terça-feira, 1 de junho de 2010

Em Louvor das Crianças

























Em Louvor das Crianças


Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e
simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância.
A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia.
Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com
o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da
alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade.
Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como
argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma
criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos.
O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as
suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não
somos filhos de Deus.



Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

(*) Um pensamento que merece uma reflexão....

2 comentários:

  1. Flor, gostei muito desde texto, parabéns
    estou a observar suas obras, que o Senhor Deus
    a inspire sempre.

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  2. Vou visitar o seu espaço também.
    Deixarei comentário, assim que o fizer.
    Muitas bençãos.

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