quinta-feira, 6 de março de 2008

Por um fio


POR UM FIO

Submersa num revolto mar de silêncios, permanecia a fatídica onda que a lançou naquela vida. Com os olhares do povo cravados nas costas, deslizava pelas ruas da cidade de Jericó com o rosto escondido por uma burka negra. Todos sabiam quem ela era, e principalmente o que fazia.
Durante muito tempo agonizou, pela facada traiçoeira do destino. Chorou amargamente a dor do infortúnio que arrombara a sua porta, lançando-a na lama juntamente com o nome do seu pai. Mas toda a família permanecia unida, sofrendo com ela e por ela.
Ao contrário da sua inocência, os laços do amor que os unia, mantinham-se intactos.
- Minha filha, que adianta passares o resto da tua vida aqui a chorar? Não foi já o leite derramado? – Sua mãe tentava, desesperadamente, faze-la reagir, ao mesmo tempo que lhe ocultava o coração desfeito pela dor.
A sua menina não morrera por um fio, tamanho fora o desgosto que se abatera sobre a sua alma.
Siza, sua mãe tinha razão. O mal já havia sido feito. Era agora a hora de levantar a cabeça e seguir em frente.
Para isso ela precisava de se despojar do passado, e entrega-lo nas mãos de Deus.
Resolveu então esperar pela justiça Divina, e afastou do seu coração o desejo de vingança.
A justiça de Deus poderia tardar, mas falhar nunca!
Essa certeza morava no seu peito e dava-lhe alento para seguir em frente.
Uma força impulsionadora, mas desconhecida não lhe permitia baixar os braços.
Os dados da vida estavam agora lançados.
Chegava a sua vez de jogar, e fazia-se necessário encontrar alternativas, para sair vitoriosa. Ela e toda a família, com ela!
E era precisamente isso que procurava nas saídas fugazes que fazia pela cidade. Alternativas em jeito de notícias!
Por debaixo do manto negro que a envolvia, os seus cinco sentidos estavam em alerta máxima, captando toda a informação possível e inimaginável.
Depois… bem depois necessitava gerir cada informação, e recolher dela o melhor proveito.
Mas a máscara da honra e da respeitabilidade que a sociedade hipocritamente colocava, obrigava Raabe a viver em 24 horas, duas realidades completamente antagónicas.
O dia cravava-lhe na carne o ódio de muitos e o desprezo de quase todos.
A noite trazia com ela a envolvência dos abraços amantes. Onde o amor de alguns, o carinho de outros e a admiração de quase todos, lhe davam coragem, para superar as dores da sua existência. Desenganem-se aqueles que pensam que a sua vida era fácil, porque não o era de todo! No seu coração cravado de cicatrizes, habitava ainda a inocência do amor, que a onda maldita não conseguiu matar. E essa inocência não coabitava pacificamente no seu corpo. Essa luta diária, essa repulsa que sentia por ela mesma causava-lhe imensas dores. Durante os 13 meses do ano, Raabe padecia.
Havia no entanto um factor curioso, uma ironia do destino…
Raabe, a prostituta da cidade de Jericó conhecia, com rigor, a grande maioria dos seus habitantes.
Afinal, todos os que se passeavam deleitosamente nos seus braços, eram subtilmente aliciados, a confessar-lhe as informações que possuíam e sabiam.
Fosse o que fosse, e sobre quem fosse.
Raabe era uma mulher inteligente, e apesar das agruras da vida, ela soube preservar a serenidade e a meiguice que a todos encantava.
A calmaria do seu olhar aliado à ternura da sua voz, apaziguava inúmeras vezes o génio que levavam ao entrar. Os seus amantes viam nela uma confidente e uma conselheira.
Ela sabia sempre quando deveria escutar ou falar.
Eram no entanto mais as vezes que ouvia atentamente do que se pronunciava. E isso agradava-lhes, e assim, com facilidade ganhou não só a confiança, mas também o seu respeito.
Obter informações era fácil para Raabe.
A ela todas as notícias interessavam, se não precisasse delas naquele momento, guardava-as para mais tarde.
- Eu não sei quando, mas eu sinto que um dia – confessou ela certa vez a sua mãe – vou saber algo que nos vai tirar a todos deste infortúnio.
- Eu sei minha filha, eu sei – assentiu a sua mãe, que apesar de não ter a mesma esperança, não quis apagar o brilho intenso que faiscava dos olhos da sua menina.
Para Siza, Raabe continuava a ser a menina alegre e inocente de outrora.
Era o seu coração de mãe que lho dizia e não se enganava.
Corria já pela cidade a notícias de um povo protegido por um Deus capaz de grandes maravilhas. As chefias do povo comentavam isto em surdina, mas era visível que tais novas não agoiravam nada de bom.
E apesar dos cuidados tomados, as novas espalhavam-se com a mesma facilidade que a poeira se erguia dos caminhos, causando um pasmo generalizado.
Raabe escuta e guardava em si estas informações.
O general Aczibe visitava Raabe com relativa frequência. Era um homem por natureza alegre, bem disposto e muito optimista.
Raabe sempre o recebia com agrado. Os serões na companhia do general eram sempre agradáveis. Mas o que realmente a fascinava, era a frescura das novidades que ele lhe levava. Naquele dia porém o general estava diferente. A sua expressão estava demasiado carregada. Era a primeira vez que Raabe o via de semblante caído.
Mas ela sabia o que o estava a preocupar. Tinha ouvido rumores na cidade naquela tarde.
- Que Deus será este, capaz de abrir as águas do Mar Vermelho diante do seu povo, após tê-lo liberto da opressão de Faraó? – Perguntou-lhe ela para quebrar o silêncio que se instalara no quarto.
- Não sei Raabe mas é certamente um Deus muito poderoso. Hoje soubemos que o Rei Ogue e o Rei Siom caíram nas suas mãos.
- Não?! – Exclamou ela com o rosto assombrado.
- Foram totalmente destruídos – confirmou o general – Que povo é esse afinal? Até há pouco tempo eram apenas escravos do Egipto, e agora…
- Deve ser um povo eleito, para ter um Deus que peleja por eles – atreveu-se Raabe a dizer.
- O Capitão já mandou reforçar a vigilância envolta dos muros de toda a cidade. A informação que temos é que eles se dirigem para cá!
Raabe escutava atenta.
- Aconselho-te a teres cuidado Raabe, morando tu sobre o muro da cidade, é natural que sejas visitada. Não abras pois a porta a nenhum estrangeiro. Se o fizeres pões em risco não só a tua vida mas a de toda a tua família – ordenou-lhe Aczibe.
- Não fiqueis inquieto meu general. Farei tudo como me ordenais – disse Raabe de forma terna mas submissa.
Ele tinha por ela um extremo carinho e dadas as notícias, estava visivelmente preocupado com a sua segurança. Viviam-se na cidade momentos de grande tensão.
No entanto a sensibilidade de Raabe interceptava outra informação.
Os seus cinco sentidos captavam o prenúncio de que algo estava para acontecer.

Algo de bom, muito bom. O oposto do que o general lhe dizia.
No peito, o coração de Raabe ardia com intensidade.
Por tudo isso permaneceu em silêncio.
Pouco tempo depois do general sair, bateram-lhe à porta. Era já tarde, o que fez com que Raabe hesitasse em abrir.
- Pode ser novamente o general – Pensou ela em voz alta enquanto se dirigia para a entrada – talvez se tenha esquecido de algo.
Mas não era o general Aczibe.
Eram dois mancebos e pela fisionomia rapidamente constatou que eram estrangeiros.
Raabe nunca os tinha visto na cidade. Mas havia algo nos seus semblantes que lhe inspirou confiança. O olhar deles era franco e honesto. Não vinham à procura dos seus serviços, quanto a isso estava segura.
Sem pronunciarem uma só palavra, entraram na casa da Raabe, a meretriz.
Subitamente lembrou-se das palavras do general.
- Serão estes mancebos os espias de que Aczibe falara? – Pensou.
Eram-no de facto. Aqueles dois mancebos eram espias do povo israelita, do povo de quem tanto se falava ultimamente na cidade.
O povo elegido por Deus e pelo qual Ele pelejava.
Aquele calor que lhe ardia no seu peito permanecia, transmitindo-lhe uma sensação de bem-estar, para a qual ela não tinha explicação.
Sabendo ela que a segurança em volta dos muros da cidade tinha sido reforçada, previu que a chegada destes dois homens não tivesse passado despercebida. E estava certa.
Encaminhou-os de seguida para o telhado, alinhou as canas de linho e ali os escondeu.
Novamente bateram à porta. Era agora um emissário do Rei que se fazia acompanhar por vários soldados.
- Ao Rei chegaram notícias que recebeste em tua casa dois homens. Fá-los sair de imediato porque vieram aqui com a missão de espiar toda a terra – falou o emissário.
- É verdade que vieram a mim dois homens, mas eu não sabia de onde eram. Porém ainda pelo escuro se foram. Ide após deles depressa, porque vós os alcançareis!
Sem perderem tempo, afastaram-se dali velozmente, iniciando as buscas.
Raabe fechou a porta e respirou de alívio. Fora convincente. Contudo manteve-se atenta aos movimentos da rua, certificando-se que tinham realmente partido.
Sentia-se um pouco ansiosa. Antes que os dois homens adormecessem, subiu ao telhado para lhes falar.
- Sabeis vós porque motivo estamos aqui? – Antes que ela fizesse alguma pergunta, disparou-lhe um dos mancebos.
Ela acenou afirmativamente.
- Perdoai-me por interromper o vosso descanso – disse – Bem sei que o Senhor vos deu esta terra, e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra se derretem diante de vós. Temos ouvido que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho, quando saíste do Egipto. Também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Siom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes totalmente.
- Estais bem informada – disse um deles.
- Sim, é verdade. Quando a notícia chegou a Jericó, os nossos corações se derreteram, e em ninguém mais há animo algum, por causa da vossa presença; porque o Senhor vosso Deus é Deus em cima no céu e em baixo na terra.
- É verdade mulher. Credes vós num Deus assim? – A pergunta foi directa e frontal.
- Creio sim, de todo o meu coração – respondeu Raabe visivelmente emocionada – agora pois, jurai-me, peço-vos pelo Senhor, pois que vos fiz beneficência, que vós também fareis beneficência à casa de meu pai.
- Dai-me pois um sinal certo, de que dareis a vida de meus pais e irmãos, com tudo o que têm, e de que livrareis as nossas vidas da morte.
Eles então responderam-lhe:
- Seja como dizes. A nossa vida responderá pela vossa, se não denunciardes este nosso negócio. E quando o Senhor nos entregar esta terra, usaremos para contigo de bondade e fidelidade.
O olhar de Raabe ganhou um novo brilho, quando ouviu estas palavras.
Pela primeira vez o facto de ser meretriz não trouxe impedimentos.
Aproximava-se então o raiar de um novo dia.
Por precaução, fê-los descer pela janela, usando uma corda e recomendou-lhes que se escondessem por três dias no monte. Aí deveriam aguardar que os perseguidores desistissem da busca. Passado esse tempo, eles poderiam seguir o seu caminho.
Eles assentiram, mas antes disseram-lhe:
- Eis que quando nós entrarmos na terra, atarás este cordão de fio escarlata à janela pela qual nos fazes descer. Recolherás em tua casa, teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a família de teu pai. Se assim não fizeres, nós seremos inocentes no tocante a este juramento, que nos fizeste jurar.
- Conforme as vossas palavras, assim seja – respondeu Raabe.
Despediu-se deles e atou o cordão de escarlata à janela.
O dia começava a despontar no horizonte e Raabe sentia-se exausta mas ao mesmo tempo feliz. Sem levar o corpo ao descanso, apressou-se em ir à casa do seu pai. Tinha que ser ligeira e levar as boas novas. Havia muitas coisas para tratar e o tempo escasseava. A notícia foi recebida por toda a família com assombro, pois o caso não era para menos.
Como seria possível, precisamente na hora em que sobre a cidade de Jericó pairava a ameaça de uma guerra, eles receberem libertação?
Humanamente era difícil acreditar, mas Raabe recordou-lhes as maravilhas que antes ouviram. A forma como Deus tinha resgatado o povo israelita do Egipto, não deixava dúvidas. Após se recomporem do choque que a notícia lhes causou, partiram, refugiando-se em casa de Raabe.
Nos olhares expectantes, pairava a ansiedade. Viviam uma mistura de sentimentos inigualáveis. Os seus corações estavam inundados da mais pura felicidade pela graça que Deus lhes concedia, mas… E os amigos e vizinhos por quem nutriam tanta estima? O que lhes iria suceder? Os mesmos corações choravam por eles.
Depositaram toda a fé no Deus de Israel, e pacientemente aguardaram pela libertação.
Eis que de repente se ouviu na cidade um tremendo estrondo. Tudo estremeceu. O muro de Jericó acabara de ruir e uma onda destruidora varria agora a cidade. A aflição dos moradores, era sentida com profundo pesar dentro da casa de Raabe.
De súbito alguém gritou:
- Raabe, abre, somos nós, os mancebos que recebeste naquela noite – o pedido em forma de grito era urgente.
Apressadamente abriu-lhes a porta e toda a gente da casa foi levada para o exterior da cidade juntamente com os seus pertences. Durante a marcha da retirada puderam ver que o cenário de guerra acampara ali. Raabe fechou os olhos por mais que uma vez, tal era a dimensão do sofrimento que via! Por fim, a noite abateu-se sobre o que fora a cidade de Jericó. No céu, a Lua Cheia querendo ser testemunha fiel do sucedido, brilhava com intensidade sobre os escombros. Do alto do monte os rostos banhados por lágrimas observavam o fumo que subia de Jericó. A cidade estava irreconhecível.
- Por um fio te livrou o Senhor duas vezes – disse Siza enquanto envolvia com ternura Raabe num abraço.
- A justiça de Deus pode tardar minha mãe, mas falhar nunca! -
Na envolvência daquele gesto de amor, e por entre lágrimas e soluços renascia agora uma nova mulher.

Florbela Ribeiro A. S.

Sem comentários:

Enviar um comentário