segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A Luz


A Luz

Invadida por pensamentos irrequietos, Zahira varria a pequena divisão da casa com o olhar.
As suas economias tinham desaparecido de uma forma misteriosa e imprevisível.
- Ainda há pouco estava aqui – dizia enquanto revirava uma vez mais o local, onde supostamente deveriam estar dez moedas. Mas o que contava e recontava, ficava aritmeticamente nos nove.
- Onde estás tu, minha pequenina? – Perguntava com doçura.
Quem não soubesse do sucedido, e a ouvisse, diria que Zahira brincava às escondidas com uma criança.
Aquela dracma representava para ela algo muito precioso, disso não restavam dúvidas.
O seu tesouro era composto por dez dracmas…era, porque lhe faltava agora uma.
Visivelmente preocupada, mas com prontidão, deu início aos trabalhos de busca.
- Primeiro, preciso de luz para alumiar cada recanto da casa, depois vou varrer o chão com muito cuidado retirando assim a sujidade – dizia ela ao mesmo tempo que dava andamento aos seus pensamentos.
- Sei que com boa luz, te vou encontrar mais rapidamente… – a ternura da sua voz era tanta que parecia que a pequena dracma a escutava.
No seu semblante não havia temor ou desespero, mas sim determinação e empenho. Era quase palpável a força que emanava da coragem.
O desalento não habitava ali.
Começou as buscas ao mesmo tempo que trauteava uma pequena canção.
Habitualmente a música ajudava-a na concentração e no desempenho metódico das tarefas. E aquela situação exigia o máximo dela.
Sem luz, não havia, no entanto, esperança para o reencontro, e ela sabia disso. Acendeu primeiramente a candeia, para ter a casa devidamente iluminada.
De seguida arregaçou as mangas e deu continuidade aos trabalhos, fazendo uma boa limpeza na casa. Boa e exaustiva.
Todos os cantos e recantos tinham que ser varridos, para poder afirmar no fim que a sua casa se encontrava verdadeiramente limpa.
Para que a poeira pudesse sair mais rapidamente, abriu todas as janelas e a porta.
A sua silhueta esguia movia-se a par com a fina poeira que se erguia agora no ar.
- Acordaste disposta para as lides hoje, Zahira – observou uma vizinha ao passar.
- Nem tanto minha boa vizinha, estou à procura da minha pequenina dracma – informou ela.
-Ah… não me digas que a perdeste…
- Pois perdi, e o pior é que já revirei tudo e não a encontrei.
- Percebo, percebo… com a casa assim iluminada e com essa faxina geral, não tardarás a encontra-la… – encorajou-a a vizinha.
- Sim, eu sei. E o Senhor também me vai ajudar.
- Claro que vai… – concordou a vizinha enquanto se afastava, prosseguindo no seu caminho.
Animada retomou os seus afazeres.
Não tardou muito a ouvir-se um gritinho de alegria vindo do interior da casa.
- Estavas aqui… – disse jubilosa, ao mesmo tempo que se debruçava para levantar a sua dracma caída – Olá pequenina, com que então estavas aqui perdida. Olha que se não fosse a luz da candeia dificilmente te acharia.
Com um visível carinho, limpou-a cuidadosamente e foi repô-la junto às outras nove. O seu rosto irradiava felicidade e contentamento ao contemplar o seu pequeno tesouro.
Olhou ao redor, e soltou um sonoro suspiro de alívio.
O seu coração estava no entanto alvoraçado com tanta felicidade que parecia querer saltar-lhe pela boca.
Fazia-se necessária a partilha daquela bênção maravilhosa, antes que sufocasse com tanta alegria. Saiu para a rua e começou bater às portas amigas.
-Alegrem-se comigo porque achei a dracma que tinha perdido… – anunciava entusiasticamente.
- A forma diligente como procuraste a tua dracma foi recompensada – disse-lhe a vizinha que momentos antes a tinha visto em grande azáfama.
Todos os que foram convocados festejaram com ela, aquele momento.
A luz que irradiava do olhar Zahira reflectia agora a emoção do reencontro.

Florbela Ribeiro A. S.

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