sábado, 31 de outubro de 2009

O auto-retrato

(continuação)

Foi com manifesta surpresa que ouviu Jesus dizer-lhe que tivesse bom ânimo, a sua fé salvara-a, podia partir em paz. Em sequência, o seu auxílio, ergueu-a do chão. Jéssica atónita e sem palavras, deixou que as lágrimas falassem por si.
Mas a desgraça rondava a multidão e não permitiu que houvesse celebração.
Abeirando-se de Jairo, um dos príncipes da sinagoga, comunicou-lhe que a sua filha tinha acabado de falecer.
O pranto instalou-se de imediato no meio da multidão agitada pela notícia.
Na posse do milagre, Jéssica albergava agora no seu coração toda a humanidade.
Jairo, visivelmente açoitado pela dor, exercia uma forte pressão nos seus maxilares. E um manto rubro cobriu-lhe subitamente as janelas da alma.
Jéssica observava o semblante de Jairo comovida, e sentiu uma dor implacável a trespassá-la também.
A voz revestida de compaixão, disse àquele pai que não temesse, mas cresse que a sua filha seria salva.
Jairo limitou-se a acenar em concordância com Jesus.
- É verdadeiramente um homem de fé – afirmou alguém do meio do povo.
Jéssica sentia-se exausta, o corpo suplicava-lhe por descanso mas o seu coração não o escutava. Em vez disso, juntou-se ao grupo que acompanhou Jesus e os discípulos até a casa de Jairo.
Era-lhe necessário saber o desfecho daquela história e conhecer mais do homem que a curará.
Durante o trajecto foram-se erguendo no ar nuvens de choro e pesar, mas as críticas ao comportamento de Jesus, o Nazareno, não se fizeram esperar.
- A menina podia estar viva se ele tivesse atendido ao pedido de Jairo. – dizia uma voz – e tanto que o pobre homem lhe suplicou para que fosse a sua casa. Eu ouvi!
- Sabes lá tu o que dizes mulher – ironizou outra – achas mesmo que o Nazareno possui assim tantos poderes?
Jéssica não se conteve diante de toda aquela incredulidade, e disparou:
- Hipócritas! Contemplastes os milagres com os vossos olhos, e já os maldizeis com o coração?
Os olhares silenciaram a sua descrença perante a questão pertinente.
O sol escaldante que se fazia sentir aquela hora do dia, incidia de forma impiedosa sobre os seus corpos cansados. E a poeira que, se erguia das passadas lentas da multidão, cobria com intensidade a visão daquele povo descrente.
- É a mulher do milagre que vimos a pouco – sussurrou alguém.
- Ah pois é… – exclamou uma voz – mas olhem… já nem parece a mesma.
Jéssica não tinha a menor noção da transformação que ocorrera no seu rosto.
Sabia o que acabava de suceder no seu corpo. O contínuo esvair de sangue, o mal-estar e aquela sensação de extrema fadiga, que a perseguiu durante doze longos anos, tinham desaparecido. Mas desconhecia que a palidez que antes lhe cobria as faces, se tinha igualmente dissipado.
- Um simples toque – disse Jéssica com o sorriso nos olhos – tudo aconteceu com um simples toque de fé.
- Como ousas afirmar com tanta convicção que estás curada? Acaso já to comprovou algum médico? – Jéssica apercebeu-se que aquela pergunta era feita com um único objectivo. Desacreditar a Jesus o, Nazareno.
- Vedes estas pedras do caminho? Assim sois vós e os vossos corações, duros e revestidos da imundície que vos cega o entendimento.
- Porque vos recusais a ver o que está diante dos vossos olhos? Ouvis falar dos prodígios e das maravilhas que o Mestre opera. Contemplais as mesmas, e ainda assim teimais em pedir mais provas? E tudo porque dais guarida á incredulidade.
Jéssica falava com uma autoridade e convicção fora do comum.
- Não será esta a filha do falecido visionário? – a pergunta era-lhe lançada por um homem de meia-idade. A sua roupagem denunciava pertencer aos principais da sinagoga.
Ouvira-a com atenção e, secretamente, admirou a eloquência defensiva daquela mulher.
- Sim, sou eu mesma – disse com manifesto orgulho.
Como era bom saber que alguém se recordava do seu pai...
- Faz muito tempo que ninguém sabia de ti, pensávamos que tinhas partido com o teu irmão para Jaffa. – denotava conhecimento sobre a sua família.
- A doença, que sobre mim se abateu durante mais de uma década, condicionou-me os movimentos. As minhas saídas restringiam-se, unicamente, na busca de cura.
- Compreendo – caminhavam lado a lado, em conversa aberta e sob os olhares atentos das carpideiras.
- Mas diga-me, conheceu o meu pai? – questionou curiosa.
- Sim, conheci. E ao ouvir a exposição acalorada das tuas convicções, pareceu-me estar novamente diante dele.
- O Visionário – pronunciou com tom subtil de provocação, e Jéssica sorriu – eu era um bom amigo do seu pai, e isso deu-me me o privilégio de escutar algumas das suas ideias mais avançadas.
- As mesmas que eu vou continuar a defender – assegurou ela prontamente.
Não restava a menor dúvida, aquela mulher era filha do famoso visionário.
A segurança, com que proferiu aquelas palavras, demonstrou claramente a sua origem.
- E faz muitíssimo bem, embora ache que as mentalidades continuam tão fechadas como há doze anos atrás.
- Não faz mal, elas hão-de abrir-se algum dia. Não podemos é baixar os braços quando temos a certeza de estar certos.
- Concordo. – estava fascinado com a força e a determinação que soavam de uma mulher aparentemente tão frágil.
O pranto intensificava-se à medida que se aproximavam da casa de Jairo. Os amigos e vizinhos aguardavam a sua chegada com o rosto manchado de dor.
Jairo percorreu o sinuoso caminho ao lado de Jesus, e a paz que dimanava dele acalmara-o.
Somente Pedro, Tiago e João entraram com o Mestre na habitação de Jairo.
O espírito irrequieto de Jéssica abeirou-se da entrada da casa, de onde pôde ver que a menina repousava o corpo sem vida nos braços inconsoláveis da sua mãe.
O ar encontrava-se impregnado de fluidos lacrimais.
Jesus aproximou-se da menina e pediu-lhes que não chorassem porque ela apenas dormia, não estava morta.
Ao ouvir as suas palavras, os familiares e amigos que se encontravam presentes no interior da habitação riram-se dele.
Eles sabiam melhor do que ninguém que menina estava realmente morta.
Jesus, indiferente aos seus comentários, ordenou-lhe que se retirassem dali, com excepção dos discípulos e os pais da criança.
Um após outro, foram saindo e reclamando contra o visitante.
Jairo não se deixou perturbar e, deu seguimento, à ordem do Mestre.
O vermelho que havia em seus olhos cruzou-se com a mulher que, pouco tempo antes, tinha sido curada pelo Nazareno.
Com um ligeiro movimento de cabeça e sem erguer a voz, pediu-lhe permissão para fechar a porta, ao que Jéssica anuiu.
Ninguém sabe o que aconteceu, mas não tardou muito a ouvir-se uma ruidosa manifestação de júbilo, vinda do interior da casa.
A expectação que se vivia cá fora era tanta como a ânsia de saber tudo quanto sucedia na casa de Jairo. Mas os corações aguardavam silenciosamente pelo abrir daquela porta.

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