sábado, 31 de outubro de 2009

O auto-retrato



















O auto-retrato


Jéssica repousava a excessiva magreza do seu corpo cansado e doente. Na cama adornava a silhueta esguia com uma nobre e delicada colcha de linho, bordada à mão. Mas permitiu que o seu olhar baço pela dor se ausentasse dali.
Através da janela entreaberta, entrava uma brisa fresca, que fazia esvoaçar com subtil leveza a brancura da cortina de organdi.
Havia um sinal de que o calor intenso que se fizera sentir ao longo de quase todo o dia, começava finalmente a dar tréguas.
Em frente, e por cima da cómoda de carvalho maciço, o auto-retrato, pintado por um conceituado artista israelita, observava-a atentamente, parecia perceber quais os caminhos por onde vagueava o pensamento.
Percorria mentalmente as ruas e os becos, tantas e tantas vezes calcorreadas, para levar auxílio, cuidado ou simplesmente afectos.
Cruzaram-se com ela inúmeras histórias de vidas, onde a tragédia, sem ser convidada, batera à porta. Histórias que se mantinham bem presentes na sua memória, ao ponto de sentir a miscelânea de aromas provenientes daqueles caminhos, invadirem-lhe o quarto…
- Que saudade… – murmurou.
As gotículas que lhe desciam suavemente pelo rosto, não eram apenas saudade. Havia nelas muito de desespero, de desânimo, de amargura, e revolta, e toda essa mistura resultou numa rendição total.
O optimismo era uma das muitas qualidades na personalidade de Jéssica, mas nas circunstâncias actuais, tal era de todo impossível.
O destino desferira-lhe um duro golpe, ao traí-la daquela maneira.
Jéssica sabia que o seu fim se aproximava, e não havia nada, nem ninguém que a pudesse salvar.
Recuar no tempo, remexer nas memórias, era a única maneira de escapar à dura realidade. Era uma fuga momentânea, mas que amaciava, tal como um bálsamo, os golpes profundos, desferidos pela fatalidade.
Foi notório o brilho que por breves instantes lhe iluminou o rosto, ao recordar o apelido pelo qual o seu pai era conhecido na cidade:
- “ O VI-SI-O-NÁ-RIO” – soletrou baixinho.
Fora assim “baptizado”, depois de muito insistir na “loucura” de dar à sua filha Jéssica, a mesma educação que recebia todo e qualquer filho varão.
Uma opinião que foi prontamente contestada e encarada como absurda, além de uma verdadeira afronta para a cultura e a mentalidade da época.
Mas seu pai, possuidor de uma visão que via o futuro, asseverava que os rapazes e as raparigas deveriam ter direitos iguais, no acesso aos estudos.
- A mulher deve ser instruída, quanto mais não seja, para criar um lar mais acolhedor e atractivo para o seu marido e filhos. Isso não irá afectar em nada os seus afazeres domésticos, bem pelo contrário, irá valoriza-lo. Pensem nisso! – argumentava ele a plenos pulmões.
Era um dos homens mais respeitados da cidade, mas o seu prestígio não derivava da posição socioeconómica que ocupava, e sim da forma atenciosa e afável com que tratava toda a gente.
É claro que a juntar a este rol de qualidades, estava também o geniozinho com que defendia as suas convicções. E não abdicava delas a favor de ninguém.
- Nem a favor do Imperador – afirmou ele certo dia com ironia.
Ao ouvir a argumentação cerrada, e por vezes irada dos conservadores, estava sozinho, mas mesmo assim não desistiu.
- Mas que raio… – vociferou ele, no último debate – a filha é minha, portanto sou eu quem decide como é que ela será educada e ponto final!
Não conseguiu alterar as regras do sistema de educação, em benefício das raparigas, mas jamais permitiria que alguém se intrometesse na educação da sua filha.
A sua esposa Maria, Avi o seu primogénito e a sua filha Jéssica, eram os seus únicos apoiantes, e isso bastava-lhe.
O orgulho que aqueles três pares de olhos evidenciavam por ele, dava-lhe a força necessária para avançar.
E foi essa perseverança paterna que permitiu que Jéssica recebesse um ensino completo.
Com o passar dos anos Jéssica transformou-se numa mulher culta, inteligente porem sóbria. Mas tal como o seu pai, era determinada quanto às suas convicções e nem a timidez característica da sua personalidade a fazia recuar.
Jéssica possuía uma alma extremamente bondosa, que a impedia de ficar de braços cruzados diante dos problemas e das carências do povo.
Era movida pela compaixão, nutria um carinho especial tanto para com as crianças, como para com os doentes, os pobres ou necessitados.
Sofria ao ver uma mãe que agonizava na dor de perder um filho. Revoltava-se com o desprezo e o abandono que eram infligidos aos cidadãos mais vulneráveis. E com o regime governamental, onde as leis aplicadas eram cegas, imparciais e desumanas diante do sofrimento do povo.
A sua faceta solidária enchia de orgulho todos os membros da família e, rapidamente, tornou-se numa defensora acérrima dos mais carenciados.
Onde houvesse algum tipo de carência, aí estava Jéssica.
Prestativa e afável, auxiliava tudo e todos, o quanto podia, e sempre que a situação a transcendia buscava ajudas externas, sem poupar nem medir esforços. Deparou-se inúmeras vezes com situações delicadas e problemáticas, como crianças que perdiam acidentalmente os seus pais, ou que eram largadas ao abandonado, ou outras que eram maltratadas pelos próprios familiares.
Nas duas primeiras situações, e sempre que estas sucediam, ela não descansava até lhes arranjar um novo lar. Elegia casais impossibilitados de ter filhos, ou lares onde a desgraça se tivesse instalado, ao levar-lhes um filho.
Era uma maneira de atenuar simultaneamente dois sofrimentos de uma vez. E a garantia de que as crianças seriam mais facilmente acolhidas e bem cuidadas, era maior.
Cuidava igualmente dos idosos, prestava-lhes os cuidados básicos essenciais, principalmente quando se encontravam acamados. Para os mais activos e ainda saudáveis arranjava algumas actividades de modo a incorporá-los na sociedade. Uma maneira simpática e inteligente de fazer com que se sentissem úteis.
Também angariava bens de primeira necessidade, que distribuía pelos mais pobres e carentes. Recorria aos ilustres senhores da sociedade, mas contava com a preciosa ajuda da sua mãe. Era ela quem confeccionava os deliciosos almoços ou lanches, onde o requinte e sofisticação marcavam presença.
Era nesses encontros que Jéssica aplicava todo o seu potencial argumentativo com uma eloquência oratória de fazer inveja. Descrevia o sofrimento das histórias de vida com tanta clareza e pormenor, que os convidados ficavam com a sensação de estar diante delas.
Agora todos podiam finalmente comprovar que o seu pai tivera razão. A educação que Jéssica recebeu não a desvirtuou em nada, pelo contrário.
Obviamente que os mais tradicionalistas e conservadores não admitiam publicamente o facto de terem errado nas suas alegações, mas faziam-no em privado. Não foram poucas as vezes que, com palmadinhas nas costas, o felicitaram, pela preciosidade que tinha em casa.
O empenho e o dinamismo que Jéssica impunha em defesa das causas sociais, e no voluntariado, contribuiu para que a sociedade a olhasse com um profundo apreço e respeito.
A sociedade da época nunca se preocupava com os estados de miséria que a rodeava, nem tão pouco se sensibilizava com os problemas dos mais desfavorecidos.
Mas Jéssica era a excepção à regra, ela era sem dúvida uma alma fora do comum.
- Que razão tem o destino para ser tão cruel connosco? - perguntou Jéssica – dedicamos a nossa vida ao serviço dos outros, enquanto que a nós… ninguém ajuda.
Passava em revista todas estas lembranças, mantendo o olhar preso à imagem do passado, no seu auto-retrato. E ambas se interrogavam. A diferença que existia entre as duas era abismal.
A Jéssica actual não transparecia bondade, nem ternura, nem esperança. Não havia nela nada da mulher de outrora. Encontrava-se ressequida, tudo se esvaíra de dentro dela. Tudo menos aquela maldita enfermidade.
As últimas palavras que o responsável da equipa médica lhe proferira nessa mesma manhã, martelavam ainda na sua mente.
- Lamento muito, mas não há nada que possamos fazer por si.
Que ironia meu Deus.
- Não há nada a fazer – recalcava aquelas palavras sem desviar o olhar do quadro.
Não havia nada a fazer nem a ninguém a quem recorrer, e ainda que houvesse, ela já não possuía dinheiro nem bens.
A herança que os seus pais lhe deixaram e as poupanças que amealhou ao longo dos anos tinham sido gastas nas inúmeras consultas e tratamentos que fez. Bateu a todas as portas possíveis e imagináveis, desde médicos a curandeiros. E encontrou de tudo um pouco. Charlatães e vigaristas que lhe extorquiram tudo quanto puderam, em troca de falsas esperanças.
Outros, tal como o último médico, eram honestos, mas tinham os prognósticos desfavoráveis.
Dado que não havia mais nada a fazer, iria aguardar ali pelo inevitável desfecho.
Aguardaria com tranquilidade a chegada da morte, porque só ela tinha o poder para a libertar de todo aquele sofrimento.
Subitamente uma forte rajada de vento Norte invadiu-lhe o quarto, abrindo a janela entreaberta de par em par. A cortina era agora sacudida violentamente.
Desperta que foi dos seus pensamentos, Jéssica ergueu-se lentamente do leito para fechar a janela, mas não conseguiu.
As suas forças não eram muitas, mas o vento era realmente forte.
- De onde saiu este vento? – Jéssica esforçava-se ao máximo mas de nada valia.
Cansada, preparava-se para regressar ao leito quando ouviu vozes vindas da rua.
- O Nazareno vem aí! O Nazareno e os seus discípulos. Venham ver os milagres que opera. – anunciava uma desconhecida voz, ao percorrer a rua.
- Milagres? – repetiu Jéssica – não há milagres para quem está como eu condenada a morte. Milagres…
Reparou com espanto que o vento tinha acalmado por completo.
- Que estranho – pensou ao mesmo tempo que fechava a janela.
Aquela súbita rajada de vento que a obrigou a emergir dos pensamentos, a erguer-se do leito, e a impediu de fechar a janela parecia querer chamar a sua atenção.
- O Nazareno… já ouvi falar deste Nazareno – o nome não lhe era estranho – mas onde?
Sentada na beira da cama, Jéssica começou a revolver as suas memórias.
- Nazareno… Ah… já sei! É o filho de um carpinteiro de nome José. – recordou-se então de um velhinho muito doente, que tinha sido abandonado pelos filhos durante a festa da Páscoa. Ele contou-lhe que uns anos antes, pouco tempo depois de ela vir ao mundo, tinha nascido em Belém um bebé de nome Jesus, o qual se dizia ser o Messias aguardado e pelos profetas anunciado.
Esse velhinho estava convicto de que assim era, e antes de morrer disse-lhe que só Jesus, o Nazareno tinha poder para salvar a humanidade.
Depois disso ouviu vários relatos de milagres, mas nunca ligou. Estava mais preocupada em ajudar aqueles que dependiam do seu auxílio, porque se não fosse ela, passariam bem pior.
Jéssica era prática e objectiva, e não acreditava em fábulas ou contos. Tinha que ver para crer, e o que via era desgraça e tragédia.
E o povo aumenta sempre um ponto nos relatos que faz… quantos pontos não teriam sido já acrescentados desde a data do seu nascimento?
- Venham todos ver o Nazareno – a voz bateu-lhe com tanta força à janela que Jéssica quase caiu da cama, com o salto que deu.
- Santo Deus – soltou com a voz enfraquecida – o homem está doido.
Não lhe interessava para nada aquelas notícias, só queria ficar ali sossegada.
Já que ninguém tinha solução para o seu problema de saúde, ao menos deixassem-na morrer em paz.
Ou será que também não tinha esse direito?
Estava zangada com tudo e com todos, mas principalmente com a vida.
Deitou-se novamente sobre a cama e tentou adormecer. Não queria pensar em nada, nem nas lembranças. Apesar de balsâmicas também se tornavam dolorosas quando chegava a realidade.
Rendia-se por completo e agora achava mesmo que queria morrer, sim era isso.
- Quero morrer em paz e acabar de vez com este tormento que me persegue à doze anos. Já basta. – cerrou os olhos com força.
Aquela voz desconhecida, que momentos antes gritava pelas ruas, continuava a ouvir-se na mente.
Jéssica revirava-se de um lado para outro mas a voz permanecia ali.
Por fim, cansada de tanto se remexer, sentou-se na cama e fixou o olhar no auto-retrato.
- Queres explicar-me o que se passa? Porque razão não consigo dormir e morrer em paz? – questionou-se ela.
- Não estás a espera que eu me levante e vá atrás desse Nazareno, pois não?
Na imagem daquela que fora a Jéssica de outrora, transparecia o brilho característico da sua bondade. O seu sorriso, era todo ternura e esperança…
- Mau… – proferiu com um levantar de sobrolho.
Gerou-se um diálogo entre ambas… Jéssica e o seu auto-retrato, que só era perceptível através das respostas e perguntas que iam sendo proferidas por ela.
- Sabes bem o quanto estou cansada – disse – por isso não vou a lado nenhum.
- Sim, eu sei que já recorri a muitos sítios, por isso mesmo é que estou farta de acender a nossa lamparina da esperança, para depois ter de a apagar.
- Não insistas – disse num grito abafado pelas lágrimas que voltavam a cair-lhe com abundância. – Não vou, desiste… por favor!
Jéssica travava uma luta violenta. A sua esperança recusava-se a baixar os braços e contendia insistentemente com ela.
- Tu não vês como estou? – questionou por entre os soluços que a sacudiam – Acabaram-se-me as forças, o optimismo, o dinheiro, a coragem, a esperança… acabou tudo, tudo…
Enrolada sobre si deixou que as lágrimas que ainda lhe restavam, lhe lavassem as dores provocadas pela amargura e revolta que sentia.
Ficou assim durante tanto tempo, que acabou por adormecer.

2 comentários:

  1. Florbela, parabéns. Ficção a partir de um texto evangélico muito bem estruturado, invenção de uma nova personagem com toda a intriga que um conto(neste caso longo, quase pequena novela) deve ter. Genial a inclusãp de um alter-ego no auto-retrato.
    Continue.
    J.T.P

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  2. Parabéns Florbela pelo seu espaço, Blog de extremo bom gosto adorei seus escritos !!!
    Maurício.

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