quinta-feira, 5 de junho de 2008

A FILHA DA CANANEIA


A FILHA DA CANANEIA

Saboreávamos os primeiros dias de Primavera.
Porém o calor intenso que se fez sentir durante todo o dia, forçou-nos a um recolhimento quase que obrigatório.
Não era habitual, viverem-se dias tão quentes durante a época primaveril.
Parecia estarmos em pleno Verão.
Mas o entardecer brindou-nos com uma brisa fresca, que nos convidou a um passeio até ao campo.
Depois de tantas horas fechada em casa, Ana abraçou com alegria aquele convite.
Deixei a minha pequena pomba voar feliz ao abrir-lhe as portas da gaiola.
O campo encontrava-se quase todo coberto por pequenos e delicados malmequeres brancos. Por entre eles, brotavam enormes papoilas vermelhas que, agitadas pelo vento, mais pareciam bailarinas. Ana enquadrava-se harmoniosamente na beleza daquele cenário natural.
Os longos cabelos negros brincavam ao sabor do vento, criando um perfeito contraste com a palidez do seu rosto. Estes dois elementos salientavam ainda mais a cor esmeralda do seu olhar…
- Como estás crescida e bonita minha filha. - Comentei eu ao observá-la.
Ana que já desfilava pelo tapete colorido ouvindo-me, voltou o seu olhar na minha direcção e ofertou-me um belo sorriso.
Era uma forma graciosa de manifestar o seu amor.
Sentei-me debaixo de uma enorme oliveira, enquanto Ana iniciava a colheita dos mais belos malmequeres. Era sempre assim. Após uma criteriosa e exaustiva selecção, Ana elaborava lindas grinaldas de malmequeres. Mais tarde, iria ofertá-las às suas melhoras amigas, ou seja, a todas as moças do povoado!
- Mãezinha – gritou Ana – há aqui muitos malmequeres, e são todos tão lindos!
- Está bem Ana, mas não os cortes todos – pedi-lhe eu entre risos – Por favor não me estragues a paisagem…
Ana sorriu ao mesmo tempo que me acenava que não com a cabeça.
Enquanto saboreava a brisa fresca daquele fim de tarde, abri a minha caixa de memórias e mergulhei num passado ainda recente.
Recuei ao tempo em que Ana se encontrava possuída por um espírito imundo.
Confesso que ainda não me é fácil recordar essa época, dado que foram tempos muito dolorosos para nós.
Os meus olhos negros brotavam constantemente um mar de lágrimas. Era o reflexo evidente de uma mãe em desespero.
A escuridão reinava na minha vida.
Apesar de bater a muitas portas, não encontrava nem saída nem respostas para o meu problema.
Ana, ou melhor, o demónio que nela habitava, transformava os nossos dias num verdadeiro tormento.
As janelas de Ana, sob sobrancelhas de um negro muito belo, reflectiam-me dois cenários. Quando o espírito imundo dormitava eu via nos seus olhos uma profunda tristeza. Quando desperto via a manifestação de uma profunda revolta.
As noites eram para nós um verdadeiro suplício…
Ana percorria toda a casa incansavelmente. Deitava tudo o que encontrava ao chão, e ao mesmo tempo lançava-me todo o tipo de escárnios jurando-me vingança.
A sua revolta, o seu ódio, a sua arrogância e toda a sua maldade eram lançadas principalmente contra mim. Ele bem sabia que eu procurava libertar a minha filha das suas garras.
Nas manhãs seguintes a este suplício, e a esta afronta directa, eu tinha como tarefa principal o limpar dos cacos. Os restos das louças e objectos decorativos que ele tinha quebrado.
A cada dia que passava eu tinha menos que limpar… a minha casa estava tão destruída quanto nós as duas, já pouco restava.
A minha vida era pautada sempre pela mesma sequência; limpar as lágrimas, apanhar os cacos e lavar o chão.
Depois ia vigiar Ana, estirada no chão do quarto, com o corpo coberto de hematomas.
Eram tantos, tantos que em alguns locais do corpo já não se vislumbrava a cor branca da sua pele.
Aquele ser vil, massacrava e torturava a minha filha, diante de mim, dos meus olhos, e eu nada podia fazer.
Era como ver Ana a cair lentamente por um precipício, e não conseguir salvá-la.
A sua vida escorria-me por entre os dedos como a água, que eu não consigo reter!
A minha dor e o meu desespero eram tão grandes que quase me sufocavam.
Mas um coração de mãe sofre, mas não desiste de lutar!
Uma mãe jamais baixa os braços pela sua cria. Uma mãe luta até à morte se preciso for!
Eu lutei e corri em direcção a muitos lugares.
Por ignorância e puro desespero, bati a muitas portas erradas.
Deus é conhecedor disso.
Mas não desanimei, nem desisti de lutar! Não!
Aquele demónio, aquele ser vil que entrara na vida de Ana e em minha casa, sem ser convidado, tinha que sair de forma clara e definitiva.
Após uma noite tenebrosa em que vi Ana, lançar-se inúmeras vezes contra os móveis e as paredes da casa, deixando gotas de sangue espargidas por todo o lado, eu cai no chão da minha cozinha e gritei em grande aflição e angústia.
Gritei alto e clamei ao Deus que ainda desconhecia.
Era Ele o meu último recurso, não tinha mais a quem recorrer. Não havia mais portas onde eu bater.
Lídia, a minha boa amiga e vizinha era conhecedora do sofrimento do meu dia-a-dia, e ouvindo-me, abeirou-se de mim e abraçou-me.
Soube-me tão bem a envolvência daquele abraço.
Eu encontrava-me naquele momento muita fraca e destruída das minhas esperanças. Havia muitas noites que não dormia…
Mas Lídia não se ficou só pelo abraço! Ela contou-me a notícia da vinda de Jesus o Nazareno a Tiro. Aquele de quem se dizia ser filho de um tal José, o carpinteiro.
-Sara, temos ouvido dos grandes milagres e das grandes maravilhas que ele tem feito – contava-me ela – vai ter com Jesus minha boa amiga.
- A minha Ana não aguenta muito mais tempo assim – solucei eu – o corpo dela esta manhã, encontra-se todo coberto de nódoas negras e há marcas de sangue por toda a casa. Ele não lhe dá sossego…
- Eu sei minha querida, eu ouvi tudo – disse-me ternamente Lídia entre carinhos e afagos – A tua Ana esta muito débil, por isso te digo, vai ter com o Mestre hoje, antes que seja tarde demais.
- Sabes tu quando ele chega? – Perguntei enquanto me assoava e tentava me recompor.
- Sim, será mais para o final da tarde. Consta na aldeia que vai para casa de um amigo seu. Talvez procure um pouco de sossego, mas estou certa que te atenderá.
- Eu irei sim. Por Ana eu irei sim… – confirmei-lhe.
Levantamo-nos e acertamos tudo com um olhar e um acenar de cabeça.
Lídia já me tinha falado muitas vezes de Deus, mas eu fora ensinada a crer somente no que meus olhos viam, as minhas mãos apalpavam ou os meus ouvidos ouviam.
Por isso o facto de não poder visualizar a Deus, não poder sentir o seu toque nem ouvi-lo impedia-me de aceitar as suas palavras.
A verdade é que Deus bateu a minha porta muitas e muitas vezes, mas eu nunca o atendi.
Chamou-me, mas eu não escutei a sua voz amorosa em tempo de paz.
Nessa manhã Ana despertou melancólica como era costume.
A noite tinha sido uma verdadeira tortura física e mental.
A sua magreza era evidente, os seus olhos vermelhos e marcados por profundas olheiras denotavam o horror daquela noite.
Mais uma noite de sofrimento se adicionava ao rol de tantas outras.
Coloquei o seu pequeno-almoço sobre a mesa para que se alimentasse, ele foi brutalmente disparado contra o armário da cozinha.
Não reagi… apanhei tudo do chão e limpei.
Preparei um novo pequeno-almoço e coloquei sobre a mesa.
Teve o mesmo destino do anterior.
Numa sequência de 7 vezes, foram quebrados 7 pratos.
Eu não tinha mais pratos para ele quebrar.
Calmamente olhei para Ana e disse:
- Minha querida, a mamã não tem mais pratos para te servir o pequeno-almoço.
Ana, ou seja ele, soltou uma sonora gargalhada
- Não te rias – disse a plenos pulmões. Zangada. – Não tarda muito para que nos deixes em paz, ouviste! – As minhas fiéis companheiras caíam-me pelas faces.
- Estás muito enganada, eu não sairei daqui nunca! – Ao ouvi-lo tremi dos pés à cabeça. A fúria que saia dos olhos de Ana, eram flechas que ele, o demónio, me cravava no peito.
Ele está a sentir-se ameaçado – pensei – não posso recuar agora.
- Ouviste o que eu te disse? – Gritou ele aos meus ouvidos – nunca sairei daqui, nunca. A tua filha pertence-me!
Ah como me doeu ouvir aquelas palavras.
Não era verdade o que ele dizia, eu não queria nem podia acreditar nelas, mas confesso que por momentos vacilei.
Estava fraca, tão fraca quanto Ana, só que as minhas mazelas eram interiores.
Não eram visíveis aos olhos do mundo, mas eram aos dele. Ele bem sabia o meu estado de fraqueza e aproveitou-se disso.
Passado algum tempo, recuperei o ânimo e calmamente disse-lhe:
- Veremos se é como dizes – naquele momento não queria provocá-lo, porque temia que ele procurasse vingar-se nela.
As horas tardavam. Ana andava inquieta, mais do que o habitual.
Aquele ser desprezível que invadira e arruinara a vida da minha filha pressentia que algo estava para acontecer. E estava!
Chegou finalmente a hora prevista da entrada do Mestre na cidade. Muitos vizinhos e conhecidos me acompanharam até lá. Cada qual com o seu motivo.
Alguns iam por mera curiosidade. Outros, assim como eu, iam porque necessitavam de ajuda.
Devido à grande multidão que me acompanhava eu receei que Jesus não me visse nem ouvisse. E sendo eu grega, não seria certamente alvo das suas atenções.
Durante aquele percurso, revi todos os momentos desde a entrada daquele espírito imundo no corpo de Ana… Quanto sofrimento ele causava a minha princesa.
As lágrimas que caíam incessantemente do meu rosto, lavavam a poeira do caminho.
Chegada ao destino, vi que uma grande multidão se ajuntara já a entrada da casa onde Jesus estava.
Como iria eu agora romper aquela barreira de gente e aproximar-me dele?
Um coração em aflição não hesita diante de nenhum obstáculo, mas vai a luta até conseguir fazer-se ouvir!
Assim fez o meu coração despedaçado de mãe. Reuni todas as forças que tinha e gritei bem alto o meu desespero.
Não me importei se iria dar escândalo ou azo a comentários. Nada disso. A vida da minha filha estava em jogo.
No desespero não há tempo para vergonhas … há determinação em acção!
Ao som da minha voz a barreira humana abriu caminho e quando vi Jesus diante de mim, todas as minhas forças se esvaíram e prostrei-me aos seus pés.
- Mestre, tende compaixão da minha filha. Um espírito imundo entrou na sua vida e mantém-na aprisionada em trevas. Suplico-vos tende misericórdia dela… – a minha voz saía por entre lágrimas e soluços.
Ali estava toda a minha esperança, a minha fé e a minha determinação.
Depositei aos pés de Jesus o meu coração desesperado.
Lembro-me perfeitamente do timbre da sua voz. Era firme, suave e meiga.
- Deixa primeiro saciar os filhos; porque não convém tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos – respondeu-me Jesus.
- Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas que caem dos filhinhos – declarei eu, enquanto me mantinha prostrada aos seus pés.
E o Senhor me declarou:
- Por essa palavra, vai, o demónio saiu da tua filha.
A multidão abriu a boca de espanto e admiração. Nunca tal se vira até aquele dia.
Analisando agora de longe as suas palavras, eu poderia tê-las interpretado como uma humilhação por ser grega, ou até uma má vontade em me atender.
Mas não era assim. Jesus estava sim a confirmar se na verdade eu estava convicta de que ele era a porta da verdadeira salvação.
Eu estava. Jesus sabia que eu estava, mas o povo que assistia a tudo não.
Era por isso necessário que eu provasse aquela multidão a minha fé nele.
- Obrigada… – foi a única palavra que o meu coração agradecido conseguiu pronunciar.
Não era preciso mais, Jesus bem sabia a dimensão da minha gratidão.
O olhar repleto de amor afastou-se e eu ergui-me finalmente do chão.
Senti-me renascer naquele momento.
O povo em grande euforia ia tecendo comentários ao que acabava de presenciar.
- Jesus expulsou um demónio sem que a endemoninhada estivesse presente – comentavam alguns.
– Um grande milagre se viu aqui hoje! – A voz do povo era unânime. Jesus acabava de fazer um prodígio maravilhoso.
Só que Jesus não fez um, mas sim dois prodígios maravilhosos.
Ana estava livre, e eu nascia de novo.
- Provaste não só a tua grande fé em Deus, mas também o teu grande amor por Ana – concluiu Lídia enquanto me lançava um abraço
- A minha Ana está livre, livre! Louvado seja Deus! – Eu chorava de alegria ao mesmo tempo que anunciava a libertação da minha filha.
Ansiosa por apertar a minha princesa nos braços, tornei a casa. Pelo caminho meditei na minha vida até ali…
- Quem sabe se eu tivesse dado ouvidos ao que me falavas, e não tivesse sido tão teimosa…
- Deus escreve direito por linhas tortas – respondeu-me Lídia – o passado só serve para dele tirarmos ensino, Sara. - Lídia estava certa.
Os meus olhos espirituais estavam agora abertos e no meu peito batia um novo coração. Um coração que me confirmava o milagre do resgate
- Eu sei Lídia, eu sei que a minha vida começa hoje.
- Mãezinha, mãezinha – Ana despertou-me das minhas recordações, ao ofertar-me um lindo ramo de malmequeres.
- Oh que lindos Ana. Obrigada… – disse emocionada.
- Está na hora de regressarmos a casa princesa… o sol já se está a despedir.
- Sim, mãezinha – concordou ela – já tenho aqui malmequeres suficientes para fazer as grinaldas.
Sorridentes e de mãos dadas, regressamos ao nosso ninho.
Com o meu olhar alagado da mais pura felicidade, declarei a Deus em silêncio as mais belas palavras de amor e gratidão…

Florbela Ribeiro A. S.

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