quinta-feira, 13 de março de 2008

A escrava egípcia


A escrava egípcia

Eu sei que não devia ter agido daquela forma.
Sei que falhei.
Mas eu estava farta. Farta e cansada de ser olhada por todos como uma mera serviçal.
- É somente uma escrava, coitada – eu ficava tão arreliada quando ouvia este comentário…
Esqueceram-se todos de que sob a aparência da escrava egípcia, estava a mulher.
Uma mulher que vive, que sente e que sonha…
Obviamente que sendo eu mulher e escrava não tinha direito a quaisquer regalias. E sonhar estava fora de questão.
Tenho plena consciência do meu papel de mulher na sociedade. Enganam-se aqueles que pensam o contrário. Todas as mulheres devem primeiramente obediência e submissão ao poder paternal e posteriormente ao marido. Mas uma mulher que é escrava e estrangeira deve obediência e submissão a todo o mundo.
Nasci predestinada a servir. Foi unicamente para isso que a minha mãe me gerou.
Ainda assim e apesar de não gostar da minha condição de escrava, fui dedicada à minha senhora, dispondo-me a fazer-lhe todas as vontades.
Com o decorrer dos anos ganhei-lhe afeição e agradava-me até surpreende-la. Encantava-me ver o seu sorriso quando de surpresa lhe confeccionava o seu prato favorito, ou lhe levava “olesh” pela manhã! A sua flor preferida.
O meu salário era o seu sorriso. Esta pequena manifestação de gratidão adoçava-me vida.
Mas com o passar dos anos, o meu salário cessou.
A tristeza fez morada no semblante dos meus senhores.
Tardava em chegar a promessa que Deus fizera a Abrão. Sua esposa Sarai envelhecia e o seu ventre não gerava vida.
Cansada então de esperar, resolveu ela por si mesma dar a Abrão o filho que ele tanto ansiava.
Deu entrada então uma nova Primavera. Entrou envolta num manto colorido e perfumado pelas mais doces fragrâncias. Os campos que circundavam o acampamento pareciam imensas tapeçarias bordadas com mil cores. Na beleza daquele tema floral, destacava-se o “olesh”.
Levantei-me pela manhã mais cedo do que o habitual. Como o jardim dos meus senhores permanecia árido, presenteei-os com uma nova decoração.
No intuito de os alegrar, levei a Primavera para dentro de portas.
Mas Sarai nem sorriu, não reparou.
Despertou naquele dia com um ar profundamente abatido. Parecia ter passado a noite em claro.
E a avaliar pela ordem que me deu, verifiquei que estava certa. Na tentativa de arranjar uma solução, Sarai tinha tomado uma decisão. Uma decisão que não era nada fácil.
Resolvida a não esperar mais pelo cumprimento da promessa, ordenou-me que nessa mesma noite me entregasse a meu senhor Abrão.
Confesso que fiquei tão estupefacta com aquela ordem, que deixei cair por terra o jarro que transportava nas mãos. Fiquei atónita.
Mas depois de reflectir um pouco, entendi as suas razões. A verdade é que a incredulidade de Sarai fazia sentido.
Abrão tinha agora 85 anos. E Sarai não sendo muito mais nova, tinha uma agravante. A madre, a madre estava fechada e havia muito tempo que as suas regras lhe tinham cessado.
À Sarai levaram-lhe os anos a força da sua juventude e os ventos arrancaram-lhe do coração a esperança de ser mãe.
Seria então eu a progenitora da descendência de Abrão.
Eu? A mãe do grande povo de Israel? Era inacreditável!
Analisei a situação friamente, e devo confessar que após reflectir bem sobre assunto, a ideia não me desagradou totalmente. Não me aliciava nada a ideia de ser entregue a Abrão, mas…
Era a minha oportunidade.
Finalmente iria deixar de ser olhada como uma mera serviçal.
E sem pestanejar, dei largas aos meus sonhos… e voei!
Não tardei muito em fazer a vontade aos meus senhores. De início Sarai ficou radiante e passou a tratar-me como a uma filha… a filha que nunca teve e tanto ansiava.
A realidade é que comecei a sentir-me mesmo assim, uma filha. Mas não tardou muito a tudo se alterar. Com o passar dos meses a minha barriga ganhava volume e o entusiasmo de Abrão também.
Alterou-se o brilho no olhar de Sarai.
A calma e a doçura que tanto a caracterizavam, desapareceram.
Irritava-se com a maior das facilidades, e nada mais parecia agradar-lhe.
E como se isso não bastasse, começou a impor-me restrições completamente absurdas. A primeira delas foi a exigência de me não apresentar quando meu senhor Abrão estivesse por perto.
Este exagero da sua parte, veio confirmar as suspeitas do povo. Sarai estava deveras enciumada com as atenções que seu esposo me dispensava.
O ciúme instalou-se no seu coração, e provocou um clima de tensão generalizado em todo o acampamento.
Ela não via que os seus ciúmes eram infundados. Eu não pretendia roubar-lhe o amor de Abrão, seria inútil fazê-lo, eu bem sabia o quanto eles se amavam. Eu só pretendia um pouco de prestígio, só isso, nada mais. Mas os ciúmes cegaram-lhe o entendimento.
As suas atitudes causaram-me uma imensa revolta. Ela só pensava nela e isso não era justo. Mais uma vez eu desempenhava o papel de uma mera serviçal, eu era apenas um utensílio, o transporte de um filho.
No meu ventre crescia o primogénito de Abrão, e no meu coração a revolta.
Houve mudança na fase lunar. Era o anúncio da chegada de Ismael.
Era saudável e muito lindo o meu menino…
Naturalmente que sendo criado por duas mães zelosas e sendo Abrão um pai extremoso, Ismael tornou-se uma criança mimada e insolente.
Gostava de receber todas as atenções e de ser elogiado em tudo o que fazia.
Abrão sempre lhe dizia:
- Ismael meu filho, deves dar graças a Deus pela força e sabedoria que Ele te dá. – Mas logo ele o contrariava dizendo:
- Fui eu que me esforcei, e treinei durante horas. Não tenho pois que agradecer a ninguém…
Estas palavras magoavam o coração do seu pai, e confesso que nem eu gostava de as ouvir.
Cedo me apercebi que a revolta que em mim germinava, durante os meses de gestação foram absorvidos por Ismael.
Fazia agora parte do seu carácter e quanto mais o repreendíamos, mais ele se rebelava.
Pouco tempo depois dele fazer 14 anos, Sara concebeu. A promessa de Deus chegava finalmente.
A notícia correu veloz e foi motivo de júbilo e de riso no acampamento.
Numa mulher da sua idade o acto de dar a luz, era algo sobrenatural.
Somente o Deus de Abraão poderia fazer tamanho milagre. E fez!
Ao contrário de todos, não me alegrei nada com a notícia.
Após o nascimento Ismael, voltei a ser tratada como serva e a executar as minhas tarefas de sempre. Além disso a chegada desta criança, iria desviar as atenções do meu filho. Sara era a esposa legítima de Abraão, como tal o seu filho iria com toda a certeza ser o seu preferido.
Dizia-mo a minha intuição, e estava certa.
Esperou Abraão 100 anos para ver o rosto cândido daquela pequenina criatura. No seu semblante transparecia a doçura de Sara e a quietude de Abraão. Era impossível não ama-lo logo na primeira mirada.
O contraste entre ambos os irmãos saltava aos olhos do acampamento.
De um lado a candura, do outro a arrogância.
Piorando a situação, e apercebendo-se Ismael que as atenções de Abraão se centralizavam em Isaque, começou a humilhá-lo.
Implicava com ele constantemente, fazendo-lhe as maiores travessuras.
Eu não concordava com os suas atitudes, mas acabei tornando-me conivente, dado que nem sempre o repreendia. Só o fazia quando Sara ou Abraão estavam presentes.
Eu não gostava de Isaque. O meu Ismael era o primogénito de Abraão e ninguém parecia lembrar-se mais disso.
Claro que a criança era adorável e não tinha culpa, mas veio desviar as atenções, e tirar a herança que só ao meu filho pertenciam. Apesar de não me agradar, era eu quem tinha que tomar conta do pequeno todos os dias. Já não me bastavam as tarefas normais, e cuidar do meu filho. Tinha agora que andar também a correr atrás do filho de Sara.
Um dia porém as coisas alteraram-se.
Inadvertidamente condicionei o meu futuro e o de Ismael.
Lavava eu umas peças de roupa junto ao rio Jordão, quando o pequeno Isaque se meteu na água. De início chamei por ele, alertando-o do perigo mas depois… calei-me.
Confesso que não sei o que me deu, nem o que me passou pela cabeça para agir tão erradamente. Apesar de não gostar do menino não o odiava, nem lhe desejava nenhum mal, mas naquele momento, só pensei em Ismael.
Se Isaque não existisse tudo seria diferente…
Abstraí-me por completo com aqueles pensamentos. Enquanto isso, o menino entrava mais pelo rio a dentro, até que começou a perder pé. Sara surpreendeu-me naquele instante com a sua presença.
- Isaque, Isaque – gritou ela enquanto o resgatava.
De súbito, tentei arranjar uma desculpa. Mas o que podia eu inventar?
Foi tudo muito óbvio para Sara. Ela teve a confirmação, de que eu não nutria nenhum afecto, por aquela criança.
E sabia bem a razão desse desamor.
Depois de todas as tropelias que Ismael fez com Isaque e daquele meu acto irreflectido, o meu destino ficou marcado.
Sara foi contar tudo a Abraão. E eu fui de imediato chamada à presença de ambos.
Na mesma hora os meus serviços foram dispensados.
Como castigo, seria expulsa do acampamento juntamente com o meu filho.
Não podia ser!
Chorei amargamente ao ouvir aquela sentença… eu estava arrependida. Deus sabe que sim. Não foi minha intenção fazer mal a Isaque, não sei o que me passou pela mente. Tentei explicar-lhes isso, consciente de que tinha de pagar um alto preço pelo meu erro. Supliquei-lhes não por mim, mas por Ismael. O meu filho estava inocente.
- Meu senhor, tende compaixão de Ismael, ele é apenas uma criança, e é vosso filho – gritei eu desesperada enquanto me prostrava em prantos aos seus pés.
- Lançai-me só a mim fora do acampamento. Por favor, rogo-vos!
- Ismael é portador dos mesmos sentimentos malignos que tu. O vosso coração está cheio de ódio e rancor por Isaque. Não podeis ficar nem mais um dia no acampamento – decretou-me severamente Abraão.
- Parti e levai convosco um pedaço de pão e um odre de água – ordenou-me friamente.
Aquela posição do meu senhor deixou a minha alma profundamente amargurada. Como sobreviveria eu e o meu filho em pleno deserto apenas com um pedaço de pão e um odre de água?
Com o olhar completamente nublado, fitei-os pela última vez. Não encontrei neles a bondade que os caracterizava. Retirei-me dali com profundo pesar…
Eu que queria apenas ser olhada como uma mulher que vive, que sente e que sonha, acabava agora de ser escorraçada como um animal peçonhento. Tanto eu, como o meu filho Ismael saíamos de Canaã sem nenhum prestígio.
Mas uma dor maior que aquela aguardava-me no deserto de Bersabéia.
Durante a caminhada Ismael reclamou contra seu pai Abraão, por nos ter expulso do acampamento. Tentei sem sucesso fazê-lo entender que a culpa era somente minha.
Eu tinha sido irresponsável, e a minha atitude irreflectida poderia ter causado a morte do pequeno Isaque. Foi isso que nos conduziu aquela situação. Mas o meu filho não me ouviu.
Acabou entretanto o pão e a água, e Ismael começou a desfalecer.
Que injustiça meu Deus! Tudo por minha culpa.
Eu olhava agora para um jovenzinho inanimado.
O brilho dos seus olhos apagava-se, a bravura dos seus gestos esvaía-se e dos seus lábios secos e gretados, quase não saía som.
O meu Ismael morria pouco a pouco na minha frente.
Uma sensação horrível de impotência apoderou-se do o meu coração de mãe.
Não tive coragem para vê-lo morrer.
Com o coração totalmente desfeito, rastejei pelas areias escaldantes do deserto de Bersabéia e afastei-me fisicamente dele. Eu, a serva egípcia de Sara, e concubina de Abraão, morri no momento da expulsão do acampamento. Mas era naquele areal escaldante que os nossos corpos ficariam, mortos sem sepultura.
Prostrada, atormentada e no limiar das minhas forças, clamei ao Deus de Abraão.
Só Ele poderia salvar-me. A mim e a meu filho.
Contudo, Deus foi misericordioso e compadeceu-se desta mulher miserável. Enviou até mim um anjo que me abriu os olhos, e me fez ver um poço com águas frescas.
Oh que bênção tremenda… Desatei a rir e a chorar ao mesmo tempo como se tivesse enlouquecido. Um poço no meio do deserto!
- Que Deus maravilhoso é o meu Deus! – Exclamei jubilosa
Ergui-me do solo num impulso, enchi o odre, e corri até Ismael para lhe dar a beber daquela água.
Aos poucos começou a recobrar os sentidos e voltou a ele.
Mas Senhor na sua infinita graça e misericórdia tinha algo mais para nós.
O Deus de Abraão e de Isaque deu-nos a promessa que de Ismael sairia uma nação numerosa.
Nessa hora saiu de cima de mim o peso da revolta, desapareceu também o azedume do meu coração.
Era agora uma mulher duplamente livre, porque tinha nascido de novo.
Ismael seria para sempre chamado o pai de uma nação valente.
Acalentando um novo sentimento no meu peito, dei largas aos meus sonhos e voei nas promessas do Deus de Israel!

Florbela Ribeiro A. S.

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