sábado, 30 de janeiro de 2010

Tufo de Flores





Tufo de Flores


Fui revirar o pasto após um camarada
O ter cortado no orvalho da madrugada.

Se fora o orvalho que afiara sua foice
Antes que até o plano descampado eu fosse.

Busquei ouvir sua pedra-de-amolar no vento;
E vê-lo atrás dos arbustos ainda intento.

Mas ceifada a grama, ele seguiu seu caminho,
E deve estar — como antes estava — sozinho,

‘Como os demais’, murmurei ao meu coração,
‘Quer trabalhem distantes, quer em união’.

Mal eu disse isso, uma ágil borboleta
em asas silenciosas fez uma pirueta

Buscando, antes que a noite as memórias estreite,
N’alguma antiga flor algum velho deleite.

Fixei minha atenção em seu vôo circular;
Uma flor murchava bem naquele lugar.

E então ela voou por caminhos sem fim
E então, em asas trêmulas, voltou para mim.

Divaguei sobre questões que não têm resposta
E já ia revirar a grama ali posta,

Mas ela, ao girar, meu olhar havia guiado
A um tufo de flores perto de um regato.

Um fiapo de vicejo a foice poupara
Ao lado do regato que a foice limpara.

Tanto as amara o camarada sob o orvalho
Ao consentir que florescesse aquele esgalho

Não para nós, por reconhecimento ou demora,
Mas pelo despontar da pujança da aurora.

Eu e a borboleta notamos, não obstante,
Uma mensagem no alvorecer deslumbrante,

Que me fez escutar os pássaros canoros
E o sussurro da longa foice contra o solo.

E uma alma se atou a mim com tal alinho
Que a partir dali não mais trabalhei sozinho.

Alegre, trabalhei com o auxílio do amigo
E exaustos, buscamos, ao meio-dia, abrigo.

No sonho (pois o era!), tive cordiais
prosas com o que não vi nem verei jamais.

‘Homens lavram juntos’, pus-lhe do coração,
‘Quer trabalhem distantes, quer em união.

Robert Frost


Tradução:
Leonardo Saraiva

Robert Frost, um dos mais importantes poetas dos Estados Unidos do século XX.

Recebeu quatro prêmios Pulitzer.

Aniversário da sua morte: 29 de janeiro de 1963

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