domingo, 6 de dezembro de 2009

As virgens














As virgens

“E cinco delas eram sábias, e cinco
loucas. E as loucas, tomando suas
lâmpadas, não levaram azeite
consigo” (Mateus 25. 2,3).


Os pés sedentos de sono
no negro tempo avançaram.
Pelos sonhos sem futuro
poliam peças talvez
de inútil ourivesaria.
Ah, que loucura de moças
a queimar do escasso azeite
para esponsais de algum dia.
As línguas do candeeiro
vão-se perdendo no escuro,
o tempo se poluindo
em soturnas caminhadas.
Preparam enxoval talvez
de sedas, linhas e rendas.
Mas que loucura de moças:
o corpo jogam no leito,
erosões perfuram as almas.
O noivo com pés de pluma
não usa brado ou trombeta,
vem bem mais leve que a brisa,
em asas brancas de ave.
Debalde botões e adornos,
enlevo, riso e projeto.
Singular é o noivo e cala
sobre ano, dia e hora.
(A vigília é o passaporte.)
Quem ama persiste e espera:
a candeia e o seu azeite
olham as janelas da noite,
os olhos firmes e sábios:
mas as loucas se estenderam
(quando não tosquenejaram)
nos longos braços do sono.
Veio o noivo e se perderam
no fosso da escuridão,
veio o noivo e as condenou
com aguda ponta de um “não!”.
(Sem bodas, sem matrimônio,
morreu de todo o amanhã.)


Podem chegar os cavalos
que pisam as madrugadas;
como pássaros noturnos
podem despertar as algas
– as virgens sábias vigiam
os quadrantes e hemisférios.
Sejam chuvas, maremotos,
ciclones ou calmarias
– as virgens sábias vigiam
no dorso agudo das noites,
nas retas sendas dos dias.
Não há em seus olhos claros
peso, dor, lágrima ou tédio.
As virgens sábias vigiam
os casulos do silêncio,
camuflagens e mistérios.
O noivo é segredo de ouro
que vem sem anúncio prévio.
Vem com jazidas de encanto,
filões de afagos, ternuras
– contra o sono (fuga e túnel):
as sábias virgens vigiam.
Dormite quem louca for
e tenha amor pouco e frágil,
dormitem montes e praias,
arbustos, nuvens e mares.
Quem ama explode os relógios
e as marcas do calendário.


As virgens sábias vigiam,
importa o rosto do amado,
seu porte exato, a figura
sem dissonâncias ou mácula.
As virgens sábias vigiam
até que seu noivo aporte
das águas do firmamento,
das campinas do infinito,
em corcéis de azul e aromas,
esplendor e encantamento.
Vem maduro para as núpcias,
vem num sorriso de pérola.
As bodas, tecendo flores
sobre o chão da vida e o espaço.
As virgens sábias nem sabem
do peso que há no cansaço.
Os esponsais, luz e pétalas,
o prêmio maior da espera.


As virgens loucas secaram
no vale do Nunca-mais;
perderam mãos e retinas,
nas antípodas da paz.
As virgens sábias já sabem
que vale mais que o Universo
quem sabe ser firme e fiel.
As virgens sábias sim sabem
a vagas de leite e mel.


Joanyr de Oliveira

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