sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

LÉIA


Léia

Senti o golpear de um arrepio a percorrer-me todo o corpo, assim que ouvi a ordem, decretada por meu pai.
O olhar frio e austero que me dirigiu dilacerou-me por completo a esperança de uma possível argumentação em desabono da sua decisão.
Fiquei petrificada de tal forma, que da minha boca saiu apenas um pequeno som.
Foi um quase inaudível gemido, que meu pai interpretou como um sim. Foi na realidade, o grito de dor que a minha alma não conseguiu abafar.
O meu futuro acabara de ser traçado ali.
A voz do meu pai martelava incessantemente na minha mente, deixando-me completamente atordoada.
Não me recordo do trajecto que me levou até aos meus aposentos, mas à minha espera encontrava-se Zilpa, serva do meu pai.
Diante das novas exigências, que me foram impostas, Zilpa passava agora a servir-me.
De forma desatenta, desviei o olhar para cima da cama, onde se encontrava o vestido nupcial…
Era belíssimo!
Todo ele elaborado em seda pura e forrado por uma fina e delicada renda. A soma de todos os detalhes que compunham a sua confecção, aliada à sua brancura imaculada, tornavam-no perfeito.
Mas naquela hora, não vi nele nenhum encanto…
- Diz-me que estou a sonhar Zilpa, diz-me que nada disto é verdade – supliquei-lhe eu por entre lágrimas.
- Lamento menina, mas terá de se conformar com a ideia.
- Conformar com a ideia? – Questionei com ironia, pela partida que o destino me acabava de desferir – conformar-me… ou subjugar-me totalmente à autoridade do meu pai? E ao seu domínio? – Ela permaneceu quieta olhando-me em silêncio.
Dentro daquele quarto, não existia hierarquia.
Ali, naqueles aposentos, estavam duas servas de Labão. Zilpa e eu…
Enquanto lá fora no arraial, Jacó e Raquel ingenuamente celebravam um casamento que não iria ser consumado, eu debatia-me pela nova realidade que me era imposta.
Ser a esposa de Jacó.
Durante sete anos fui uma amiga leal para Jacó e Raquel.
A ele, ajudei-o não só nas tarefas diárias de pastoreio, mas também planeamos juntos os variadíssimos encontros com Raquel. Fui o “pombo-correio” dos recados apaixonados.
Para Raquel, fui uma aliada, uma confidente e uma conselheira, dado ser um pouco mais velha.
É certo que nunca tinha vivido um relacionamento amoroso, nem tão pouco me tinha apaixonado, mas a idade e o amadurecimento próprio desta, ajudavam-me a ver um pouco mais além.
Desempenhei com lealdade o papel de irmã e amiga, sendo cúmplice dos olhares apaixonados, que ambos lançavam entre si. Cúmplice e leal até aquele dia.
Eu, que tinha sido o elo de ligação dos dois durante sete longos anos, tornava-me agora uma barreira existencial entre ambos.
Era impossível não vestir o papel da traidora, quando após o demorado banho aromático que Zilpa me deu, enfiei o lindíssimo vestido nupcial.
- Ah menina Leia, está tão bonita – exclamou Zilpa tentando com esta observação, animar-me.
- Olha bem para dentro dos meus olhos Zilpa e diz-me… ainda me achas bonita?
- Está bonita sim, a menina é possuidora de um coração cheio do amor de Deus. A tristeza e o sofrimento que é visível agora, vai passar em breve, porque Deus vai ajuda-la – disse Zilpa confiante.
- Disseste bem, Zilpa, só Deus me pode ajudar agora, só Ele…
Gerou-se um longo silêncio, que foi subitamente interrompido pelo chamamento do meu pai:
- Léia, estás pronta? – Quis saber ele, de lá da cortina que impedia o acesso aos meus aposentos.
- Sim meu pai, estou pronta – respondi com a voz embargada.
Fustigada por impulsos que oscilavam abruptamente o meu corpo, devido ao terror daquela hora, gelei completamente.
O meu pai entrou, afastando a cortina que nos separava e mirou-me de alto abaixo.
Foi humilhante, a sensação de poder e domínio que aquele olhar me causou. Senti-me tal como um animal que é observado ao pormenor, antes da compra. O pior de tudo é que estava a ser avaliada pelo vendedor e não pelo comprador, e o vendedor era neste caso, o meu próprio pai.
A sua visão e astúcia para os negócios, desconheciam limites. O importante acima de tudo, era o lucro final. Os meios que usava para os obter eram apenas detalhes de menor importância.
Não teceu nenhum comentário, o que me fez concluir que estava do seu agrado.
Segurei na mão, que me conduziu aos aposentos onde Jacó aguardava a noiva prometida.
Lancei-lhe um último olhar, todo ele suplicante, na expectativa que ele desistisse de dar continuidade ao meu infortúnio.
Em resposta a minha súplica, obtive uma nova ordem.
- Não pronunciarás nenhuma palavra, até que tudo esteja consumado, caso contrário Jacó saberá quem tu és, ouviste? – O tom agressivo da sua voz, não me deu alternativa.
Sem forças para mais, limitei-me a consentir com a cabeça.
Jacó já nos aguardava ansioso. Com o meu rosto tapado pelo véu, ele não teve como saber que não era Raquel quem se encontrava ali.
Foi perceptível a mensagem silenciosa que ambos passaram em simultâneo
De um lado havia recomendações, do outro, agradecimentos.
O aposento estava a meia-luz, dava para definir as formas do mobiliário, mas não os seus detalhes, e muito menos a cor.
O meu pai tinha sido meticuloso, cuidando para que nada no seu plano saísse gorado.
Se da minha parte tivesse existido a ilusão de ser reconhecida por Jacó, sem ir contra as ordens recebidas, ao me deparar com aquele cenário, ela ter-se-ia desvanecido.
Não passou desapercebido a Jacó o meu estado trémulo, mas que dado o momento, ele achou normal.
Mas de normal o momento nada tinha.
Lançou-me um abraço tímido, mas envolvente, e com uma voz suave e meiga sussurrou-me:
- Vem… não receies, amada minha, porque não irei fazer-te nenhum mal.
Ele tinha na voz o doce encanto, que só o amor é capaz de gerar.
O desgaste emocional, a que fui sujeita, naquele curto espaço de tempo, causou em mim uma fragilidade sem tamanho.
A doçura e a suavidade da sua voz, aliada a toda a envolvência que se seguiu, fizeram com que, desfalecesse por completo nos seus braços.
Entreguei-me assim, sem resistência, ao meu destino.
A manhã despertou envolta em densas neblinas. A brisa que se fazia sentir lá fora, parecia anunciar a chegada de um Outono bastante rigoroso.
Mas bem mais inóspita do que o clima, que se fazia sentir lá fora, era a realidade do meu matrimónio.
O olhar alucinado que Jacó em mim depositou, cravou a minha alma de dor.
O seu semblante desfigurado e os movimentos descompassados eram típicos de um animal traído. Traído no amor.
Fitava-me por isso com desconfiança e sem piedade.
Jacó tinha caído numa armadilha…
Eu entendia perfeitamente o quanto ele sofria, mas na altura Jacó desconhecia isso.
Visivelmente Jacó sofria não só pela dor da traição, mas principalmente pela dor da perda.
Foram sete longos anos em que trabalhou incansavelmente, para aquele dia.
Durante todo esse tempo, poetizou aquela noite detalhadamente.
Mas… deparava-se agora com a cilada do seu tio e sogro. O sonho tornou-se em pesadelo.
A dureza no seu olhar, foi uma mágoa que tive de suportar sozinha.
Afinal, o isco usado por Labão, meu pai, para a sua captura, tinha sido eu!
Abandonou de forma repentina e violenta os aposentos e foi ao encontro do meu pai.
Jacó estava visivelmente enraivecido, dando-me motivos para recear o pior.
- Zilpa, Zilpa – gritei.
- Sim menina o que aconteceu? – Perguntou-me aflita, ao ver que a tristeza do dia anterior continuava estampada no meu rosto.
- Jacó foi ter com o meu pai, foi pedir-lhe contas… Corre, vê o que sucede e se necessário for chama por ajuda. Vai, anda…! – Gritei-lhe ansiosa.
Atrapalhada e atónita saiu a correr da minha presença.
Com o olhar fito no nada, e tendo por companhia a minha desventura, aguardei por notícias. Não demoraram muito.
- Está tudo bem menina, o senhor é muito sábio e rapidamente acalmou Jacó seu marido – informou-me Zilpa com um ar abatido.
- Acalmou, como? – Perguntei estupefacta, ao mesmo tempo que me erguia do leito onde me encontrava.
- Sim menina – pronunciou ela, abaixando a cabeça – dentro de sete dias teremos nova celebração cá em casa.
- Nova celebração? De que falas tu Zilpa? Inquiri de novo.
- Labão seu pai, vai dar Raquel em casamento, a Jacó seu marido, dentro de sete dias.
- Ah?! Diz-me que ouvi mal? –
Mas não ouvi. Mais uma vez o destino me pregava um duro golpe.
A minha reacção causou uma geral apreensão. Até eu me surpreendi com ela.
Inicialmente submetida a um conúbio por exclusiva submissão às ordens do meu pai, padeci mais por Raquel, por Jacó do que por mim. Algo mudara entretanto. Algo completamente novo e desconhecido.
Eu amava Jacó, e só agora tomava consciência disso.
Tornei-me então aborrecida e comecei a olhar Raquel de forma diferente. Ela era agora para mim uma adversária, detentora de atributos que me colocavam em desvantagem.
Raquel era possuidora de um formoso semblante e formosa à vista, isso era inegável.
A ajudar a tudo isso, tinha também o facto de ser a mais nova, a ovelhinha mansa, como carinhosamente meu pai lhe chamava.
Já eu, não tinha sido bafejada pela mesma sorte. A minha beleza, se é que assim se pode chamar era, simples e desprovida de qualquer atractivo.
Sempre fora valorizada pelo meu trabalho, e pela minha dedicação ao pastoreio. Amava o que fazia, não havendo nenhuma tarefa ainda que braçal que me causasse afronta.
A minha robustez física contracenava com a delicadeza do porte de Raquel.
Raquel tinha beleza, juventude e principalmente… o amor de Jacó.
Eu estava em desvantagem…
Mas Deus na Sua infinita bondade e compaixão concedeu-me a divina graça de ser mãe.
Inicialmente tentei tirar partido dessa mesma graça, fazendo uso dela para conquistar Jacó, meu marido. Jeová foi misericordioso e olhou para a minha angústia. Ao meu primeiro filho dei o nome de Ruben. Sendo que agora meu esposo iria começará a amar-me. Mas tal não sucedeu.
Nasceu depois Simeão, Levi e Judá. Em cada nascimento renascia a esperança de ganhar o amor de Jacó, mas era patente que Raquel continuava a ser a mais amada.
Ainda assim, Raquel foi acometida de um forte sentimento de inveja, ao ver que no seu ventre não se gerava vida. Não havia frutos desse grande amor.
Quando a emoção se sobrepõe à razão, gera-se a impaciência aliada à imprudência.
Raquel na sua ansiedade de ser mãe, não esperou que Deus lhe abrisse a madre e entregou a Jacó a sua serva de nome Bilha, que lhe deu dois filhos, Dã e Naftali.
Deparava-me agora não com uma, mas duas adversárias, minha irmã e sua serva.
Acometida da mesma imprudência, e não querendo ser mais humilhada, também eu entreguei Zilpa a Jacó, para que concebesse. Tal como Bilha, minha serva Zilpa gerou dois filhos de Jacó. Foram eles Gade e Aser.
Mas apesar de tudo eu permanecia sem o amor de Jacó. Meu único contentamento era ser a geratriz do seu maior número de filhos.
Deus sabia o quanto eu amava Jacó, e por mais três vezes me renovou a graça, permitindo-me conceber mais Issacar, Zebulom e Dinã.
A esperança de que cada nascimento trouxesse o amor de Jacó por mim, desvaneceu-se completamente. Nada que eu fizesse iria altera isso.
Desengane-se pois quem pensa que pode escolher a quem amar… o coração é o senhor dessa decisão. É através do seu olhar que nasce ou não o amor. E o coração de Jacó escolheu Raquel, não havia volta a dar.
Desisti de esperar e canalizei todo o meu amor e atenção nas minhas bênçãos. De personalidades distintas, eram eles, o meu orgulho e a minha alegria.
Uma tarde porém, não resisti à dúvida que incessantemente me assaltava a mente.
Eu queria saber de forma clara e objectiva quais eram os sentimentos que meu marido tinha por mim. Chegara a hora de encarar de frente o meu destino.
Estava um fim de tarde ameno. Vislumbrava-se no horizonte que o dia se aproximava do fim. As crianças aproveitando a claridade que ainda se fazia sentir, brincavam alegremente aos pastores. Corriam de forma sonora atrás das ovelhas, que pareciam pactuar com elas na brincadeira. Jacó observava-as deliciado. Calmamente, abeirei-me dele, e lado a lado apreciávamos os risos das crianças. Havia harmonia entre elas, o facto de serem geradas em quatro barrigas, não tinha nenhuma importância. Jorrou finalmente da minha boca a inquietação que desde sempre morara no meu coração.
- Jacó poderás tu, dizer-me algum dia que me amas? – Permanecíamos lado a lado, com o olhar fixo ora nas crianças, ora no horizonte.
Após um longo silêncio, que me pareceu excessivo, e sem desviar o olhar, respondeu-me:
- Amo… a ternura do teu olhar.



Florbela Ribeiro A. S.

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