse Ana com um suspiro.
- Disseste que os seus olhos ficaram marejados de lágrimas? – perguntou-lhe Jéssica.
- Disse…
- Acreditas em milagres? – perguntou novamente.
- Mas é claro que acredito – respondeu Ana com convicção para alegria das duas amigas.
- Pois então espera pela tua prenda de Natal.
- Eu tenho uma ideia – disse Catarina.
- Qual? – quiseram elas saber.
- Faltam 6 dias para o Natal, certo?
- Certo! – responderam ambas.
- Então vamos orar todos os dias sobre este assunto. Vamos pedir a Deus que contenda com o coração dos teus pais, Ana, e verás a transformação que Ele irá operar nas vossas vidas!
- Claro! Tal como está escrito, se não me engano, na carta de Tiago … “a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” – Jéssica recordou o versículo que as jovens aprenderam na Escola Dominical.
– É a altura perfeita, nesta quadra todos ficamos mais sensíveis.
- Vocês acreditam mesmo que algo pode mudar, não é verdade, amigas? – Ana não queria parecer ingrata ou incrédula, mas de facto sentia-se receosa.
- Para Deus não há impossíveis! – exclamou Catarina.
- Minha querida amiga não duvides, acredita que Deus vai dar-te esse presente especial – disse Jéssica, com muita segurança.
- A minha família… - Ana espelhava agora no olhar e no rosto a imagem da esperança.
- Sim! E agora andem daí, vamos todas celebrar o verdadeiro espírito do Natal!
- Vamos! – gritaram as três mosqueteiras com júbilo.
Com o laço da amizade fortalecido e os corações confiantes que o milagre ia acontecer, colocaram em marcha os planos, por elas, anteriormente traçados.

Florbela Ribeiro®

Sem comentários:

Enviar um comentário