quarta-feira, 6 de agosto de 2008

LUTERO E A FÉ


LUTERO E A FÉ


Sola Fide Sola Gratia Sola Scriptura é a consagrada expressão que procura sintetizar o pensamento de Lutero ou, pelo menos, a motivação da sua acção no despoletar da Reforma quinhentista.


A uma análise mais atenta e em pormenor, verifica-se que esta expressão tem um elemento redutor, funcionando como denominador comum, funcionando como base em que se fundamenta todo o edifício reformador e, por conseguinte e arrastamento, toda a elaboração do pensamento e motivações de Lutero. Esse elemento é o primeiro membro da preposição – SOLA FIDE. Com efeito, no pensamento de Lutero, não se entende a gratia Dei sem a fides, nem a Scriptura nos surge como a Scriptura com a ausência da fides. A Scriptura como tal, só se realiza no Homem acompanhada e intercalada com a fides. A Scriptura, como outro dom de Deus, só se assume nos seus contornos e conteúdo se a fides, assumida ela também como dom de Deus, estiver sustentando a abertura do Homem à voz da revelação e da Palavra divinas.


Outrossim, a gratia – indispensável à sobrevivência espiritual do Homem, na sua relação com Deus – ainda que só entendida plenamente à luz da Escritura, deixa de ser gratia se ela não estiver e não for vinculada pela fé, deixa de ter sentido, deixa de ser apreendida e de produzir efeito, se a fides não estiver presente.


A fides funciona, assim, como uma chave descodificadora dos enigmas da Scriptura e da gratia. É a fides que nos permite situar-nos no mundo e na vida, é a fides que ao permitir ao Homem situar-se perante Deus lhe permite também situar-se em relação a si mesmo.


Posta a questão nestes termos, fácil é entender que todo o sistema religioso de Lutero, toda a teologia luterana deixa de fazer sentido sem a compreensão do que é a fides para o Reformador, pois toda a sua teologia gira em torno do conceito da fé.


O que é, então, a fides, qual o seu conteúdo e alcance? Quando surgiu em Lutero, elaborado, este conceito de fides? Qual o percurso sofrido pelo Reformador para atingir a sua ideia de fides?


Geralmente, associa-se a pregação das indulgências pelo Dominicano Tetzel ao grande gesto de Lutero de afixar as históricas 95 Teses nos portões da Igreja de Wittenberg. Noventa e cinco teses essas que traduzem e denunciam o percurso fideísta de Lutero.


Embora gestos contemporâneos, julgamos ser um juízo apressado afirmar-se que a pregação das indulgências é a causa da afixação das teses. Daí, pensarmos serem necessárias algumas rectificações a tal pressuposto.


Neste passo da exposição, sigamos o raciocínio de Lucien Febvre e recordemos os factos.


Com a idade de 24 anos, a 30 de Agosto de 1513, Alberto de Brandeburgo é eleito Arcebispo de Magdeburgo, tendo sido proposto, a 9 de Setembro desse mesmo ano, para administrador da diocese pelo cabido de Halberstadt, ou seja, para assumir também o bispado de Halberstadt. Não nos admire nem a idade nem a sobreposição de funções e cargos. Na época, tal situação não é escandalosa, pela normalidade de que se revestia. Mas no ano seguinte (a 9 de Janeiro de 1514), morre o Arcebispo de Mogúncia (Mayenz) e Alberto consegue obter a eleição para o cargo. Recordemos, entretanto, que o Arcebispo de Mogúncia fazia parte do Colégio Eleitoral Alemão, órgão de eleição do Imperador do Sacro-Império. A sempre necessária aprovação da Cúria Papal romana surge na segunda metade desse ano de 1514. Para tal o nóvel Arcebispo terá de pagar um tributo relativamente elevado à Santa Sé – qualquer coisa como 24.000 ducados. E é nesse quadro que tem lugar a preparação das indulgências. Com efeito, pela Bula de 1515, as indulgências começam a ser pregadas a partir de 1517. Após diversos arranjos circunstanciais , ficou estabelecido que, descontada a parte destinada ao Imperador Maximiliano, tanto o Papa como o Arcebispo Alberto receberiam cada um 50% da receita apurada. No fundo, negócio rendoso e proveitoso para todos os intervenientes. O Papa poderia financiar a reconstrução da Basílica de S. Pedro em Roma e Alberto poderia pagar a dívida que tinha em aberto para com o banqueiro Fugger, pelo empréstimo por este feito para financiar e custear todas as despesas com o processo de investidura do Arcebispo Alberto de Magdeburgo e de Mongúcia.


É justo que se queira saber em que consistia tal pregação. Deixemos Lucien Febvre falar uma vez mais.


Pregava-se a remissão plena dos pecados daqueles que, arrependidos, contribuíssem com uma oferta para a caixa das indulgências. Estas estavam tabeladas de acordo com a classe social e a fortuna pessoal de cada penitente.


Pregava-se a remissão plena dos pecados do Purgatório, através da aquisição de ofertas tarifadas.


Pregava-se o direito de escolher um confessor privado, com o poder de conceder ao penitente a indulgência plena dos seus pecados.


Mas, em pormenor, em que consistiam as indulgências? Vejamos o que diz Richard Stauffer a esse respeito:


A Igreja ensinava que a pena temporal devida pelos pecados já perdoados podia ser remida não só por meio de reparações, sacramentais ou não, mas também por meio da indulgência. Sem excluir a penitência, a Igreja considerava que recorrendo ao tesouro dos méritos constituídos pelas obras super-rogatórias dos santos, podia conceder a remissão de pena ao pecador perdoado. A partir de Sisto IV (1476), podiam-se comprar indulgências a favor das almas do Purgatório.


Por este passo, se vê que a venda das indulgências por Tetzel não infringia nenhuma norma da Igreja. Mas o ponto fundamental das indulgências é o facto de partirem do pressuposto de que o pecador tinha de sofrer algum tipo de pena, de castigo, pelo pecado cometido (e entretanto perdoado). Na prática, o que acontecia era que a culpa do pecado e o respectivo faltoso eram perdoados por Deus havendo, no entanto, necessidade de o pecador cumprir uma satisfação temporal aqui nesta vida ou além no Purgatório. Essa satisfação consistia numa peregrinação ou na realização de uma boa obra. O pecador, no entanto, podia ficar liberto do castigo temporal desse pecado, mediante a compra da indulgência. A indulgência era, pois, uma espécie de cheque passado sobre uma conta de boas obras excedentárias de Jesus Cristo ou dos santos a favor do pecador.


São estes documentos, pois, que Tetzel põe à venda em 1517. Diga-se de passagem que o Dominicano utilizava o que podemos considerar de elaborados métodos de “marketing” espiritual. Dele se diz ter afirmado que logo que a moeda da compra de uma indulgência tocar o fundo da caixa, uma alma é liberta do Purgatório...


Em jeito de comentário a esta doutrina da Igreja, podemos dizer que, ao fazer distinções subtis entre o efeito do pecado e o pecado em si mesmo, o Papado acaba por retirar valor ao sacrifício expiatório de Cristo, eliminando deste modo a própria segurança do crente. Este, no fundo, anseia pela segurança espiritual que esse mesmo sacrifício lhe confere e daí agarrar-se à tábua de salvação prefigurada nas indulgências. Não nos esqueçamos também que estamos em época que sofre os efeitos de toda uma angústia espiritual colectiva, o que explica sobremaneira a aceitação tão imediata da pregação das indulgências.


Angústia essa bem patente no conceito do Dies Irae, momento em que o Homem estará completamente só perante o Deus justo e castigador. Nem santos, nem Virgem para o ajudar. Daí o consolo e a ajuda que a doutrina luterana da justificação pela fé vem representar para tantas almas angustiadas.


A 31 de Outubro de 1517 – data célebre e de todos conhecida – Lutero afixa as suas 95 Teses. Daí pensar-se que a pregação de Tetzel vem precipitar os acontecimentos, forçando ou provocando Lutero a uma resposta. Emotiva de preferência. Nada de mais errado, quanto a nós. É errado também admitir ser a pregação de Tetzel o que leva Lutero a não partilhar a doutrina tradicional da Igreja da época.


Tomemos em consideração alguns pequenos detalhes.


Lutero afixa as teses não a 31 de Outubro mas na véspera do Dia de Todos os Santos! Data importante por ser nesse dia – 1 de Novembro – que, todos os anos, os devotos peregrinavam em multidão, rumo a Wittenberg, em busca do almejado perdão. Momento alto de piedade e de negócio também. Frederico-o-Sábio, senhor de Wittenberg, acumulara na igreja do castelo cerca de 17.500 relíquias diversas, cuja veneração garantia 128.000 anos de indulgências. Ora, já nessa altura, Lutero desaprovava não só essa veneração como também o privilégio concedido a esta igreja de distribuir as indulgências da porciúncula (isto é, da pena e da culpa). Precisamente em cada festividade de Todos os Santos!...


Por outro lado, verificamos que havia pelo menos um ano, já Lutero defendia em público, o teor das suas 95 Teses. Com efeito, a 31 de Outubro de 1516, encontramos o Frade agostinho a pregar um sermão sobre as indulgências...


Ainda em 1516, no mês de Setembro, escreve e discute as teses de viribus et voluntate dominis sine gratia. Título por si só suficientemente elucidativo.


Finalmente, a 4 de Setembro de 1517, envia a um irmão agostinho, de nome Gunther, não as 95 mas as 97 teses, em muito idênticas às 95 do mês seguinte.


Não é assim escandaloso admitir que Lutero terá “ignorado” Tetzel, já que todos os dados indicam que, mesmo sem Tetzel, as 95 Teses teriam visto a luz do dia. A pregação do Dominicano terá funcionado como pretexto ou como ocasião mas nunca como o elemento que leva Lutero a sintetizar o seu pensamento, nunca como uma reacção emotiva e extemporânea perante um flagrante escândalo.


As 95 Teses não são fruto de um trabalho de momento, não são uma resposta emotiva e momentânea, fruto de uma não-reflexão. Não! 31 de Outubro é um bom marco na História da Humanidade porque representa e apresenta um Lutero já luterano, um Lutero que emite uma opinião ponderada e reflectida. As 95 Teses são o culminar de toda uma elaboração anterior e que reflectem bem a sua descoberta, anos antes, da doutrina revolucionária e libertadora da justificação pela fé.


Ao contrário de outros documentos, em que a emotividade de Lutero está bem patente, estas Teses não revelam um Lutero colérico ou emocionado. São antes um apelo calmo e sossegado de uma alma turbulenta e atribulada finalmente em paz consigo e com o seu Deus. São um convite à análise e à discussão teológica de importantes e fundamentais de artigos de fé.


Qual o conteúdo das Teses? Vejamo-las em resumo:


1 – 4 - O Cristão faz penitência durante toda a sua vida.

5 – 7 - Só Deus pode perdoar pecados.

8 – 29 - No Purgatório, o Papa não tem direito de perdoar castigos pois com a morte do Homem, acaba para a Igreja a possibilidade de castigar ou livrar as almas.

30 – 40 - Trata das indulgências dos vivos.

41 – 51 - Compara as indulgências às boas obras.

52 – 80 - Compara a prédica das indulgências à prédica do Evangelho. O verdadeiro tesouro da Igreja é o Evangelho.

81 – 91 - Cita argumentos do povo contra as indulgências como, por exemplo, se o Papado tem poder para livrar certas almas do Purgatório, qual a razão de não acabar de vez com esse mesmo Purgatório?

92 – 95 - Contrasta a religião das indulgências com a própria religião: o Cristão não confia nas indulgências mas está disposto a seguir o seu Mestre.


Não se sabe a data exacta em que ocorreu a grande descoberta de Lutero: o princípio da fé e da justificação pela fé. Designada por alguns como experiência da Torre, tal experiência terá ocorrido entre 1512 e 1516. Até então, é um Lutero em luta consigo e com Deus que vamos encontrar. Um Lutero angustiado e lutando ferozmente pela sua salvação. Um Lutero para quem, a dada altura, o próprio nome de Deus lhe soa como odioso...


Influenciado pelos místicos, pela devotio moderna, por Guilherme de Occam, via Gabriel Viel e pela teologia medieval, Lutero encontrava-se num beco sem saída, numa luta desesperada e desesperante consigo mesmo. E porquê? Porque ao contrário de S. Agostinho, a teologia medieval defendia a ideia de que a vontade do Homem não estava completamente corrompida. Daí, ser-lhe possível, através das suas acções através das suas boas obras, atingir e merecer os favores da graça de Deus. Influenciado pelas posições occamistas, Lutero debate-se com contradições resultantes do choque entre as doutrinas occamistas e o que ele constatava na sua própria vida, pelos seus esforços das boas obras. Com efeito, Occam defendia que, sem a graça, o Homem pode evitar todos os pecados mortais, mediante os esforços das suas boas obras. Ora, Lutero, apesar de todos os seus esforços e tentativas, sentia-se longe e indigno de receber os favores da graça divina.


Há, pois, assim, um profundo conflito espiritual em Lutero que só vai terminar quando ele reinterpreta a uma nova luz a passagem de Romanos 1:17 : porque no Evangelho se descobre a justiça de Deus.


É, pois, esta grande descoberta de Lutero que está na base de toda a evolução posterior do seu pensamento e da sua teologia. É esta descoberta da fé que vai sustentar todas as suas posteriores posições. Retire-se-lhe a doutrina da fé e todo o seu sistema fica sem sustentáculo.


E em que consistia essa grande descoberta? Ouçamos as suas palavras:


A justiça de Deus é a justiça que Deus dá e pela qual o justo viverá se tem fé. O sentido de Romanos 1:17 é pois: o Evangelho manifesta a justiça de Deus, não a Sua justiça activa mas sim passiva, pelo meio do qual Deus, no Seu amor e misericórdia, pega em cada um de nós e nos torna justos, através da fé.


E a diferença entre Lutero e a teologia medieval no tocante à justificação pela fé está nisto:


Para os teólogos medievais, a justificação era entendida como um prémio atribuído por Deus aos méritos do crente esforçado em se apresentar como justo perante Deus, mediante as suas boas obras.


Para Lutero, ao contrário, o Homem, por mais esforços que faça é e permanecerá pecador, logo, indigno da presença de Deus. Só a graça e a misericórdia podem fazer que a justiça de Deus seja imputada ao pecador. Deus, por um acto de misericórdia, perdoa o pecador e considera-o como justo, por amor de Cristo. Ou, por outras palavras, Cristo interpõe-se entre Deus e o pecador e, agora, Deus não vê mais o pecador mas vê Cristo em seu lugar.


Atingir tal estatuto, tal posição só é possível por meio da fé, só é possível por meio de uma acção, de uma obra exterior ao próprio Homem. Daí, dizer-se que qualquer obre realizada pelo Homem, por muito boa ou melhor que seja não o vai levar a atingir esta posição de justificado. Dai dizer-se também que o único

meio de o pecador ser aceite por Deus ser por intermédio de Cristo que Se ofereceu ao Justo Juiz como sacrifício válido, vicário e suficiente por todos quantos são pecadores.


Há, então, um apelo ao abandono pessoal à graça de Deus, há um apelo a uma entrega pessoal aos desígnios de Deus, há um apelo ao abrir mão da vontade humana. O Homem é, assim, convidado a ceder a sua vontade à vontade de Deus. Porque só a partir do momento que o Homem pecador reconhece a sua incapacidade e impotência e se abandona pela fé na misericórdia divina, alcança o dom da justificação pela fé. Sim, porque – repitamo-lo e deixemo-lo bem claro – para Lutero, a justificação pela fé, a mais almejada e ansiada situação é e permanecerá sempre um dom, uma dádiva de Deus veiculada pela fé através dos exclusivos méritos do sacrifício expiatório e vicário de Cristo. Há, então, o que Lutero chama de Palavra (divina) de promessa, sustentáculo inamovível da fé. A fé toma essa Palavra por garantia e por certeza.


Agora, fácil se nos torna compreender que Lutero não podia aceitar a teologia das indulgências, muito menos o mercantilismo de Tetzel que terá horrorizado o Reformador, ao assumir e defender a não necessidade do arrependimento para a obtenção do perdão dos pecados, prémio prometido pelas indulgências. Com efeito, para Lutero, o arrependimento é essencial para a justificação fazer efeito ou melhor, para a justificação entrar na posse do pecador. A justificação está garantida, está aí, obtém-se pelo exercício da fé mas só se torna real e actuante a partir do momento em que o pecador se reconhece como tal, a partir do momento em que o pecador se arrepende do seu pecado.


Para Lutero, a fé não se identifica com os nossos esforços ou tentativas de criar em nós uma atitude de “pensamento positivo” que nos faculte coragem psicológica capaz de arrostar com as dificuldades da vida.


Lutero parte da magnifica definição de fé dada pelo autor da Epístola aos Hebreus capítulo 11 versículo 1: A fé é o firme fundamento (ou certeza) das coisas que se não vêem. E a partir deste ponto, elabora todo um extraordinário pensamento das virtualidades e potencialidades da fé.


A fé é, então, em primeiro lugar, um abandono pessoal à promessa de Deus e deixar que ela nos guie, é o abandono a uma palavra de promessa que funciona com o único garante de que o nosso abandono (que implica uma vida – a nossa) não é vão mas a única atitude correcta a tomar. É que essa dependência da Palavra é a única forma de criar uma relação directa entre Deus e o Homem, a única possibilidade de sentar à mesma mesa, sem intermediários, os dois grandes interlocutores e interessados neste grande drama cósmico que é a salvação do Homem.


Efectivamente, a forma mais correcta mais eficaz de o Homem ver o seu drama resolvido é colocar-se face a face perante Deu, é ambos os contendores apresentarem-se tal como são e acertarem entre si as contas pendentes.


E é aqui que se levanta o problema da justificação. Sendo pecador, o Homem não pode apresentar-se perante Deus. Há que ser justo. E a única forma de tal acontecer é erradicar de si todo e qualquer traço de injustiça, de pecado. É-lhe necessário um intermediário intrínseca e essencialmente justo, que lhe impute essa mesma justiça. Ora, o único que lhe fornece tal garantia é Cristo e a Sua justiça. Então, Cristo surge como aquele que leva Deus a imputar ao pecador a própria justiça divina já que Cristo, sendo justo, cumpriu também toda a justiça divina. Agora, embora ainda só perante Deus, o Homem paradoxalmente deixa de estar só. Por algum motivo – ainda segundo Lutero (e segundo a Escritura) – Cristo é chamado Emanuel, Deus connosco. E paradoxalmente porque, tendo de se apresentar só perante Deus, não vai na sua própria força ou condição mas sim como que revestido dos méritos de Cristo que aceita pela fé.


Esta posição leva a uma conclusão: a partir de agora, o Homem não necessita de intermediários sejam eles sacramentais sejam eles sacerdotais. O seu sacerdote passa a ser o Cristo e ele próprio. O Homem adquire a possibilidade de ser o seu sacerdote, na medida em que se pode apresentar perante Deus com a garantia do sacrifício de Cristo.


Há, então aqui, uma novidade libertadora na doutrina da justificação pela fé: é que ao pecador é imputada não a sua justiça mas a justiça de Cristo. Assim, Deus por um acto de misericórdia, perdoa-lhe o seu pecado e, por amor de Cristo, considera justo o pecador, considera-o digno de entrar na Sua presença. Daí que esta justiça atribuída não seja produto ou realização humana mas sim uma justiça estranha, alheia ao Homem, a justiça do próprio Cristo, do próprio Deus.


A justificação é, assim, como já dissemos, passiva e não activa. Tal justiça alheia exige do Homem um acto de fé, um acto de aceitação da Palavra de promessa divina, um acto de abandono. Isto leva a que, durante toda a sua vida – simul peccator, simul iustus – o Homem tenha de exercer e recorrer à fé, que o mesmo é dizer, tem de depender de Deus. Há, pois, a entrega da vontade própria e o reconhecimento de que a vontade do Homem, para produzir bons resultados, deve estar submetida e submissa à vontade da fonte do Bem Supremo. E tudo isto, repita-se, porque há uma Palavra divina de promessa, base e sustentáculo da fé.


Mas Lutero vai mais longe. É que para ele não basta aceitar a justificação em fé. É necessário ela ser aceite com fé. Não basta aceitar ou compreender a afirmação da base de apoio da justificação. Não basta um reconhecimento intelectual de que a doutrina funciona nestes termos. É necessário que o Homem, uma vez reconhecida a mecânica da doutrina, personalize em si mesmo essa mesma justificação. Cristo só Se torna minha justificação a partir do momento em que eu O personalize em mim, a partir do momento em que me aproprio d’Ele e O faço meu.


Tenho de aceitar que as coisas não só aconteceram “por causa de mim” mas também “para mim”. Ou, por outras palavras, a fé não é um conceito estático, passivo mas antes dinâmico e activo. Ela está sempre em movimento em acção.


A noção que Lutero tem de fé leva-o a fazer afirmações que surgem como revolucionárias ou mesmo como heréticas. E cito duas:


A fé cria a deidade em nós.

Aparentemente, é a negação do princípio bíblico da existência objectiva de Deus. Aparentemente, é o inverso da posição bíblica de que Deus criou o Homem à Sua imagem e semelhança. Aparentemente, é o reconhecimento de que o Homem cria Deus à semelhança humana. Só aparentemente, porém. Porque Lutero é um estrénuo defensor da objectividade de Deus, da existência de um Deus exterior e superior ao Homem. Mas Lutero defende também – vestígios da influência occamista – que este Deus é um Deus oculto mas que Se revela ao Homem. E o homem só tem consciência e conhecimento de que há um Deus porque Deus, de Sua livre e espontânea vontade, decidiu revelar-Se à criatura. E revela-Se fundamentalmente através da Palavra. Deus é um Deus que comunica e Se comunica. Mas este Deus majestoso e transcendente só Se realiza em cada um de nós pela fé. Então, sem a fé a Palavra, a Scriptura não é mais do que um conjunto de sons ou de pensamentos mas nela não está presente Deus. Sem a fé, não há lugar para Deus no coração do Homem. E onde Deus não está, ai não existe, porque se Lhe é negada a existência. Por isso, dizíamos no princípio que sem a fides, que sem a fé, tanto a Scriptura como a gratia não são nem podem ser entendidas.


Só através da fé Deus Se torna real em nós e podemos então entrar nas profundezas da Sua graça.


A outra frase na mesma linha da anterior, é:


Sem fé, perde a Sua justiça, a Sua riqueza e não tem majestade onde não há fé.

Efectivamente, se a fé, não a fé-esperança mas a fé-abandono-e-certeza-na-Palavra, se essa fé não estiver presente não é possível o Homem aperceber-se de todos os atributos da deidade, por lhe faltarem pontos de referência. O Homem poderá detectar e sentir até os efeitos desses atributos mas nunca os reconhecerá e atribuirá a Deus, porque não tem fé. É que a fé implica necessariamente o reconhecimento de Deus e só quando nos abandonamos à Sua Palavra, O reconhecemos actuante, em poder e majestade, na plena posse dos Seus atributos.


Há, assim, uma personalização da fé. A fé terá de ser um acto intrinsecamente pessoal. Ninguém pode crer por outro. Só eu, como indivíduo, é que tenho de me apropriar da fé. A relação entre Deus e o Homem constitui-se numa base individual e pessoal. Deus lida fundamentalmente com indivíduos, com pessoas.


Esta posição tem consequências tremendas na História da Humanidade. É não apenas e só um apelo ao individualismo mas o reerguer da dignidade humana. O Homem não mais necessita de intermediários humanos ou institucionais, o Homem não mais necessita da protecção alheia. É-lhe reconhecida maturidade suficiente para lidar faca a face com o transcendente. Temos também o reconhecimento implícito da liberdade humana, liberdade essa estendida ao quadro da fé.


Mas ao dizermos que a fé é sempre em referência à Palavra da promessa, ao que Lutero chama de theologia crucis, entendemos que a fé pode gerar situações de conflito quer com a nossa experiência pessoal, quer com a realidade circundante.


É que, para Lutero, a garantia do crente não está nas circunstâncias, na realidade circundante. A sua garantia é e permanece sempre a promessa da Palavra, a Palavra da promessa. É que, muitas vezes, a fé vai contra toda a expectativa, vai contra todos os dados tidos como adquiridos e garantidos, a fé vai contra a realidade que se nos apresenta, a fé vai contra os ditos “factos”. Só que a fé se move numa outra dimensão, numa dimensão que não a da razão a única que pode explicar os “factos”. É que a fé baseia-se na Palavra de um Deus que sabe o futuro desde o presente enquanto nós, seres humanos, nos movemos apenas no quadro do presente não vendo, assim, o futuro, não vendo, assim, o fim das dificuldades presentes.


Há, então, uma fé que não parte de uma experiência prévia mas sim de uma promessa que rompe o presente e penetra no futuro. Daí que a fé, a confiança tenha de ser incondicional. Daí que, mesmo em oposição, a fé deve permanecer porque, afinal, no meio das maiores tormentas, é a única bóia de salvação que resta. Mas uma bóia que não é apenas uma bóia, vogando ao sabor das correntes, vogando ao sabor das circunstâncias. Não! Essa bóia está ancorada e segura em algo em algo de inamovível – o próprio Deus.


E à medida que a fé é posta à prova, ele testa-se a si própria, ela vai passando de experiência em experiência e vai-se enriquecendo porque a fé acaba por ir enriquecendo a nossa própria experiência pessoal.


Esta posição tem uma relevância muito especial porque explica muitas atitudes que, de outro modo, ficariam sem resposta ou explicação.


É esta fé de Lutero que explica, por exemplo, o seu acto de afixação das 95 Teses. Embora na altura, o seu alvo não fosse a reforma da Igreja, Lutero prefere antes que se reformem as consciências individuais. E é com a exaltação da sua descoberta – a justificação pela fé – que Lutero acaba por dar testemunho de um homem que se entregara de corpo e alma à Palavra de Deus, a Quem entregara todas as suas limitações e fraquezas. Lutero avança, nessa ocasião, como em muitas outras, estribado não na sua força natural ou pessoal mas na força que lhe advém da confiança obtida pela sua fé em acção.


Analisando a Alemanha da época, com todos os condicionalismos políticos, económicos e religiosos, fácil é concluir que, como diz Lucien Febvre, em tal país, fazer cumprir a Reforma, era empresa condenada a priori. E era-o porque era necessário conciliar bastos interesses, muitos deles opostos.


Quer dizer, a experiência, a razão desaconselhava a utilização da Alemanha imperial quinhentista como palco de uma Reforma profunda na Igreja. Pela razão e pela experiência, a Alemanha nem sequer seria considerada como hipótese.


Mas aqui entra a fé. Contra toda a expectativa, contra todas as evidências, Lutero avança e despoleta a crise. E de acção em acção, de experiência em experiência, a fé de Lutero fortalece-se cada vez mais.


E não tenhamos dúvidas quanto a isso. O episódio de Worms é significativo e elucidativo.


Quando se põe a caminho de Worms, Lutero parte como para o martírio. O salvo conduto não é garantia suficiente de salvação. Recordemos João Huss! Aquando de Worms, Lutero havia sido já considerado de herético e os seus livros haviam sido condenados à fogueira. Mas conta toda a evidência (e aconselhamento), Lutero avança, em nome da fé. Foi esta fé, fundamentada na Palavra, que o movimentou, que o guiou. Foi esta fé fundamentada na Palavra que abriu à Europa novas e profundas perspectivas.


Mas a sua fé manifesta-se em outras ocasiões. Vejam-se os casos dos casamento dos monges, das freiras e dos padres e o caso da comunhão das duas espécies. Lutero não os havia considerado até então. Nunca se tinha debruçado sobre o assunto, em termos de mudança do estipulado pela Tradição ou pelo costume. Mas quando é solicitado a dar a sua opinião e posição, Lutero reflecte e vai procurar na fonte da sua fé – a Palavra – a resposta que todos buscam e exigem. Isto é, Lutero procura dar uma resposta de fé e não uma resposta da razão, da lógica. A preocupação de Lutero é procurar que todas as questões da vida do Homem sejam solucionadas no quadro da fé.


Porque, acima de tudo, Lutero preza que o homem cristão, o homem da justificação da fé, viva por essa mesma fé. O seu alvo não é conciliar a fé com as circunstâncias. O mais que se poderá dizer é que ele procurará concilias as circunstâncias com a fé. Ou, pelo menos, conceder ao homem de fé uma resposta que o ajude a enquadrar-se nas circunstâncias.


Isso explica a sua recusa em enquadrar a liberdade cristã, fruto do exercício da fé, com qualquer outro tipo de liberdade.


A liberdade cristã deve permanecer sempre como uma realização da fé e não como um arranjo circunstancial ou contemporização com ideias e movimentos que, ainda que com muito de apelo cristão, têm uma base que não a fé.


Daí o seu choque com o nacionalismo dos príncipes alemães e a sua recusa de identificação com Ulrich von Hutten.


Lembremo-nos que havia príncipes cavaleiros que viam em Lutero a personificação de um chefe espiritual das forças alemãs nacionalistas e que o queriam como tal. E vem-nos à lembrança outra recusa em tudo idêntica, a de Cristo, ao rejeitar qualquer identificação de Messias político, como pretendiam os Zelotas e outros nacionalistas hebreus de então.


Mas Lutero não está interessado em tal identificação. Como não está também interessado em outras identificações, como o socialismo campesino de Munzer, como o humanismo cristão de Erasmos.


É que nenhuma dessas liberdades é sinónimo de liberdade cristã.


Porque a liberdade cristã que Lutero defende é uma liberdade cujas raízes e fundamentos se encontram na Palavra da promessa, único garante do motor que deve fazer avançar o cristão – a fé.


Jorge Pinheiro

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