sábado, 31 de outubro de 2009

O auto-retrato

(continuação)

Ao fim de um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, surgem diante deles Jairo, sua esposa e… a menina.
A emoção apoderou-se dos corações amigos a qual por entre lágrimas de alegria e espanto, grita entusiasticamente:
- Milagre! Milagre!
Jéssica permanecia imóvel junto a ombreira da porta. Olhava aquela família e sentia a mesma comoção, que horas antes a invadira.
Bastou uma simples troca de olhar para gerar uma sintonia perfeita entre a pequena e ela.
- Alegrai-vos e celebrai connosco – convidou Jairo – porque onde abundavam o pranto e a dor, há agora abundante vida.
- Viva! Viva! – gritavam em uníssono.
O Mestre afastou-se, discretamente dali, juntamente com os seus discípulos, levando consigo a gratidão daquelas quatro almas.
Enquanto isso, o povo prosseguia com as manifestações de regozijo e na troca de abraços.
Era altura de Jéssica regressar a casa.
Tinha-se negado em dar ouvidos ao corpo que lhe suplicava por descanso, mas já nada a prendia aquele local. Era-lhe necessário recuperar do impacto, que toda aquela emotividade lhe causara.
O casal ao aperceber-se que ela partia, chamou:
- Mulher! Espera…
Com o corpo moído voltou-se na sua direcção:
- Sim… – respondeu ela.
- Não queres ficar um pouco mais para festejar connosco? - perguntou-lhe com amabilidade a mulher de Jairo.
- Gostaria muito de ficar, e agradeço o vosso convite – respondeu fixando-se na pequena – mas o cansaço pede-me que regresse a casa.
- É natural, o dia foi demasiado longo e cansativo – disse Jairo.
- Espera-te alguém? – perguntou-lhe a esposa de Jairo.
- Não, ninguém. – respondeu-lhe Jéssica com tristeza.
- E voltas cá? – perguntou-lhe a menina que entretanto largara a mão da mãe para se aproximar Jéssica.
- Se puder… volto – respondeu-lhe ao segurar-lhe nas suas mãozinhas delicadas – queres que volte?
- Quero, podes voltar amanhã?
Os olhos de Jéssica ergueram-se na direcção dos pais que assistiam a tudo.
- Será um prazer receber-te em nossa casa. – disse a mãe da pequena.
- Encontrarás as portas abertas como se fosses da família. – reforçou Jairo.
O olhar revestido de ternura envolveu a menina com um abraço, que prometia voltar no dia seguinte, mas antes disso, perguntou-lhe:
- Gostaria de saber o teu nome antes de ir embora. Queres dizer-mo?
- Sim, chamo-me Ana como a minha mãe – respondeu com um largo sorriso.
- Têm ambas um lindo nome, o meu é Jéssica.
- Também é lindo, não é mamã?! – todos sorriram perante a espontaneidade da pequena.
A vizinhança unia-se para elaborar uma ementa digna daquela celebração. As mulheres atarefadas combinavam entre si a preparação de saborosos manjares e doçarias. Ninguém se queria abster de participar num tão grande acontecimento. Jéssica despediu-se da família de Jairo com um sorriso no rosto.
- Se precisar de apoio para a sua causa, não hesite em procurar-me – gritou-lhe uma voz alegre do meio dos festejos.
Não conhecia o homem com quem trocara umas quantas palavras momentos antes, mas o facto de saber que este convivera com o seu pai, e manifestava apoio publicamente, agradou-lhe.
- Obrigada – agradeceu ao afastar-se.

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