sábado, 31 de outubro de 2009

O auto-retrato

(continuação)

Ao chegar a casa, direccionou-se de imediato para o quarto. Abriu a porta muito devagarinho, e espreitou sorrateiramente para dentro. Olhou para o auto-retrato e com um ar maroto estampado no rosto, disse:
- Vou tomar um banho para tirar toda esta poeira e já venho conversar contigo. Não saias daí, ouviste? – encostou a porta, para regressar algum tempo depois.
Envergava uma camisa de noite, branca, que a cobria até aos pés, tecida em linho puro mas com uma textura tão fina que mais parecia seda.
O cabelo solto e ondulado cobria-lhe por completo as costas, e decorava com simplicidade a maciez da sua veste. Saltou com agilidade e desenvoltura para cima da cama e olhou para o quadro.
- Ficaste zangada, foi? – perguntou ao soltar uma gargalhada – Eu estava a brincar contigo… é claro que tu não ias sair daqui.
- Antes de mais, quero agradecer a tua persistência. Ainda bem que me moeste tanto o juízo… e para demonstrar como te estou agradecida – dizia com o dedo indicativo erguido no ar - vamos remodelar a decoração do nosso quartito, que dizes?
Olhava em volta como que arquitectando na mente as alterações que tinha a fazer.
- Ah, eu sabia que ias gostar da ideia. É claro que primeiro temos de arranjar dinheiro, e para isso há que começar a trabalhar.
- É verdade – exclamou – recordas-te daquele espelho enorme que tínhamos aqui? Aquele que tu tanto gostavas, lembras-te dele? – o brilho do seu rosto coado, deixava transparecer uma mente em erupção.
- Amanhã de manhã vou buscá-lo aos arrumos, e depois vou ao campo buscar flores silvestres – ergueu o sobrolho em direcção ao quadro – sei que não são as tuas favoritas, mas verás como alegrarão o nosso quarto.
- Nada de exigências requintadas por agora… os lírios virão mais tarde.
Os planos e os projectos interrompidos pela doença invadiam em catadupa a mente alvoraçada. Queria retomar todas as actividades que foram embargadas pela enfermidade. O sofrimento pelo qual passara nos últimos doze anos, não lhe roubou a determinação, a jovialidade nem o vigor de outrora.
O auto-retrato revia com emoção a Jéssica de outros tempos.
- Viste como saltei para a camita? Já não preciso de me encolher… – iniciou o extenso relato, e partilhou com detalhe as emoções vividas:
- Sabes… hoje tomei consciência de uma realidade que nos passou completamente ao lado – disse num tom sério e compenetrado.
- Esquecemo-nos de viver a nossa própria vida – deitada sobre a cama, olhava agora para o tecto do quarto amarelecido pelo tempo.
- Não que me arrependa do que fiz, mas… aquela menina despertou-me um desejo tão grande de ser mãe…
- Já imaginaste o que é carregar dentro de ti o fruto de um grande amor? Colocá-lo no mundo, transportá-lo no teu regaço… ensinar-lhe as primeiras palavras, os primeiros passos…
- Achas que estou a delirar não é? – questionou-se ao fixar novamente o quadro – se calhar estou… A verdade é que se tivesse pensado nisso antes, não tinha conseguido ajudar tanta gente.
- Não me faltaram pretendentes mas tu bem sabes que nenhum deles me permitiria seguir o meu trabalho de voluntariado. Eram todos, umas cabeças duras… e se calhar agora também são.
- Pelo menos aquele homem de quem te falei há pouco, disse que as mentalidades não tinham mudado tanto assim.
De repente, ergueu-se da cama e disparou:
- Estás tonta ou quê? Olha que para a próxima não te conto nada… – parecia zangada com a ideia que o seu auto-retrato denunciou.
Zangada ou envergonhada…
- Nem pensar. Se algum dia o procurar será exclusivamente para solicitar algum tipo de apoio, como ele mesmo me ofereceu. E nada mais que isso, ouviste? Deixa-te de ideias tontas!
O sorriso expresso no quadro, denotava saber algo que ela própria se negava a admitir.
Enterrou novamente o corpo na delicada e nobre colcha de linho bordada à mão, estava extenuada física e psicologicamente.
Olhou a sua volta e recordou que 24 horas antes suplicara por sossego, enquanto aguardava a sua morte.
Mas aquele simples toque de fé nas vestes de Jesus o Nazareno, alterou o seu destino.
Iria seguir o Mestre, nome pelo qual o chamavam os seus discípulos, queria saber e conhecer mais da mensagem que anunciava.
Sentia que o voluntariado que antes fizera, estava incompleto. A humanidade precisa ver saciada a fome do corpo, mas também a da alma.
- Se de graça recebi, de graça vou dar… – disse por fim.
E sob o olhar atento do seu auto-retrato adormeceu.


Florbela Ribeiro
Outubro 2009

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