quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Credo - Shaul Tchernichovsky






Credo
Ri, ri de todos os meus sonhos!
O que sonho será realidade!
Ri por eu acreditar nos homens,
E por acreditar em ti.

Minha alma pede ainda uma liberdade,
Que não se troca por bezerros de ouro.
Porque ainda acredito nos homens,
E no seu espírito forte e corajoso.

E no futuro acredito
Que ainda distante, ele virá
Quando nações abençoem outras
E paz por fim a terra encherá.

Shaul Tchernichovsky 
(1875-1943), médico, poeta e tradutor israelita de origem russa.
Poema escrito em 1928.



(fragmento)

“O homem não é nada além de um pedaço de terra
não é nada além da imagem da paisagem de sua terra natal” 

Shaul Tchernichovsky

Fonte: http://judaismohumanista.ning.com/notes/POESIA_JUDAICA_-_Credo_-_Shaul_Tchernichovsky


terça-feira, 14 de agosto de 2018

O convite



Apoiado na robustez do tronco, sob a frondosa copa da figueira situada na retaguarda da modesta habitação, Natanael encontrava o refúgio perfeito para meditar e aplacar o ritmo do seu coração agitado. Era ali que diariamente, e em oração, se despojava das inquietações e anseios. Com o seu sentido observador e diligente, procurava, no silêncio e ao sabor da brisa fresca daquela tarde, entender os últimos acontecimentos.
Relembrava a leitura profética, relativa à vinda do Messias, que escutara na sinagoga. Tudo lhe levava a crer que estaria para breve. E não se baseava apenas nas profecias de Moisés e Isaías mas também nas advertências vindas do deserto de Peréia, pela voz de João Batista. Os avisos incisivos e perturbadores davam-lhe essa convicção.
Há muito que os líderes religiosos viviam uma fé desfalcada de valores, aparentando uma falsa modéstia e santidade revestidas de prepotência e hipocrisia. Enquanto o povo corrompido e subjugado à lei do mais forte evidenciava, na fisionomia silenciosa e sorumbática, a rotina dos dias privados de esperança e sentido. Era nisto que Natanael meditava quando Filipe se acercou:
- Achamos aquele de quem Moisés, e os profetas, escreveram. Jesus de Nazaré.
- Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? – questionou apreensivo, em alusão à má reputação que o Norte ganhara, após a divisão de Israel e à funesta governação praticada por alguns dos seus reis. Mas não foi esse o motivo principal da sua apreensão, ele também era originário do Norte, de Canaã. Foi a certeza de que o Messias viria de Belém, como afirmavam as escrituras.
- Vem e vê - foram as palavras de Filipe, seu amigo.
Natanael aceitou o convite com reservas, interrogando-se pelo caminho:
- Estará Deus a colocar à prova os meus conhecimentos, ou a minha fé? Irei permitir que as dúvidas impeçam o agir de Deus na minha vida?
Não são poucas as vezes em que a incredulidade nos impede de alcançar as bênçãos que nos estão reservadas. Pensamos demais, questionamos e argumentamos também demais, presos à religiosidade e ao ritualismo das crenças familiares, a dogmas, filosofias… e a oportunidade escapa-se-nos por entre os dedos, como areia fina. E só porque não aceitamos que a lógica de Deus esbarre na nossa própria lógica.
Ao chegar, abriram caminho pela multidão e aproximaram-se de Jesus. De imediato, Natanael sentiu algo diferente. Imanava do Mestre uma paz arrebatadora; a sua simplicidade e objetividade eram impressionantes.
- Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade – disse-lhe Jesus.
- De onde me conheces tu? – inquiriu.
- Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira – respondeu.
A árvore, invisível do caminho, fez com que os dois amigos se entreolhassem admirados.
Ao pensamento de Natanael sobreveio o que sua mãe lhe contara em tenra idade, quando Herodes I decretou matar todos os meninos em Belém e arredores, até aos dois anos de idade. Muitas mães, em desespero, esconderam os filhos debaixo de figueiras, por entre a folhagem caída, livrando-os assim da fúria sanguinária dos soldados. Não sabia se acontecera o mesmo com ele, pressupunha que não, dada a distância, mas recordava-se de estar muitas vezes com ela, sob a densa copa de uma morácea, em orações de louvor e gratidão a Deus, pedindo direção e proteção para as suas vidas.
A menção que Jesus fizera relativamente à árvore deu-lhe a total convicção de estar diante do Messias, que viria para resgatar e restaurar os perdidos. Pois que também ele fora visto e achado antes de um encontro real.
Congratulando-se com o cumprimento da promessa nos seus dias, permaneceu ali juntamente com Filipe e demais discípulos.
Passaram, então, a viver com Jesus, a segui-lo por todo o lado, extasiados com os seus ensinos, seu exemplo de vida, sua conduta e carácter.
Em breve, seriam eles a levar o convite que, ainda hoje, abre as portas à salvação.
- Vinde e vede!
Florbela Ribeiro®

Uma História Privada


Uma História Privada
                          para Itzchak Livni
Nove palavras eu lhe disse.
Você disse isso e aquilo.
Você disse: Você tem um filho,
Tem tempo, tem poesia.
As barras nas janelas ficaram gravadas em minha pele;
não dá para acreditar que aguentei tudo isso.
Eu não precisava, mesmo,
humanamente falando.
No dia Dez de Tevet o cerco começou;
no dia Dezessete de Tâmuz a cidade caiu;
no Nono de Ab o templo foi destruído.
Eu suportei tudo isso sozinha.

Dahlia Ravikovitch

Fonte: https://escamandro.wordpress.com/tag/poesia-israelense/

Um Homem e a Sua Vida


Um Homem e a Sua Vida

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes
está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história
leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.


(Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro)

Fonte: http://ruadajudiaria.com .

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Mar Ocidental: ÁRVORE Uma Antologia Poética - Livro gratuito




Mar Ocidental: ÁRVORE Uma Antologia Poética - Livro gratuito:       

             

 O termo grego ανθολογία (antologia), significa “coleção ou ramalhete de flores”. Daí o latim florilegium. O termo florilégio encaixa-se bem ao presente trabalho, onde procurou-se coligir poemas sobre a árvore, esse centro e pilar da hera.
        E foi sorvendo de outas antologias, e ainda de livros individuais, revistas e websites, que coligimos aqui este singelo ramalhete de poemas sobre a árvore. Adicionamos ao volume uma pequena seleção de frases sobre o tema, e, em arremate, publicamos o texto integral (vertida sua grafia ao português hodierno) do poema A Destruição das Florestas, do múltiplo Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806 – 1879). O poema, que veio à luz em 1845, é um significativo e precoce exemplo de consciência ambiental em nossa literatura.
        Uma antologia temática é uma chance sempre de a poesia penetrar em espaços outros que não os estritamente circunscritos aos apreciadores de poesia. Como antologista, confesso que prefiro, por motivos óbvios, trabalhar com temas ainda não contemplados, os quais infelizmente são muitos em nossa língua. Já assim fizemos em trabalhos como Segunda Guerra Mundial – Uma Antologia PoéticaBreve Antologia da Poesia Cristã Universal e Amor, Esperança e Fé – Uma Antologia de Citações, só para citar alguns trabalhos. Assim, qual a vantagem (ou vantagens) de debruçarmo-nos, agora, sobre uma outra antologia da árvore, já que nossa literatura possui obras neste viés? Acreditamos em algumas. A primeira, é de ordem da amplitude espaço-temporal: a coleta de um número significativo de textos, abarcando autores, se em sua maioria brasileiros ou lusos, também de outras literaturas do globo, e alguns deles de produção posterior às seletas precedentes; a segunda, por suprimento de lacuna, visto que os predecessores são livros esgotados já de há boas décadas; e, por fim, nossa motivação principal: a democratização do conhecimento proporcionada por um livro que já nasce eletrônico e gratuito, o que permite um acesso fácil, amplo e permanente ao seu conteúdo. Afinal, em tempos em que “Meio Ambiente” alcançou o status de tema transversal a perpassar o ensino de todas as disciplinas escolares, auxiliar educadores em seu esforço para incutir o reconhecimento e a valorização deste ser áulico e basilar da Natureza, a árvore, naqueles corações sob sua jurisdição, torna-se nosso objetivo mais urgente.
        Além do elogio da árvore, presta-se aqui uma homenagem a nossos poetas de agora e de ontem, e de certa forma um serviço à literatura lusófona, pois toda antologia literária é antes de tudo isso - um serviço prestado a uma literatura e ao universo de seus usuários.
        Este é um livro gratuito. Como amante das árvores e da literatura, como professor e como antologista, é um prazer ofertar este livro a todos, com votos de que ele possa ser compartilhado livremente, para que alcance os fins a que se propõe.
                               
Sammis Reachers


terça-feira, 26 de junho de 2018

Joaquim Manso





«Desde que o pensamento faz parte do nosso ser, podemos extrair das maiores derrotas as melhores vitórias.»

Joaquim Manso. Pedras para a Construção dum Mundo. Livraria Bertrand, Lisboa., p. 171

Raul Brandão





Considero os meses mais felizes da minha vida aqueles em que eu e minha mulher fomos viver para uma aldeia remota. 

Ainda hoje me penetra a solidão perfumada dos montes. 

A casa não tinha vidros e à noite o silêncio doirado de estrelas entrava pelas janelas e desabava sobre nós...

 Há horas em que as coisas nos contemplam, e estão por um fio a comunicar connosco. 

Às vezes é um nada, um momento de êxtase em que distintamente ouvimos os passos da vida caminhando.




Raul Brandão

Agnès Varda


« Paro de escrever muitas vezes. O mundo está em mau estado e eu sinto-me esmagada.»


Agnès Varda





terça-feira, 31 de outubro de 2017

​A persistência da Fé



A persistência da Fé


A persistência da Fé
Não existem super-homens nem super-heróis. Existem pessoas corajosas e determinadas, às quais rotulamos de “super-isto” ou “super-aquilo”, quando, na verdade, o que elas têm é uma persistência e uma fé inabalável neles próprios, em algo ou em alguém.
Assim me defino eu, como um homem persistente e de fé. Uma fé perpetuada na Omnisciência, Omnipotência e Omnipresença do Criador, e não nas capacidades ou méritos humanos. Pois é Ele quem me restaura, fortalece, consola e abençoa em cada dia.
Sem o Seu auxílio, eu teria desmoronado quando uma indefinível, e súbita, tragédia se abateu sobre mim e me despojou de tudo: riqueza, filhos, saúde.
Naquele dia senti que a morte me arrancou a vida, em vida, sem aviso prévio.
De manto rasgado, cabeça rapada e lágrimas incessantes de dor e desespero a banharem-me o rosto, adorei-O:
Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tomou. Bendito seja o Seu Santo nome.
Nada nem ninguém iria abalar a fidelidade Nele depositada.
Mas os gemidos do meu coração perturbaram-me o pensamento ao ponto de desejar que o dia do meu nascimento jamais tivesse ocorrido. O porquê de tamanho revés ecoava-me nos ouvidos. Julguei-me intocável por ser um homem sincero, recto e temente a Deus. Opinião contrária à dos meus três amigos que, sem inibições, me dirigiram os dedos inquisidores e as línguas afiadas. E, após me sondarem até ao limite das minhas forças, concluíram ser eu um ímpio que padecia o resultado das próprias transgressões.
Se padece é por que mereceAlgum pecado oculto, e mui grave, terá a confessar. Só isso justifica uma tão grande aflição vinda de Deus.
Mas não é esta a tendência natural do homem: falar, opinar e sentenciar o que desconhece? É-o infelizmente e assim procede para se esquecer, não raras vezes, das suas próprias vivências.
Sentado sobre um mar de cinzas impiedosas ouvi as advertências e conselhos, até não suportar mais.
Mas que sabiam eles da minha vida e pecados?
E do significado da palavra compaixão?
E da grandeza do amor de Deus, dos Seus desígnios e mistérios?
Nada, não sabiam nada! Pois, se o que vemos é os ímpios gozarem de prosperidade sem receber castigo algum nesta vida, enquanto os justos padecem dia a dia.
Consciente da minha fragilidade, implorei ao Senhor por alívio para o meu estado deplorável e para a infinidade da minha tristeza. E supliquei-Lhe também perdão para a soberba de tantas justificações e queixumes:
Em tudo, e por tudo, Te rendo graças; e ainda que me mates em Ti sempre eu esperarei!
O Senhor foi misericordioso no atender da minha oração e libertou-me daquela chaga maligna, reestruturou e renovou a minha parentela e abençoou a minha fazenda, conferindo-me o dobro da prosperidade antes alcançada.
E porque permaneci na dependência do Seu amor, e descansei Nele, sem duvidar jamais do Seu poder, Ele enobreceu a persistência da minha fé, para testemunho futuro.
Florbela Ribeiro®
Baseado no Livro de Jó
Publicado na Revista Novas de Alegria / Setembro 2017 / Pág. 14

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Valorizo




Valorizo, cada vez mais, o que é simples e belo.
Como o brilho estampado nos sorrisos sinceros, a emoção que se expressa, timidamente, numa lágrima.
As manifestações da alvorada no orvalho entorpecido dos roseirais, na sinfonia estonteante da passarada, na delicadeza da brisa que nos beija.
No som das crianças plenas de brincadeira, e nos apertos de mão, e abraços, espontâneos
Valorizo, cada vez mais, a simplicidade do que é verdadeiramente simples e a beleza do que é genuinamente belo e precioso!
FR®

O voto

O voto

- O que aconteceu no templo? – quis saber Elcana, após regressarmos de Silo.
- Vi que te alimentaste e o teu rosto transparece, agora, uma invulgar serenidade de espírito.
Olhei-o pensativa. As palavras do sacerdote Eli permaneciam ainda no meu pensamento.
- Os lamentos do meu coração dissiparam-se e o apetite voltou – respondi.
- Alegro-me em ouvir isso – expressou com ternura.
A fragilidade do meu corpo e a palidez do meu rosto atestavam uma permanente falta de apetite.
- E como se dissiparam esses lamentos? – insistiu.
- Estava determinada a não subir ao templo contigo este ano – revelei – mas depois de ouvir Penina o meu coração predispôs-se a agir de maneira diferente.
- O que te disse ela desta vez? – quis saber.
- Chamou-me inútil, amaldiçoada, e aconselhou-me a regressar a casa dos meus para evitar mais vergonhas.
- Como pôde ela dizer-te semelhante coisa? – reparei na expressão facial endurecida.
- Não te zangues, Elcana – supliquei-lhe – Reconheço que as aflições e humilhações que me infligiu ao longo dos anos tiveram um propósito.
- O apelo de ser mãe intensifica-se com o passar dos anos… o vazio também. Esta incapacidade de gerar vida provoca-me uma secura interior inimaginável, que me corrói até aos ossos – confessei-lhe.
- A Penina foi a alavanca que Deus usou para me arrancar do lago de dor e angústia onde havia mergulhado.
- O meu amor não te é suficiente? – senti um travo de amargura na sua voz.
- O teu amor é-me essencial – assegurei - Bem sei que a minha esterilidade não é para ti um problema, mas tenta compreender-me. Um filho irá selar a nossa união para sempre.
- De ânimo e esperanças por terra, subi ao templo, predisposta a esvaziar todo o mal do meu coração. Com palavras, abundância de lágrimas e gemidos inexprimíveis derramei a minha alma suplicante diante do Senhor.
Dediquei-Lhe um voto, e estou confiante na resposta ao meu clamor, porquanto uma tranquilidade inexplicável inundou, desde esse momento, todo o meu ser. O sacerdote Eli viu-me e, tendo-me por embriagada, interpelou-me. Expliquei-lhe então o motivo que me levou ali. Ele entendeu e disse-me:
- ”Vai em paz, e o Deus de Israel te conceda o que lhe pediste”.
- E o que Lhe pediste? – perguntou sabendo de antemão a resposta.
- Um filho varão – anunciei - Se mo conceder, chamar-se-á de Samuel e levá-lo-emos ao templo, para que cresça diante do Senhor todos os dias da sua vida - Elcana, escutava-me com atenção e estupefação.
- Estás solidário com o meu voto? – com o seu abraço forte, e envolvente, expressou-me o seu apoio. E ali permanecemos confiantes na graça, e na misericórdia de Deus, abrigados no seio de um amor maior.
Com a esperança renascida e olhar ligado ao dele questionei:
- Haverá maior bênção do que ver um filho crescer na Casa do Senhor?
O seu silêncio assegurou-me que não.
Florbela Ribeiro®
Baseado no texto bíblico de I Samuel 1

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A BELEZA EM CADA SER É UMA ALEGRIA ETERNA





A BELEZA EM CADA SER É UMA ALEGRIA ETERNA


A beleza em cada ser é uma alegria eterna:
o seu encanto torna-se maior e nunca se há-de perder
no nada; reservar-nos-á ainda um refúgio
de paz, onde adormeceremos habitados por sonhos
suaves, a felicidade do nosso corpo, uma respiração branda.
Comecemos, assim, a tecer em cada manhã
uma grinalda de flores para nos unirmos à terra,
apesar do desalento, da ausência daqueles
cuja nobreza amávamos, dos dias cheios de escuridão,
de todos os caminhos insalubres e misteriosos,
abertos para os nossos anseios; sim, apesar de tudo,
uma forma de beleza afasta o sudário
das nossas almas sombrias. Assim é o sol, a lua,
as antigas ou novas árvores cuja bênção faz germinar
a sombra sobre os humildes rebanhos; os narcisos
e o mundo verdejante que os cerca; e os límpidos rios
que para si criam um dossel de frescura
durante as estações ardentes; os silvados do bosque
enriquecidos pelo belo, nascente esplendor das rosas;
e, também, a magnificência do destino
que imaginamos para os mortos poderosos;
as histórias encantadoras que lemos ou escutamos:
fonte inesgotável duma imortal bebida,
que vem do limiar do céu e para nós se derrama.

E não é apenas por algumas horas passageiras
que nos abandonamos a estas essências; assim como as árvores
murmurando à volta dum templo logo se tornam
tão amadas como o próprio templo, também a lua
e a paixão da poesia, glórias infinitas, tantas vezes
nos assombram, até serem uma luz vivificadora
da alma, e com tanta firmeza nos cingem,
para que, esteja a brilhar o sol ou se apaguem os céus,
elas existam eternamente em nós, ou morreremos.


Keats

[In Poesia Romântica Inglesa, Byron, Shelley, Keats,  prefácio e tradução de Fernando Guimarães, Relógio D´Água, Lisboa, 2010, p. 113]





AMPLITUDE










segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

COMO TU

COMO TU



Eu, tal como tu,
amo o amor, a vida, o doce encanto
das coisas, a paisagem
do céu do mês de Janeiro.
Também meu sangue se agita
e rio com olhos que bem conhecem
o brotar das lágrimas.
Creio que o mundo é belo,
que a poesia é como o pão, de todos.
E que minhas veias não acabam em mim
mas no sangue unânime
daqueles que lutam pela vida,
pelo amor,
pelas coisas,
a paisagem e o pão,
a poesia de todos.


Roque Dalton

Fonte: http://ruadaspretas.blogspot.pt/2016/01/roque-dalton-como-tu.html 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Sensibilidades

Sensibilidades



Por vezes, a facilidade com que habitualmente transmito o que me vai na alma esquiva-se. 
O turbilhão que em mim se instala enreda-me o coração, as palavras e a mente. 
Anseio falar mas impera o silêncio.
Os olhares que me rodeiam desesperam na tentativa de captar aquilo que não transmito. 
Tarefa árdua a deles se nem mesmo eu me decifro nesses momentos.
- Preciso de tempo – é a única coisa que me ocorre dizer, a única que consigo balbuciar por entre os meus suspiros interiores.
Pouco depois o âmago aquieta-se, a tempestade passa, e eu renasço outra vez. 
FR® 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O aprendiz



O aprendiz

Primeiro construí na areia, depois na rocha,
Quando a rocha ruiu,
Não construí mais nada.
Depois construí muitas vezes de novo
Ora na areia, ora na rocha, porém
Eu aprendi.

Aqueles a quem confiei a carta
Jogaram-na fora. Os outros, que nem notei,
A mim a trouxeram de volta.
Então aprendi.

O que eu mandei fazer não foi realizado,
Mas quando cheguei ao lugar
Vi que seria errado. O certo
Foi feito.
Disso eu aprendi.

As cicatrizes doem
No tempo frio.
Mas eu digo sempre: só o túmulo
Não me ensina mais nada.


Bertold Brecht

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

(XVII)




(XVII)


Não desafies 
a alegria. 

Quando ela chegue 
um instante só 
não lhe perguntes 
porquê? 

Estende as mãos ávidas 
para o calor 
da cinza fria. 


João José Cochofel

Outono





A luz mudou,
o dó está mais cavo agora.
E a canção da manhã retumba no espaço.

Eis a luz outonal, não a luz da primavera.
A luz de outono: Tu não serás poupado.
A canção mudou, penetrada
pelo indizível.

Eis a luz de outono, não a que diz:
Nasci de novo.
Não a aurora da primavera: Fiz força, sofri, fui parida.
Eis o presente, alegoria de desperdício.
Muito mudou, mas tu tens sorte: 
o ideal arde em ti como febre.
Ou não como febre, mas como um segundo coração.

A canção mudou, mas é ainda uma beleza.
Confinada agora a um espaço mais pequeno, 
o espaço da mente.
Um pouco triste, algo desolada, angustiosa.

Mas comparecem, as notas, rondam estranhamente,
antecipando o silêncio.
E o ouvido habitua-se a elas,
como os olhos se habituam à ausência.

Tu não serás poupado, nem será poupado o teu amor.
Um vento veio e se foi, desarticulando a mente
e deixando no seu rasto uma estranha lucidez.

Ó privilégio, este de viver com paixão
agarrado àquilo que se ama,
não ser destruído pela perda da esperança.

Maestro, doloroso:
Eis a luz de outono, derramada sobre nós.
Ó privilégio, acercar-se do fim 
e crer ainda em alguma coisa.

Louise Glück
(Trad. A.M.)

http://ruadaspretas.blogspot.pt/search?updated-max=2015-11-03T09:08:00Z



Fortuna, fama, tudo podes perder, mas a felicidade do coração, ainda que por vezes esteja obscurecida, torna a vir enquanto viveres. Enquanto puderes erguer os olhos para o céu, sem medo, saberás que tens o coração puro, e isto significa felicidade. 

Anne Frank



Ainda ontem pensava que não era

Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:

"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"

Kahlil Gibran