quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Um prodígio em Naim


REPORTAGEM: UM PRODÍGIO EM NAIM

«Dava tudo para estar ali, no lugar do meu filho» – murmurava a pobre mãe. E a direcção do seu olhar apontava para o esquife, que seguia à sua frente.

Depois dos olhos cheios de lágrimas e da boca cheia de prantos, foi o que pude ouvir distintamente.

Uma grande multidão solidarizou-se com ela nesta dor, fazendo este doloroso trajecto por entre lágrimas e profundos suspiros.

A desgraça que tão abruptamente batera na porta daquela pobre viúva era em surdina comentada por todos. Ouvia os mais variados discursos, mas todos eles eram unânimes na preocupação quanto ao futuro daquela mulher.

-Coitada, não merecia… tanta desgraça…. tanto sofrimento… Como ainda se aguenta em pé?!- gritava um pequeno grupo de carpideiras, entre palavras e gritos.

- Sempre tão solícita e tão generosa, que infelicidade lhe estava por fim reservada…–Reservavam-se os homens a dizer.

-Ah Zilá, Zilá, tinhas uma família tão feliz e tão unida- diziam-lhe as vizinhas mais próximas, que se revezavam entre si, com carinhos e abraços, tentando de alguma forma suavizar a dor que, sem piedade, consumia aquela mulher.

No meio da multidão, entrei na sua pele.

O rosto desfigurado pela dor que dilacerava o coração daquela mãe, era tão evidente e tão forte, que por breves momentos entrei na sua pele… Esse sofrimento evidenciava-se claramente no seu caminhar arrastado e na sua postura curvada.

À imagem daquela dor, que fazia deslizar pelas faces de todos os presentes lágrimas de pesar, juntava-se até a natureza.

Um vento forte e gélido chicoteava duramente os rostos e as vestes de toda a multidão, manifestando desta forma solidariedade para com a viúva.

Mas a certa altura do percurso os olhares desviaram-se do ataúde. Próximo à entrada da porta da cidade de Naim, passava um homem jovem a quem uns chamavam Jesus, e outros chamavam Mestre.

Com Ele estavam –dizia-se ali- também os discípulos e, visivelmente, uma grande multidão.

Todos viram que em dada altura aquele jovem homem, que aparentava rondar os trinta anos, se moveu em direcção ao ataúde.

Eu que estava próxima, pude ver que uma íntima compaixão assomava ao rosto daquele a quem chamavam Mestre. O cortejo abrandou. Os homens que carregavam o esquife pararam a marcha.

- Não chores – disse Jesus à mulher. E aproximando-se tocou o esquife, ordenando: - Mancebo, a ti te digo: Levanta-te.

Elevaram-se por toda a multidão exclamações de espanto. O rapaz que estava morto, ergueu-se e sentando-se começou a falar. - Está vivo, ele está vivo – Gritaram todos em coros uníssonos de forma eufórica e descontrolada.

- Um grande profeta se levantou entre nós, e Deus visitou o seu povo. Mas o profeta de que falavam, só poderia ser o Filho de Deus Altíssimo, e aquela mulher, do modo como se modificara, sabia-o muito bem.

No meio de todo aquele cenário, que me parecia irreal, olhei para o rosto transformado da viúva, que chorava convulsivamente agarrada ao seu filho. Mas o seu choro era diferente. - Meu filho amado, oh meu filho – balbuciava ela entre o choro e o riso.

O rapaz, que parecia ter regressado de um passado distante, um pouco atónito, retribuía-lhe carinhos, enquanto a tentava acalmar.

Como era possível… Minutos antes, o povo desfilava em lamentos pela aflição em que se encontrava aquela mãe, e agora jubilosos anunciavam o acontecido pelas ruas. O ambiente de pesar transformou-se na maior manifestação de alegria e felicidade que alguma vez pude testemunhar, enquanto repórter social. Havia agora motivos para a vida. Só os pessimistas falavam de morte.

As crianças, que temerosamente se refugiaram em casa quando avistaram o cortejo fúnebre, saíram para as ruas. Pareciam andorinhas, cantando e saltando por entre a multidão, anunciando a chegada da Primavera.
E de certa forma era verdade.

Florbela Ribeiro A.S.

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