sexta-feira, 28 de setembro de 2007

As Sete Cartas Apocalípticas






Quando se estuda o Livro de Apocalipse apercebemo-nos de imediato estar o mesmo divido em três distintas secções (Apocalipse 1:19) a saber:



I: AS COISAS QUE TENS VISTO

II: AS COISAS QUE SÃO

III: AS COISAS QUE HÃO-DE ACONTECER



O capítulo Um trata das «coisas que tens visto». Ele inclui a visão que João teve em Patmos, da maravilhosa Pessoa do Senhor Jesus Cristo e a ordem que d’Ele recebeu para escrever tudo o que depois vem no Livro.

Os capítulos dois e três tratam das «coisas que são». Encerram uma perfeita descrição do estado espiritual das Sete Igrejas, como Jesus as vê e as respectivas Cartas que lhes são endereçadas.

O restante Livro (capítulos 4 a 22) trata das «coisas que hão-de acontecer» ou propriamente a parte profética do Livro.

É nosso propósito ocuparmo-nos, apenas, embora sucintamente, da segunda secção, as «coisas que são», incluídas nos capítulos dois e três. É nesta secção que se encontram as Sete Cartas às Igrejas da Ásia Menor, a província romana que compreendia apenas a parte ocidental do que hoje se conhece pelo nome de Ásia Menor, tendo como capital a cidade de Éfeso.

Ao estudarmos a condição destas Sete Igrejas, vistas por Aquele que «tem olhos como chama de fogo», devemos rogar a Deus que nos permita ter o entendimento aberto, a fim de nos apercebermos do seu estado espiritual, tal como o Senhor as descreve, e procurar colocar-nos, não apenas como igrejas mas ainda como indivíduos naquela situação em que d’Ele possamos receber perfeito louvor e completa aprovação.

Ao examinarmos o conteúdo das Cartas apocalípticas, adoptamos o parecer de muitos expositores que entendem fornecerem as mesmas um esboço profético da condição da Igreja até à Segunda Vinda do Senhor Jesus Cristo.

Um dos motivos para aceitarmos que as Cartas são de conteúdo e valor profético, é o facto que em cada uma delas se chama a nossa atenção para as «coisas que o Espírito diz às igrejas»; não apenas à Igreja a quem a Carta é endereçada, não apenas às Sete Igrejas às quais as Cartas são dirigidas, havendo, como se sabe, outras igrejas na Ásia Menor; mas as mesmas dirigem-se no seu conteúdo, na sua exortação, no seu louvor, na sua repreensão e encorajamento à Igreja através dos séculos.

Esta nossa conclusão baseia-se igualmente no facto de que as quatro últimas Cartas falam todas do Advento do Senhor, dando nisto a entender que estes quatro aspectos da Igreja, em algum sentido mais ou menos reconhecido, hão-de permanecer até à Vinda de Jesus.

Deve-se ainda acrescentar que o número 7 é mencionado 55 vezes no Apocalipse. E com sobeja razão se pode afirmar que a estrutura básica do Livro é constituída por quatro setes, respectivamente:

1- AS SETE IGREJAS

2- OS SETE SELOS

3- AS SETE TROMBETAS

4- AS SETE TAÇAS

Fazendo um exame das sete Cartas conclui-se que o Senhor as endereça aos «anjos» ou mensageiros dessas igrejas. Não os sita pelo nome, de onde se poderia inferir que a eles somente eram dirigidas, quando em verdade as Cartas são de interesse geral e para todos os tempos. O que cabe agora a cada «anjo» é identificar-se com a Carta que lhe corresponde.

Não aceitamos que os mensageiros das igrejas sejam propriamente anjos, – e assim, colocamo-nos ao lado da maioria dos comentadores, que são unânimes em afirmar tratar-se, antes, dos pastores das respectivas Igrejas. Entre os dons que Cristo exaltado atribui à Sua Igreja incluem-se os «pastores», que juntamente com os restantes ministérios contribuem para o «aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do Corpo (Igreja) de Cristo» (Efésios 4:11,12).

E em Hebreus 13:17 lê-se que os pastores são responsáveis e têm de prestar contas a Deus de cada alma colocada sob o seu cuidado.

Ora, se o Senhor tem colocado os pastores nas igrejas (um dos mais difíceis ministérios!) «para a obra do ministério e para o aperfeiçoamento dos santos», é óbvio que a eles Se dirija, a fim de louvá-los pela sua fidelidade, animá-los nas provações, chamar a sua atenção sempre que é necessário, incriminá-los pelo seu descuido da doutrina e quantas vezes da disciplina, assim como exortá-los quanto à realização da obra evangelizadora e missionária.

Dizíamos ser este um dos ministérios mais difíceis; e, a julgar pelo que se lê acerca de Aarão e de Cristo em Hebreus 5:4,5, «ninguém deve tomar para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus».

Para tal ministério requer-se muita sabedoria, conhecimento e inteligência espiritual, a fim de se poder apascentar devidamente o rebanho, enquanto que, por outro lado se deve lutar denodadamente para se poder «apresentar todo o homem perfeito em Jesus Cristo». (Colossenses 1:25,28,29; 2:1-3). Em face disto é de pasmar que possa alguém ter a veleidade de desprezar esta sabedoria. Parece estar actualmente em voga dizer-se que esta sabedoria para o desempenho do oficio pastoral apenas nos primeiros tempos se requeria…Não teremos em tais pessoas os mencionados «desordeiros, faladores vãos e enganadores, mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos», aos quais Paulo diz que «convém tapar a boca»? (Tito 1:10-13)

Tais obreiros devem ser substituídos ou severamente repreendidos, para se tornarem sãos na fé, declara o Apóstolo. (Tito 1:13)

Voltando aos mensageiros das Sete Igrejas, podemos notar que o facto das Cartas lhes serem particularmente dirigidas não significa que as mesmas sejam pessoais.

O Senhor dirige-se às Sete Igrejas (Apocalipse 1:11), e as Cartas reflectem as condições das mesmas igrejas como instituições locais.

Quando se examina o capítulo primeiro, verificamos como nele o Filho do homem Se revela na plenitude das Suas funções como Senhor das igrejas. Os diferentes aspectos da visão vêm a ser como credenciais que Jesus exibe em cada uma das Sete Cartas.

Exemplificando:

Dirigindo-se à igreja de Éfeso, que havia perdido o primeiro amor, o Senhor apresenta-Se como «Aquele que tem na Sua dextra as sete estrelas» ou sejam os pastores, e que «anda no meio dos sete Castiçais de ouro», as igrejas.

À igreja de Esmirna, que se mantinha fiel no meio da perseguição, Jesus apresenta-Se como «O Primeiro e o Último, o Vencedor da Morte»

À igreja de Pérgamo, que tolerava a idolatria, a heresia, a frivolidade e a imoralidade, Cristo apresenta-Se como «Aquele que tem a espada de dois fios».

À igreja de Tiatira, que permitia uma mulher exercer funções de doutrinadora e atribuições pastorais, ensinando coisas erradas as quais o Senhor designa como «profundezas de satanás», Ele apresenta-Se como «O Filho de Deus, que tem Seus olhos como chama de fogo». À igreja de Sardo, que tinha aparência de viva (talvez pelas suas excentricidades, emocionalismo, barulho descontrolado dos seus cultos, etc) mas estava morta, Jesus apresenta-Se como «O que tem os Sete Espíritos de Deus» (comparar com Isaías 11:2; Apocalipse 4:5), que podem vivificar os mortos e dar-lhes plena perfeição de vida.

À igreja de Filadélfia, Cristo revela-Se como «O que tem a chave de David» para abrir a porta ao evangelismo e à salvação dos perdidos, já que aquela igreja ardia em amor por eles. É a chave (autoridade) d’Aquele que tem todo o poder no Céu e na Terra!

E finalmente, à morna Laodiceia, Cristo diz que é «O Amem, a Testemunha Fiel e Verdadeira», e esse título revela-nos o carácter de Cristo em relação aos seus discípulos: Ele é Fiel e Verdadeiro, os que n’Ele esperam e O seguem, podem confiar plenamente em como o Senhor há-de cumprir Suas firmes promessas.

Tudo o que, em relação às igrejas tem sido dito até este ponto, resume-se no seguinte:

O Senhor ressuscitado e que sabe todas as coisas, aprova o que é bom, condena o mau e exorta à fidelidade.

Uma fraqueza característica das igrejas cristãs reside no facto de se recusarem a permitir qualquer processo de auto purificação. Subsiste, como norma prioritária, a mentalização de lealdade à denominação, aos seus guias, muitas vezes sem a preocupação de se investigar se estão ou não certos no que ensinam. Criticar qualquer mal que exista numa congregação parece equivaler a criticar a própria denominação. Daí que nenhum protesto se levanta, sob disfarce de lealdade à igreja e aos seus ministros.

Mas a Palavra de Deus mostra que nossa lealdade e fidelidade devem ser, acima de tudo, a Cristo e à Sua Palavra. Sempre devemos ter presente que «o Juiz está à porta», e que «o julgamento deve começar pela casa de Deus» (Tiago 5:9; I Pedro 4:17).

Os erros e desvios de uma igreja exigem que sejam criticados. Os males administrativos devem ser desmascarados e corrigidos. Se assim não acontecer, a igreja entrará, mais tarde ou mais cedo, no caminho da apostasia e o seu governo pode vir a tornar-se ditatorial.

Bem sabemos que se alguém tiver a ousadia de levantar a sua voz na igreja contra tais contradições arrisca-se a ser considerado «perturbador».

Acabe dizia que o profeta Elias era «o perturbador de Israel». Mas Elias respondeu: «Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa de teu pai, porque deixas-te os mandamentos do Senhor, e seguis-te aos Baalim». (I Reis 18:17,18).

Os fariseus e sacerdotes contemporâneos de Cristo diziam, no seu libelo acusatório, que Ele perturbava a nação. (Lucas 23:5).

Os Apóstolos foram igualmente considerados perturbadores. Eles haviam voltado o mundo de cabeça para baixo.

Martinho Lutero «perturbou» o sistema e a ordem da Cúria Romana, e João Wesley foi um «provocador» de problemas para a Igreja Anglicana do seu tempo. Sem dúvida alguma que a Igreja dos nossos dias precisa, mais do que nunca de «perturbadores» da ordem estabelecida.

A necessidade urgente da Igreja de Cristo em todos os tempos tem sido a de um processo de saneamento, de purificação. Pois as Sete Cartas às igrejas da Ásia são, a nosso ver, esse mecanismo de depuração. Elas revelam existir uma sucessão de condições, de práticas; e daí a necessidade de um constante reajustamento, de uma identificação com os sãos princípios apontados por Aquele que fala com voz «como se fosse de muitas águas», cujos «olhos são como chama de fogo», e cuja exortação é: «Se alguém tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas».



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