sábado, 31 de outubro de 2009

O auto-retrato

(continuação)

Despertou ao som do chilrear alegre de um pássaro, que ela nunca ouvira antes.
- Que pássaro é este? – ergueu-se muito devagar, dirigindo-se de seguida para a janela do quarto. Abriu-a, lentamente, para não espantar o passarinho cantante.
- Uau! Que lindo – exclamou. Era uma ave pequena com a plumagem em tons de azul e cinza, e o peito era de um laranja fogo.
A ave parou de cantar e deixou que Jéssica a observasse, de seguida levantou voo e partiu dali.
- Nunca vi esta espécie de pássaros por aqui – comentou de si para si – Que estranho…
Ao retornar à cama prendeu o olhar no auto-retrato.
- Continuam os mistérios, não é? Será que tens razão quando dizes que devo ir ter com Jesus o Nazareno?
De repente soa da rua uma voz de criança que grita:
- Ele já chegou, ele já chegou!
Jéssica abeirou-se da janela e com a voz meio enfraquecida, e meio rouca, perguntou à criança:
- Quem é que chegou, rapazinho?
O miúdo olhou para trás e ao vê-la fez uma pequena careta, mas de imediato sorriu-lhe:
- Foi Jesus, o Nazareno. Chegou a aldeia e uma multidão já está lá para o receber, venha.
Aquele convite soou-lhe diferente, porém especial, tal como o semblante daquele rapazinho. Havia algo na sua expressão que ela não conseguia definir e, sem oferecer resistência respondeu:
- Sim, eu já lá vou ter. Obrigada.
- Vou estar à sua espera – disse a criança com um largo sorriso e desapareceu.
Não podia voltar com a sua palavra atrás, dissera ao rapazinho que ia e apesar de lhe custar imenso faze-lo iria cumprir com a palavra dada.
Regressou ao interior do quarto olhou para o quadro e disse:
- É verdade, ganhaste… eu vou lá – sorria ao dizer aquilo – o rapazinho diz que está lá uma grande multidão, mas eu creio que se tocar apenas na orla das suas vestes, serei curada.
Se o quadro pudesse expressar o seu espanto…
Havia anos que não se via aquele brilho no rosto de Jéssica. Essa era uma das razões porque não havia um espelho naquele quarto, nem ela suportava olhar para a sua decadência gradual.
Mas algo mudara em Jéssica, havia um renascer de esperança, vindo não se sabe de onde, mas também não era importante.
Foi com algum custo que Jéssica se preparou para sair, mas antes ainda olhou para o quadro, com o dedo indicador apontado e disse:
-Fica desde já a saber que esta é a última vez que te dou ouvidos. A última!
E saiu, batendo a porta atrás de si.
A movimentação nas ruas denotava que algo de anormal se passava. As pessoas falavam e gesticulavam de modo exagerado e nem a cumprimentavam de tão distraídas que iam.
Durante o trajecto ouviu que a filha do príncipe da sinagoga, de nome Jairo, estava às portas da morte. Diziam que Jairo pretendia que Jesus fosse até sua casa para curar a menina.
- Se até o príncipe da sinagoga crê que Jesus pode curar a sua filha, fazendo um milagre, então também me poderá curar a mim – disse Jéssica de si para si com renovada esperança e maior convicção.
O resto da viagem pareceu-lhe uma eternidade, queria tanto ver esse Jesus de perto e poder tocar na orla das suas vestes…
Mas ao chegar lá, deparou-se com um tremendo obstáculo. A multidão que cercava Jesus era tanta que ela nem conseguia visualizá-lo.
- Se não consigo vê-lo, como vou poder aproximar-me e tocar-lhe? – o desânimo voltava a instalar-se.
- Vai desistir agora? – era o rapazinho, que a observava de cima do telhado de uma casa – Vai desistir agora? – insistiu ele sem desviar os olhos do rosto de Jéssica.
- Achas-me capaz de desistir assim tão facilmente? – perguntou ela tentando aparentar uma coragem que não tinha.
- Claro que não. Quem desiste não alcança vitória!
- Exactamente – anuiu Jéssica.
Olhou a sua volta na tentativa de encontrar uma brecha para chegar até Jesus, e como não conseguia ver, resolveu perguntar ao rapazinho. Ele de cima do telhado poderia ajudar a escolher o melhor trajecto.
Mas quando se voltou para o lugar onde este se encontrava, já ele tinha desaparecido.
- Que rapazinho estranho, aparece e desaparece como o vento.
Ao mesmo tempo que pensava no rapazinho misterioso, era engolida pela multidão que a apertava de um lado para o outro. Sem saber muito bem por onde ir, Jéssica tentava furar ora pela esquerda, ora pela direita, em direcção à voz que ela julgava ser de Jesus. O povo chamava o seu nome, suplicando por bênçãos e milagres, enquanto outras vozes tentavam acalmá-los mas sem sucesso.
A distância que a separava de Jesus, o Nazareno, não era muita, talvez umas dezenas de metros mas percorre-los foi uma autêntica maratona. Tão dolorosa como a que a história regista.
É visivelmente esgotada e no limite das suas forças que Jéssica, ergue o seu braço por entre o povo, e toca na orla do vestido de Jesus.
Ela sente de imediato, que a hemorragia que há doze anos a atormentava, estanca.
Mas Jesus apercebendo-se do que lhe sucedera pergunta:
- Quem é que me tocou? – gera-se de imediato uma enorme confusão, e um dos discípulos que o acompanhava, Pedro diz:
- Mestre a multidão que te cerca aperta-te e comprime, e tu perguntas quem te tocou?
- Sim, Pedro – respondeu-lhe Jesus – alguém me tocou, porque bem sei que de mim saiu virtude.
Jéssica fora apanhada, e sabendo que não podia ocultar-se, resolveu confessar:
- Fui eu Mestre – confessou-lhe Jéssica, enquanto se aproximava tremendo, e prostrando-se diante de Jesus, relatou-lhe toda a sua história.
Jesus ouviu-a atentamente, e também o povo que os cercava e que entretanto se silenciara.
A voz embargada de Jéssica denunciava com clareza a comoção, pela qual foi subitamente invadida.
O ar carregado de expectação ouvia atentamente o relato sucinto dos seus doze anos, e a forma como se abeirara de Jesus para receber a cura.
Não sabia que tipo de reacção, o seu atrevimento, iria merecer por parte de Jesus, o Nazareno, e por isso temia…

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