sábado, 1 de junho de 2019

Depus a Máscara - Álvaro de Campos


Depus a Máscara

Depus a máscara e vi-me ao espelho. — 
Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
Depus a máscara, e tornei a pô-la. 
Assim é melhor, 
Assim sem a máscara. 
E volto à personalidade como a um términus de linha. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Rumores na Cidade





Rumores na Cidade

A notícia abalou a cidade expectante pelos rumores vindos das povoações vizinhas. O Mestre Nazareno encontrava-se em casa de Simão, o fariseu, e rapidamente o povo largou os seus afazeres e acorreu ali, para o ver. Curiosa, porém descrente no “diz que disse”, dirigi-me, também eu, até lá para o conhecer.
A multidão, amontoada ao redor da casa, ocupava já as portas e janelas. Entrar ali revelou-se um verdadeiro desafio.
- Com licença, deixem-me passar – repeti, abrindo caminho, por entre cotoveladas e encontrões, até ao interior onde pude, finalmente, respirar de alívio.
Assentado à mesa, o Mestre era minuciosamente observado pelo anfitrião. Examinei-o de igual modo na tentativa de descobrir-lhe algo de extraordinário, mas no semblante tranquilo e modos simples não notei nada de singular.
- É este o homem por quem fazem tanto alarido? E que dizem fazer tantos milagres?
Matutava sem entender a indiscrição daquela gente, até que de repente alguém despertou a minha atenção.
Uma mulher abeirou-se do Mestre e prostrou-se aos seus pés. O véu que a cobria descaiu ligeiramente e deixou-lhe o rosto visível. O assombro instalou-se de imediato nos presentes.
- É a pecadora! Como se atreve a entrar aqui? – sussurraram alguns, indignados.
Olhei estupefacta para Simão e fiquei atónita quando vi que este travou o moço que se aprontava para a retirar dali. Havia desconsideração nos seus modos mas o convidado permanecia imperturbável.
Também ela me pareceu alheada de tudo quanto a rodeava, quando começou a chorar de forma copiosa e enfraquecida. Dos seus olhos precipitou-se um rio de lágrimas sobre os pés que ela, humildemente, beijava, e enxugava nos cabelos e que, depois, ungiu com a porção que trouxera no vaso de alabastro.
Não sei quanto tempo permaneceu ali, só sei que ver e ouvir tamanha comoção me atingiu profundamente.
- Os teus pecados te são perdoados. A tua fé te salvou: vai-te em paz – foram as únicas palavras que o Mestre dirigiu àquela que, com a gratidão espelhada no olhar, se afastou pouco depois dali.
- Os teus pecados te são perdoados? – balbuciei confusa, já no caminho para casa.
O arrojo daquela intrusa perturbou-me, mas o facto de ter sido a única a não correr atrás de um mero boato incomodou-me muito mais.
Todos ouvimos falar dos Seus milagres, da cura de cegos, da purificação de leprosos, dos mortos que havia ressuscitado e das boas novas que anunciava aos mais desfavorecidos. Mas só ela correu em busca da solução para a sua vida, e só ela a encontrou! A má reputação dos seus pecados diluiu-se diante daquela manifestação de fé e arrependimento.
Os rumores eram verdadeiros, disso me asseguram os meus olhos, pois que estive diante Daquele que veio oferecer a salvação aos perdidos, libertar, e transformar, os oprimidos e perdoar os humildes de coração…
Horas antes achara-me melhor, e mais digna, do que aquela pobre mulher, mas ai de mim se me não consciencializar da minha pequenez, e me não arrepender dos meus pecados, na certeza, porém, de que só a quem muito ama muito é perdoado.

Baseado em Lucas 7: 36 a 50

Florbela Ribeiro®

sexta-feira, 29 de março de 2019

Ouvir




"O primeiro serviço que alguém deve ao outro na comunidade é ouvi-lo. 
Assim como o amor a Deus começa com o ouvir a sua Palavra, assim também o amor ao irmão começa com aprender a escutá-lo. 
É prova do amor de Deus para connosco que não apenas nos dá sua Palavra, mas também nos empresta o ouvido. 
Portanto é realizar a obra de Deus no irmão quando aprendemos a ouvi-lo. 
Cristãos e especialmente os pregadores, sempre acham que tem algo a "oferecer" quando se encontram na companhia de outras pessoas, como se isso fosse o seu único serviço. 
Esquecem que ouvir pode ser um serviço maior do que falar. 
Muitas pessoas procuram um ouvido atento, e não o encontram entre os cristãos, porque esses falam quando deveriam ouvir... “


Dietrich Bonhoeffer

O Desgaste da Inveja

O Desgaste da Inveja

De todas as características que são vulgares na natureza humana a inveja é a mais desgraçada; o invejoso não só deseja provocar o infortúnio e o provoca sempre que o pode fazer impunemente, como também se torna infeliz por causa da sua inveja. Em vez de sentir prazer com o que possui, sofre com o que os outros têm. Se puder, priva os outros das suas vantagens, o que para ele é tão desejável como assegurar as mesmas vantagens para si próprio. Se uma tal paixão toma proporções desmedidas, torna-se fatal a todo o mérito e mesmo ao exercício do talento mais excepcional. 
Por que é que o médico deve ir ver os seus doentes de automóvel quando o operário vai para o seu trabalho a pé? Por que é que o investigador científico pode passar os dias num quarto aquecido, quando os outros têm de expor-se à inclemência dos elementos? Por que é que um homem que possui algum talento raro de grande importância para o mundo deve ser dispensado do penoso trabalho doméstico? Para tais perguntas a inveja não encontra resposta. Afortunadamente, porém, há na natureza humana um sentimento compensador, chamado admiração. Todos os que desejam aumentar a felicidade humana devem procurar aumentar a admiração e diminuir a inveja. 

Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"

quarta-feira, 27 de março de 2019




Oração por capacitação







Oração por capacitação 
(traduzida do inglês)


Ó Deus, cedo de manhã clamo a Ti; 

ajuda-me a orar e a concentrar os meus pensamentos em Ti: 

não posso fazer isso sozinho. 

Em mim há trevas, mas conTigo há luz . 

Estou só, mas Tu não me abandonas. 

Sou fraco de coração, mas conTigo há ajuda. 

Sou inquieto, mas conTigo há paz. 

Em mim há amargura, mas conTigo há paciência. 

Não compreendo os Teus caminhos, 

mas Tu conheces o caminho que devo trilhar... 

Restaura-me para a liberdade, 

e agora capacita-me a viver de tal forma que eu possa prestar contas 

a Ti e a mim próprio. 

Senhor, seja o que for que este dia possa trazer, 

Teu nome seja louvado.


         Dietrich Bonhoeffer



terça-feira, 26 de março de 2019

Sofrimento




Sofrimento


Tremenda transformação. Suas mãos fortes e activas

         Estão agora amarradas. Impotente, sozinho,

         Você vê o fim da sua acção.

Ainda assim, respira fundo e deposita

         Sua luta por justiça, tranquila e confiantemente,

         Numa mão mais poderosa.

Apenas por um suave momento,  experimentou

         A doçura da liberdade, e depois entregou-a a Deus,

         Para que Ele a torne plena.

Dietrich Bonhoeffer 

Acção




Acção


Ouse fazer o que é justo, e não o que for conveniente;

Não perca tempo com o que pode ser,

         Mas apegue-se valentemente ao que é real.

O mundo do pensamento é fuga;

         A liberdade só vem pela acção.

Caminhe para além da espera ansiosa

         E penetre na tempestade de acontecimentos,

         Conduzido apenas pelo mandamento de Deus

         E por sua fé;

         Então a liberdade clamará exultantemente

         Para dar boas vindas ao seu espírito.


Dietrich Bonhoeffer 

sexta-feira, 22 de março de 2019

Disciplina






Disciplina

Se você se dispuser a procurar a liberdade

   Aprenda, acima de tudo, a disciplina, para que suas paixões

         E seus membros não o levem confusamente

         Para trás e para adiante.

Puros sejam seu espírito e seu corpo,

         Sujeitos a sua vontade e obedientes

         Para buscar o alvo para eles proposto.

Ninguém descobre o segredo da liberdade

         A não ser por meio do domínio próprio.

Dietrich Bonhoeffer

 

quinta-feira, 21 de março de 2019

Dia Mundial da Poesia - Dietrich Bonhoeffer


Wer Bin Ich? Quem Sou Eu?


Quem sou eu? Frequentemente me dizem
Que saí da confinação da minha cela
De modo calmo, alegre, firme,
Como um cavalheiro da sua mansão.


Quem sou eu? Frequentemente me dizem
Que falava com meus guardas
De modo livre, amistoso e claro
Como se fossem meus para comandar.
Quem sou eu? Dizem-me também
Que suportei os dias de infortúnio
De modo calmo, sorridente e alegre
Como quem está acostumado a vencer.


Sou, então, realmente tudo aquilo que os outros me dizem?
Ou sou apenas aquilo que sei acerca de mim mesmo?
Inquieto e saudoso e doente, como ave na gaiola,
Lutando pelo fôlego, como se houvesse mãos apertando minha garganta,
Ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves,
Sedento por palavras de bondade, de boa vizinhança
Conturbado na expectativa de grandes eventos,
Tremendo, impotente, por amigos a uma distância infinita,
Cansado e vazio ao orar, ao pensar, ao agir,
Desmaiando, e pronto para dizer adeus a tudo isto?


Quem sou eu? Este, ou o outro?
Sou uma pessoa hoje, e outra amanhã?
Sou as duas ao mesmo tempo? Um hipócrita diante dos outros,
E diante de mim, um fraco, desprezivelmente angustiado?
Ou há alguma coisa ainda em mim como exército derrotado,
Fugindo em debanda da vitória já alcançada?


Quem sou eu? Estas minhas perguntas zombam de mim na solidão.
Seja quem for eu, Tu sabes, ó Deus, que sou Teu!

Dietrich Bonhoeffer

Dietrich Bonhoeffer foi um grande teólogo protestante alemão, considerado um dos mais relevantes do século XX. Perseguido e aprisionado pelo nazismo, foi enviado a um campo de concentração, onde foi executado, já em fins da Segunda Guerra.
Para mais textos e informações sobre Bonhoeffer, visite:

Fonte:http://poesiaevanglica.blogspot.com/2007/04/um-poema-de-dietrich-bonhoeffer.html



Manuscrito do poema "Quem sou eu?", escrito por Dietrich Bonhoeffer na prisão militar de Berlim-Tegel
na correspondência de 08 de julho de 1944, destinada ao seu amigo Eberhard Bethge.

Fonte: http://lendobonhoeffer.blogspot.com/2016/05/quem-sou-eu.html