domingo, 10 de agosto de 2008

Redemoinhos


Redemoinhos

A dor que me inundava naquele momento era indescritível.
Um redemoinho vindo ninguém sabe de onde, destruiu por completo a minha vida.
Arrombou subitamente a porta do meu lar, lançando para bem longe a quietude e a paz.
No rasto da sua passagem ficaram para além da dor, muitas outras aflições.
- Tinha ainda tanto para dar à vida…
- Sim…era tão jovem, mas a morte não escolhe idades.
Eram estes os comentários feitos durante o trajecto daquele cortejo fúnebre.
O coral de mulheres carpideiras, todas vestidas de negro, assemelhava-se a um quadro imaginário.
Era como se tudo aquilo não passasse de um sonho, ou melhor, de um pesadelo, onde eu não me enquadrava.
- Está em estado de choque a pobrezinha – diziam algumas vozes amigas.
- Não admira, sendo ainda tão nova, e os meninos tão pequenos… que Deus tenha misericórdia dela…
O eco das suas vozes chegava até a mim como algo estranho e irreal…
Seria de mim que falavam? Era o meu infortúnio que lamentavam?
Desgraçadamente era, mas a dor do momento deixou-me completamente anestesiada.
Não recordo ainda hoje com clareza o trajecto, e as palavras proferidas por Eliseu na cerimónia fúnebre de Ami.
Lembro-me, isso sim, de regressar ao meu lar com o corpo dorido até as entranhas…
Mas sem lhe dar descanso, vagueei toda a noite pela casa como uma moribunda, percorrendo com o olhar cada recanto.
Revivi em cada um, belos momentos passados com o meu Ami, e chorei amargamente a minha perda. Permaneci porém, por longos dias, com as janelas da minha alma abertas, como que aguardando a sua chegada. Mas o meu amor nunca mais voltou…
Aos poucos, fui despertando daquela nostálgica apatia em que inconscientemente mergulhei, e confrontei-me com a minha nova realidade. E que dura realidade aquela, meu Deus...
A morte de Ami veio sem aviso prévio. Via-me agora sozinha, com duas crianças pequenas que precisavam urgentemente de mim. Noam tinha 5 anos e Zamir acabara de completar 8 primaveras.
Ami era um homem por natureza optimista e até um pouco sonhador, mas eu adorava ouvi-lo projectar as suas ideias e os seus sonhos para o futuro.
Ele tinha tantos planos…, mas o destino cancelou-lhos todos.
- Mamã, o papá vai demorar muito para chegar a casa? - Perguntou-me Noam com a voz cheia de ternura.
Os seus olhitos ansiosos aguardavam por uma resposta contrária aquela que o seu coraçãozinho lhe ditava.
- Vai meu amor – respondi-lhe esboçando um sorriso apático – o papá foi fazer uma longa viagem. Mas um dia nós vamos ter com ele, sim?
- Porque não vamos já mamã? – Perguntou amuado.
- Não podemos ir agora meu amor. – Magoou-me tanto ver a dor invadir o seu rostinho inocente.
- Oh, mas eu quero ir agora com o papá… – agarrou-se ao meu pescoço com toda a força, e chorou convulsivamente.
Zamir, o meu filho mais velho, que assistia em silêncio disse:
- Não sejas choramingas. O papá conta connosco para cuidar da mamã e da casa enquanto está em viagem. – As lágrimas que rolavam pelo seu rosto, e que ele teimava em limpar disfarçadamente, eram as únicas a atraiçoar a sua postura forte.
- Meus pequenos homenzinhos – disse comovida ao envolve-lo também naquele abraço.
Foi nesta salinha minúscula, e no calor de um abraço a três que nos despedimos de Ami.
Mas, não tardou muito tempo até que outro redemoinho arrombasse a nossa vida. Há quem diga que a desgraça nunca vem só, e é verdade.
Despertei com a claridade que diariamente entrava pela frincha da janela do meu quarto, e anunciava o despontar de um novo dia.
Sempre gostei de acordar cedo para fazer a minha oração matinal, e depois com o silêncio ainda a reinar pela casa, preparar o pequeno-almoço das crianças.
Mas naquela manhã, tudo foi diferente. Após terminar o meu tempo de oração, soaram na porta, umas pancadas desconhecidas e violentas.
Não era normal por aquelas horas receberem-se visitas, e eu muito menos, dado que era uma mulher viúva. Receosa e com o coração alvoraçado abri a porta.
Deparei-me com um homem alto de meia-idade, e semblante carregado.
- Venho fazer a cobrança – disparou ele sem ao menos me saudar.
- Cobrança? – Disse meio a gaguejar – Mas, a que cobrança se refere?
- A esta – disse lançando-me em rosto um papel repleto de números e com duas assinaturas.
- Tudo isto? – Perguntei com o olhar arregalado – Mas é muito dinheiro, o senhor deve saber que o meu marido faleceu e ….
- Não estou interessado nos seus problemas – a sua voz soava como um trovão nos meus ouvidos – ou me paga o que deve dentro de 8 dias, ou levarei os rapazes comigo!
- Meu Deus, valei-me… – foi a única coisa que consegui articular.
Olhou-me sem piedade de alto a baixo, antes de desaparecer.
Nas minhas mãos estava agora uma dívida enorme, que eu não sabia como, nem quando poderia pagar.
- O que faço agora meu Deus? Eu não tenho nem dinheiro nem bens a que possa recorrer, e aquele homem não veio aqui disposto a negociar – percorrendo a pequena divisão da casa de um lado para o outro, dialogava em voz alta com Deus.
- Oito dias, ele disse que se em oito dias eu não pagasse, viria buscar o que de mais valioso eu tenho na vida, os meus dois filhos. Ah meu Senhor tu não podes permitir que esta desgraça se abata sobre mim…
- Mamã está a conversar com alguém? – Zamir observava-me meio assustado.
- Não meu amor estava a pensar alto, só isso!
Ambos tinham acordado, provavelmente, com o bater da porta. Tentei aparentar uma calma que não sentia e preparei-lhes o pequeno-almoço.
De seguida solicitei ajuda a uma vizinha minha amiga.
Pedi-lhe que ficasse com os pequenos por algum tempo, dado que tinha um assunto importante a resolver.
Sabendo eu que deixara as crianças em boas mãos, refugiei-me nos meus aposentos e derramei a minha alma desesperada, aos pés do Senhor.
Só Ele me poderia socorrer e libertar de tão grande aflição.
Ali fiquei por muito tempo…. Clamando, suplicando e implorando ajuda e misericórdia.
Lavei com lágrimas o meu desespero, e depositei-o no altar do Senhor.
Depois fiquei atenta à Sua voz, permanecendo ali por um longo tempo de joelhos, e em silêncio.
- O profeta Eliseu – disse em voz alta, quando o seu nome assaltou subitamente a minha mente. Eis a resposta de Deus ás minhas súplicas.
Sem mais demoras fui ao seu encontro.
Encontrei-o na escola, rodeado de rostos que Ami tão bem conhecia.
Vendo ele o desespero estampado no meu rosto, dirigiu-se ao meu encontro.
- O que é que aconteceu Bartira, para vires aqui nessa aflição?
- Peço que me perdoe pelo atrevimento de vir aqui incomoda-lo, mas estou realmente muito angustiada. - As lágrimas que me corriam pela face eram mais velozes do que as palavras.
- Ami era um bom marido, um bom pai, e um servo fiel e dedicado, como bem sabe, mas aprouve a Deus chama-lo cedo.
- Sim é verdade … – confirmou o Profeta Eliseu.
- Era tão dinâmico e optimista… A sua mente estava sempre povoada por inúmeros planos – Continuei com a voz embargada pelo sofrimento – mas hoje pela manhã foi um credor lá a casa, e avisou-me que se eu não pagar esta dívida em 8 dias, leva as crianças.
Ao contemplar aquele rol de números, exclamou:
- Oh valha-me Deus! E agora o que vamos fazer? – Olhava-me perplexo e pensativo – O que tens lá em casa de valor?
- De valor… apenas um pouco de azeite numa garrafa, nada mais.
- Então vais fazer o seguinte. Percorre todas as tuas vizinhas e pede-lhes emprestadas muitas vasilhas vazias! Depois em casa com a porta fechada e na companhia dos teus filhos, enche todas as vasilhas que conseguiste com o azeite que tens na garrafa.
- Santo Deus – Pensei para comigo. A ordem do profeta Eliseu não fazia qualquer sentido. Eu tinha um pouco de azeite numa garrafa, como poderia eu encher muitas vasilhas com ele? Olhei-o nos olhos, e sem o questionar despedi-me para obedecer à sua ordem. No caminho para casa, fui solicitando as vasilhas.
Grandes ou pequenas não importava, o que tinham era de ser muitas.
Fui buscar Noam e Zamir, fechei a porta atrás de nós, e comecei a verter o azeite na primeira vasilha.
Aquele líquido precioso jorrava agora da minha garrafa sem parar, e com ele fui enchendo, enchendo as vasilhas, uma a uma até que se acabaram.
- Não há mais mamã – soltou num gritinho jubiloso Noam.
- Nem há espaço para mais – concluiu Zamir.
Os nossos corações não cabiam em nós de contentes. Tinha acontecido diante dos nossos olhos um milagre maravilhoso.
- Não faz mal meus amores – disse eu – vamos comunicar esta bênção ao Profeta Eliseu, e ele nos dirá o que fazer com tanto azeite.
A angústia desapareceu do meu rosto, e deu lugar a fé.
- Fiz tudo como o Profeta Eliseu mandou. E só quando acabaram as vasilhas é que o azeite parou de jorrar da minha garrafa.
- Fizeste bem em ser obediente Bartira. O Senhor se alegrou e abençoou a tua fé. Agora vende o azeite, e com o dinheiro dessa venda, paga a tua dívida e vive tu e os teus filhos do resto.
E assim fiz, vendi o azeite, saldei a minha divida e sigo vivendo do restante.
A emoção que senti naquele momento foi tanta que só através das lágrimas a pude expressar. Era tanta a gratidão que brotava do meu coração…
Foram duras as provas pelas quais passei, naquela época atribulada.
Mas o Senhor tem os seus propósitos. Hoje sei porque motivo Ele permitiu que aqueles redemoinhos invadissem a minha vida.
Aqueles redemoinhos obrigaram-me a uma maior dependência de Deus, e isso reverteu em maturidade e crescimento espiritual.

A Deus toda a Glória!


Florbela Ribeiro A. S.
Agosto 2008

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